Reticências três da manhã - Conto
Era três e quatro da manhã. Laura decidiu ficar acordada. Não fazia mais sentido do que dormir pra acordar daqui a três horas. Ia fazer café e comer uma maçã. Leu em algum lugar que maçãs te deixam mais acordado que cafeína. Além disso seus dentes ficam limpos. O queria ótimo para uma boa impressão. Não seria? A roupa estava escolhida e passada, dobrada em cima da cômoda. Iria com os sapatos de salto baixo para se sentir mais confortável. Foi na cozinha, preparou seu café, pegou sua maçã e voltou pra cama.
Sentada com as pernas cruzadas para não correr o risco de dormir. Devia ter tomado algum remédio mais cedo, pensou. Mas no fundo ela morria de medo de tomar remédios pra dormir, sempre achava que não ia acordar. Foi procurar uma dessas palestras motivacionais no YouTube. Algo como a JK Rolling sendo uma dona de casa sem dinheiro até ficar milionária depois que tudo deu errado. Pelo menos ela fez uma boa faculdade, suspirou.
Laura passou sete anos em empregos ruins para pagar uma faculdade mais ou menos. Sendo a secretaria da secretaria, servindo café, alimentando planilha. Em casa desenha, assistia filmes, escutava música. A mesma rotina de sempre, mas com boletos no fim do mês. A diferença é que coisas que te faziam legal naquela época não importam mais. Quer dizer, seus amigos e família ainda riem das suas piadas e querem saber do seu dia. Mas se saber todas as letras das músicas de Rocky Horror Picture Show não te dá uma promoção, pra que sequer falar sobre?
E J. K. Rowling era uma mãe solteira. Laura também era solteira, mas sem filhos. Sem um projeto de no mínimo dezoito anos que compensasse seu fracasso. Se sentia cansada, sem fraldas no taque, sem marido alcoólatra. Sobre o que ela ia reclamar quando precisasse explicar mais um ano sem um emprego estável? Suspirou e pensou como era uma pessoa horrível por pensar isso. É claro que é mais difícil com um mini-humano extra pra carregar. Mas às vezes ela bem que queria poder reclamar da sujeira dos seus gatos do jeito que sua irmã reclamava da bagunça dos filhos. Bem, pelo menos os seus não aprendiam um palavrão novo toda semana.
Abriu outra aba, colocou Friends como barulho de fundo, precisava desligar o cérebro só o suficiente para não ficar ansiosa. Ia cutucar as unhas agora. Que apartamento maravilhoso, pensou, por que séries mentem tanto? Não que não gostasse do apartamento em que morava, seus quatro cômodos eram bons o bastante. Dava um certo senso de calma, poder olhar tudo da cozinha. Finalmente entendeu como usar todos os produtos de limpeza daquela área do supermercado. O que foi uma das maiores conquistas da sua vida adulta. Meu deus, que deprimente. Não conseguiu segurar o riso.
As vezes deitava na sua cama enorme com colcha azul cheia de babados pensava como a vida quase foi diferente. Aos dezoito anos havia engravidado do primeiro namorado, e ele queria casar com ela e tudo. Mas escolheu a coisa sensata e abortou. Hoje ele era um grande engenheiro, trabalhava em uma grande construtora. Bem diferente daquele garoto meio tímido que usava gel de cabelo. Ela achava aquilo tão nojento, mas ele era bom com ela, então ela pensou, por que não? E eles namoraram por dois anos.
Hoje ele era casado com uma mulher loira e alta, o grande prêmio do homem brasileiro mestiço. As vezes ela via o instagram da outra, com suas fotos na praia e um garotinho da cabeça grande e loira. Não que sentisse ciúme, mas aquilo tudo que viveu com ele foi em outra vida. Sua encarnação de cabelo vermelho de um vinho berrante, espinhas e aparelho no dente. Achava que ia ser uma artista, afinal era tão inteligente, lia Sandman e tudo mais.
É bizarro como quando jovens temos essa impressão de que somos ao mesmo tempo a pessoa mais talentosa e esperta que já existiu e também a mais idiota. Você acha que sabe e entende tudo, afinal os adultos viviam em uma época diferente. Eles não assistiram todos os documentários que você assistiu. Nem leram aqueles sites de notícias feitos por jovens sem nada a perder. Nem começaram uma nova moda de fotos de gatos com cachecóis como você começou no seu tumblr. Nem sabem nada sobre isso. Até que você tem que declarar imposto de renda e de repente o pai contador do seu melhor amigo é que parece a pessoa mais inteligente do mundo. E você é só um idiota com Internet.
