Amo tanto as mulheres que além de feminista, sou sapatão
*Por: Aline Miranda

Lá nos primórdios, durante minha graduação em Letras na UFF, eis que surge uma figura maravilhosa (gracias, Evelyn), uma aluna que, com sua amizade e presença lésbica, tira uma galera do armário. Soa engraçado, e até é, mas também não, e explico: eu, por exemplo, namorava uma menina, mas não ficávamos amorosamente na frente das pessoas. Amigas menos próximas achavam que eu era “solteira”, família então, nada sabia, algumas pessoas especulavam, em tons preconceituosos, sempre. Pense… é horrível viver assim, sob a sombra de si. Viver trocando máscaras. A gente até se acostuma, acha que é o “normal”, mas não se sente plenamente inteira, feliz. Enfim.
O ano agora é 2017, estamos em agosto, mês da visibilidade lésbica. O país atravessa tempos sombrios, de golpes diários e de um extremismo crescente. O cotidiano tem sido amargo, salvo respiros de afetos, amor e arte. Feminismo e machismo são palavras cada vez mais usadas e nem sempre com conhecimento suficiente. A luta por direitos (pela manutenção e por novas conquistas) faz-se urgente e necessária. Ser mulher na nossa sociedade é foda. Ser mulher que ama outra mulher é duplo ato de resistência e coragem. Vivemos um momento tão absurdo que ser lésbica é correr perigo.
Esse texto começa nublado, sim, mas não sem esperança e força. É apenas uma triste realidade. Mas da lama nasce a flor, lótus. A sombra da lua é também pulsão, Lilith. E, se de um lado temos números de feminicídios e lesbofobias alarmantes, por outro lado a união, o debate e o fortalecimento entre as mulheres está cada vez mais presente, atuante e em expansão. Porque precisamos resistir, lutar e seguir.
Se não nos abrem portas, nós as construimos, nós as derrubamos, não vamos e nem podemos esperar. Ser sapatão e atuante é a minha realidade, não há alternativa.

Tenho muito orgulho de contribuir, um pouco que seja, para a queda de muros de preconceitos e dificuldades em nossas vidas. Seja nas conversas de cada dia, seja produzindo eventos, seja escrevendo, seja vivendo, seja amando e dizendo. Na insistência do diálogo afetivo e respeitoso com as pessoas. A gente tem que se colocar. Num verão, junto a outras (futuras amigas) lésbicas, organizamos o “Isoporzinho das Sapatão”, que consistia, simplesmente, em ocupar determinados espaços públicos com nossos corpos existindo e se divertindo. Foram encontros maravilhosos e agregadores. Muita energia e tempo foi colocada por nós nesse projeto e muitas meninas lésbicas apareceram para ocupar com muito brilho praças cariocas da Zona Norte, Sul e Centro, e de Niterói. Outros grupos foram depois se organizando em eventos semelhantes por outras cidades. Coisa linda. E uma parte das organizadoras produz a “Velcro”, festa voltada para meninas lésbicas, que já completa dois anos de atuação na noite do Rio de Janeiro. No ano passado, junto à mulher com quem eu me relacionava amorosamente, tiramos do papel a “Feira Velcrx”, um projeto voltado para empreendedoras lésbicas e trans mostrarem seus trabalhos ao público. Muitos relatos intensos e importantes ecoaram desses atos.
Para mim, transformou-me já o fato de deixar meu nome como uma das organizadoras de um evento explicitamente “sapatão” em seu título. Foi como dar mais um passo para fora do armário em que eu acreditava estar “saída” totalmente. É assumir-se para mais um grupo, uma nova esfera, e assim, nesse ambiente maravilhoso/pavoroso que é a internet.
E a cada nova confirmação de presença no evento do facebook (um novo “sair de armário”), nossa alegria aumentava e nos dava certeza da escolha desse caminho. E assumir-se publicamente é tão importante! A cada nova mulher que se diz sapatão, outra tem mais força para fazer o mesmo e contagiar mais uma e assim sucessivamente. Danielas, Adrianas, Marias e Cássias, tão importantes na desconstrução dos preconceitos alheios. Eu e você. Porque representatividade, toda ela. importa, sim!
Sororidade para mim é cotidiano. Toda sapatão deveria ser feminista. Nem sempre são. Juro. Mas é essa nossa luta que nos une e nos faz mais fortes, como a metáfora do ramo de gravetos que, quanto mais unidos, mais difíceis de quebrar. E a gente sabe que se bobear, quebram. É horrível, mas a violência verbal e física está aí, todos os dias. Se você é lésbica, a insegurança de andar na rua, de amar em público, abraçar e beijar é ainda maior. Uma sociedade machista não compreende o amor entre duas mulheres. Mas… por que o afeto alheio incomoda tanto se é, justamente, alheio?

Outro dia, na verdade noite, percebi a realidade que meus olhos se acostumaram a ver, que minha cabeça aprendeu a desligar um pouco, que meu coração deixou de sofrer tanto. Uma mulher me beijou. Na rua. Um homem viu e reagiu verbalmente. Apenas um beijo. Tantos beijos presenciamos e por tantos passamos todos os dias. E que bom. Ainda se ama, ainda se beija, apesar de. Pois eu fiquei surpresa com a naturalidade com que uma mulher bissexual beijava outra mulher na rua. Percebi o espanto dela com a lesbofobia (e o machismo, a misoginia). O espanto meu com a coragem dela. O espanto nosso com o meu não querer demonstrar meu afeto assim, em via pública, por medo, por memórias ruins minhas e de tantas outras mulheres lésbicas, que conheço ou não pessoalmente. Conversamos dias depois sobre o acontecido e chorei. Por tudo isso. É sofrer um machismo duplicado. É muito triste a gente perceber que naturaliza o horror.
Sapatão é potência extra. É vulcão delirante, é soma de poderes, combinação astral magnâmica, é bomba de amor pulsante, é duas. Ser mulher e amar outra mulher é revolucionário. Os homens que me desculpem, mas amar uma mulher é sensacional. Precisamos falar sobre nossas existências lésbicas. E, às vezes, é preciso (e necessário) se expor para isso. Com coragem e entrega. Seja escrevendo textão nas redes sociais, seja escrevendo em revistas, livros, muros, cartas, filmes e canções. Seja beijando mulher na rua. A gente tem que naturalizar o amor. E é na existência que a gente resiste.

*Aline Miranda é poeta, feminista e sapatão.
Virginiana de 1984. Nascida em Brasília, criada em Cabo Frio, vivida em Niterói (5 anos), Rosario (3 meses) e Rio de Janeiro.
Graduada em Letras pela UFF e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio.
Revisa textos, faz zines de poesia, escreve cartas de amor por encomenda e dá oficinas de experimentação poética na máquina de escrever.
Poeta desde os 9, lésbica desde os 17, feminista desde sempre.

