Sobre um texto não escrito — Crônica

Fernanda Maria
Sep 5, 2018 · 4 min read

Olho para texto reviro os olhos, mordo o lábio, machuco o lábio que mordi. Respiro fundo, apago tudo.

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E lá se vão todos aqueles caracteres mastigados durante meia hora de trabalho. É incrível como os pensamentos na minha cabeça parecem não acompanharem o teclado e de repente eu estou escrevendo sobre qualquer outra coisa. Tudo menos o que queria dizer esta no papel. Talvez se eu tentasse ser um pouco política, fizer um texto de protesto sobre nossa sociedade capitalista e como estamos vendendo até nossa imaginação. Mas espera, não é isso que eu quero?

Vender minha imaginação, e nem precisa ser por muito porque o aluguel tá vencido já faz tempo. Ok então, sem hipocrisia seria melhor. Talvez um texto feminista, e pronto aí então que ninguém vai ler. B*** é que tinha sorte, machismo tem bem mais apelo popular. Quem sabe se fizesse um texto bem auto ajuda, sobre como você pode usar sua luz interior. Isso me lembra que ainda não paguei a conta da luz. Talvez eu pegue a minha luz interior e ligue no abajur assim posso escrever por mais tempo.

Tic tic tic

Meus dentes batem e nada sai, as teclas estão lá com suas letras e símbolos, e tenho que admitir que escrever com um teclado pode ser mais útil do que com o lápis. Mas tudo se move tão rápido, menos minhas ideias. Lembro de ver em algum lugar que pessoas com insônia pensam mais devagar. Quem sabe se eu dormir das dez as oito eu consigo escrever melhor. Um pouco de sol e café pela manhã pode cair bem. Quem eu estou enganando? Odeio sol e café! Isso mesmo, ou uma escritora que odeia café, os intelectuais e jornalistas que me perdoem. Mas uma bebida quente e amarga que te deixa acordado não perece exatamente um sonho. Só com muito açúcar um bolinho.

Penso em ir tomar uma chuveirada. Quem sabe a água derrame algo. Entra no meu ouvido e deixa sair algo brilhante e novo. Quem sabe… Até a filosofia começa a fazer sentido depois que você está limpo e relaxado. Mas eu continuo torta e confusa na minha cadeira que muda de posição em frente a escrivaninha. Ela é feita de madeira escura e grossa. E ai meu deus! Já estou até descrevendo móveis, quão desesperada posso estar? Daqui a pouco vou descrever a paisagem da minha janela e relacionar o tempo ao meu estado emocional. Quantos clichês cabem em um parágrafo? Além de falar de clichê? Talvez sobre espaço para crise existencial e algum questionamento sobre minha sexualidade e duas ou três sentenças de sentido dúbio.

Poderia até procurar umas palavras longas pra valorizar o texto e não parecer algo saído de uma série mal feita pra TV. Olho pra TV, gosto dela. Me dá ideias, só não tenho coragem de confessar isso. Minhas brilhantes descobertas precisam sair de algum livro de um autor renomado e cheio de títulos inventados por faculdades. Aqueles que você exibe em um diploma pra mostrar o quanto sabe sobre o assunto e poder impor o que sabe sob as outras pessoas. Nunca poderia tirar a inspiração da frase mais trivial de um programa de televisivo. Não seria válida, eu seria burra. Mas de que vale o senso comum se eu não posso usar ele como justificativa? Ele nunca é solução, nunca fecha questão nenhuma, só me prende a uma retórica sem fim.

E lá estou fazendo mil e umas indagações filosóficas sobre porque um programa sobre celebridades tem mais audiência do que aquele sobre filosofia. Quando na verdade eu adoraria estar escrevendo sobre qualquer coisa, e me identifico bem mais com aquela celebridade que trocou de namorado dez vezes esse ano do que com aquele cara branco que viveu a, literalmente, séculos atrás. Mas não seria válido escrever sobre isso. No fim seria mais um artigo pseudo intelectual sem profundidade e cheio de teorias conspiratórias e prepotência.

Talvez eu devesse escrever sobre sapatos, e falar uma coisa complexa de uma maneira simples. Fazer uma analogia entre compras e a vida de um “cidadão contemporâneo”. A sexualidade reprimida e a compulsão por compras. A falta de libido das mulheres das mulheres, a falta de profundidade dos homens. A falta de interesse de todos. A minha falta de interesse em escrever.

Recosto na cadeira e a dou um suspiro tão alto que meu corpo vai pra trás e aí a gravidade entra em cena. Tampuft não chão e a cadeira. Dou uma cambalhota que nunca achei que seria capaz de dar. Vivendo e superando limites, agora sei o que isso significa. Bati a cabeça no chão e as costas na cadeira, meus braços ficaram num ângulo até então inexplorado. Eu tento levantar em um pulo, mas meu corpo não é tão parceiro das minhas ideias assim. Mas devagar consigo levantar, talvez seja hora de parar um pouco. São essas quedas e pulos da vida, e eu pensando em filosofia e celebridades. Quando podia muito estar fazendo algo mais corporal, como sexo ou yoga. Talvez me ajudasse na próxima queda e eu um dia ia conseguir me levantar em um pulo. É então que tenho a ideia: vou juntar energia no meu corpo pra trabalhar melhor. Pego meus fones de ouvido na primeira gaveta e escolha uma música bem feliz. Hora de pular pra valer e levar todos os pensamentos pra pontas dos pés, quem sabe o chão leve eles de volta pra cabeça. Um dia eles chegam às mãos aí escrevo algo de bom e satisfatório.

Depois de cinco músicas e da minha roupa parecer quente demais, paro e olho pro relógio. É muito tarde pra quem não dormiu e muito cedo pra quem vai acordar. Acho que meu texto vai nascer outro dia. Meu bico de quem não recebeu o que esperava não convence nem a mim mesma. Olho para o espelho e só vejo bagunça no meu cabelo e minhas olheiras delatoras. Hora de ir procurar algum conforto no chuveiro e depois no edredom. Quem disse que inspiração e as palavras andam juntas? Talvez outro dia eu escreva sobre a noite que não consegui escrever nada.