É mentira como me vês e como te vejo
Uma projeção de um e de outro com as referências do passado e os medos do futuro.
Não existe verdade sem o presente se a verdade é tudo menos a interpretação. A interpretação exige tempo de cognição e o tempo desloca a realidade do seu momento único e genuíno de existência.
O deslocamento provoca carência, ausência, porque se perde o sentimento legítimo da presença quando da necessidade de repetição do momento autêntico, que não alcança jamais a perfeição da verdade porque a expectativa já se baseia na projeção idealizada interpretada da ultrapassada verdade.
O amor cresce quando há liberdade porque na filosofia da liberdade se pratica a não repetição, na medida que cada momento implica o livre arbítrio e dele surge novamente a autenticidade da verdade sem a representação do passado ou a projeção do futuro, uma nova verdade genuína.
Toda e qualquer coisa pode acontecer e o arrependimento não existe porque não há perspectiva: não há necessidade de análise ou de reflexão porque tudo é uma possibilidade e a probabilidade não depende senão do instinto provocado por aquele mesmo momento legítimo real e carnal.
O mundo digital virtual coloca em perigo a verdade porque torna as relações humanas independentes do encontro físico e genuíno, ao potencializar a projeção de um de outro quando o deslocamento do tempo presente no processo cognitivo se soma à significação de palavras sem sua verdadeira expressão, que se manifesta com autenticidade nos tons de voz e maneiras do diálogo e do contato presente.
As relações são assim mais pobres de verdade. E então passamos a questionar a seriedade das nossas relações, como se duvidássemos da sua verdade, da sua honestidade ou genuinidade.
Numa tentativa de interpretar uma relação deslocando-a do seu momento legítimo e buscando enquadrá-la em um algum tipo de modelo interpretativo que nossa capacidade cognitiva é capaz de definir com base naquelas mesmas referências passadas e medos futuros, se desmancha a verdade do momento presente, substituindo o legítimo pelo suposto.
A verdade se perde num conceito difuso de seriedade que significa nada que não a projeção de algo, em vez de ser a própria seriedade a verdade experimentada no momento genuíno.
O suposto engole e esconde a verdade, se passando por ela, como uma imagem ideia fictícia, uma idealização. A verificação da seriedade, que devia ter de ver com o momento de liberdade e autenticidade do presente, o corrompe, pois não há verdade na expectativa, no intangível, já que existem quaisquer possibilidades que não a repetição de um momento-genuíno. O amanhã é naturalmente incerto e a repetição é naturalmente imperfeita.
