Resistência Incondicional

Feminicidade
Aug 29, 2017 · 4 min read

Por: Sarah Hannah *

Primeira Manifestação Lésbica no Brasil. São Paulo, 19 de agosto de 1983

Entre porcas, parafusos e equações diferenciais, arrumei um tempo pra falar um pouco sobre o que é ser sapatão**. Sou mecânica de bicicleta, engenheira metalúrgica e mestranda em inteligência artificial, coisas que em geral a sociedade abomina/surpreende quando vê uma mulher fazendo. Claro, com pesos absolutamente diferentes, aposto que ninguém é agredida na rua, por exemplo, por ser engenheira ou mecânica de bicicleta, mas certamente essas são coisas que desconcertam a maioria esmagadora dos meus colegas de profissão.

Integra e aperta mas não erra, o torque e o toque, afinal, se errar, é porque “ah, é menina fazendo…”

?!

Na porta da oficina é comum perguntarem: “E quem vai consertar a bicicleta? Cadê O mecânicO?”

Esforço adicional para explicar e fazer acreditar que…Sou eu mesma! E, na vida acadêmica, não é diferente; há dúvidas de mulheres que geram risos e constrangimentos, mas são muito pertinentes quando colocadas por homens.

E, assim, vamos acumulando opressões e tendo que fazer sempre mais. O cansaço é o fruto da desigualdade de gênero, orientação sexual, raça etc…As estruturas de poder certamente se alimentam da nossa força vital mas, ainda assim, arranjamos tempo para participar daquele debate, ir àquela manifestação, resistir organizadamente.

Nunca vou esquecer de uma grande companheira negra, lésbica, periférica, que, numa manifestação, ao ser questionada por um companheiro — homem, branco, hetero, de classe média — sobre sua permanência na linha de frente dos atos que aconteciam, ela respondeu: “Você sabe quantas linhas de frente eu enfrento todo dia?!”

Crédito: Thais Medina

Pra quem sofre algum tipo de opressão, a resistência é diária e não só organizada. Há alguns dias atrás, eu andava pela Lapa com minha namorada quando, do ônibus que passava, ouvi gritarem a um rapaz com uma criança no colo: “Ei, ‘Fulano’, essa vida de paizão hein?!”. O ‘Fulano’ era um ex-companheiro de militância dele, e meu também, com o qual eu e muites outres romperam politicamente ao longo do tempo sinalizando as opressões que aquele perpetuava. Homem, branco, hetero, cis, “bem nascido”.

Dali, segui com minha namorada até o Bob’s, onde fomos severamente hostilizadas enquanto nos beijávamos, pelo segurança da lanchonete. Cheguei até a fazer um vídeo para denunciar depois. Mas, o ponto é que, após o momento de tensão e ameaças do segurança, me pus a pensar: “Eu também, assim como o ‘Fulano’, me afastei muito dos movimentos sociais, que já foram, em determinado momento, minha vida no todo. Contudo, de alguma forma, uma simples ida à lanchonete, me fez ter que “voltar”, resistir, me apoiar em pessoas que sofrem da mesma opressão que eu”. Observe: “ter que”.

Os movimentos sociais e minha inserção neles, não são algo “opcional”, algo que eu posso simplesmente não querer mais porque tô curtindo uma “vida em família”, como no caso do companheiro. A resistência é tão visceral e intrínseca quanto a opressão que nos atravessa.

Infelizmente, sigo muito pouco crédula na aliança com pessoas que não sofrem nenhum tipo de opressão. Mas, o apoio recebido, a compreensão no olhar de cada uma que contei sobre o pequeno embate daquela tarde de domingo são os laços da rede de apoio mútuo que fortalece a nós e a nossa resposta, reação tão coletiva quanto a ação lesbofóbica. Pois, se no momento em que nos constrange, o segurança conta com o apoio de toda uma sociedade lesbofóbica para respaldar sua atitude, para demonstrar que nós não deveríamos estar ali, ele age coletivamente, e assim deve ser a sua resposta.

Apoie suas manas.

**Gente, lésbica é muito “limpinho” pra mim, sou é sapatão mesmo! hehe

Sarah Hannah

*Sarah Hannah é engenheira metalúrgica (UFRJ), mestranda em inteligência artificial (PUC), chefe de mecânica da oficina Persé (Escola Park Tool-SP e Bike Rio), ativista e sapatão.
99% Geminiana mas aquele 1% marte em câncer.
Nascida no Rio, criada em quase 15 casas diferentes nesse mesmo Rio, mas também ‘residente’ de MG, PA e SP.
Divide o tempo entre oficina, mestrado, o irmão de 17 anos que mora com ela, a namorada de SP (sapatão, né, mores?) e um projeto de logística reversa e recuperação de bicicletas abandonadas.

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