Como construímos a vila das mulheres de Jinwar em Rojava
“Hoje, as mulheres em Jinwar se recriam de suas cinzas para desenvolver sua própria identidade autodeterminada”

Texto de Rûmet Heval, publicado a 30 de dezembro de 2018 na Komun Academy | Tradução de Aline Rossi / Feminismo Com Classe

Ao andar pelas ruas onde a revolução das mulheres de Rojava/norte da Síria vem ocorrendo nos últimos anos — uma revolução que floresce de suas próprias sementes –, a história serviu como nossa guia. Deparamo-nos com estátuas de deusas, nomes de aldeias, poemas, histórias folclóricas, tatuagens tradicionais de fertilidade no corpo das mulheres (deq), símbolos e sinais nas paredes das casas das pessoas… Viajamos por muitas aldeias que tinham nomes de mulheres: Gundê Selma, Xezalê, Xatunê, Xizne, Hermel, Tuz Ana, Derin Ana, Cirn Ana, Kaya Ana, Kırk Kızlar, Kız Tepesi, Gozeltepe e muitos outros. Tudo isso nos forneceu os meios para imaginar nossos sonhos, com seus tecidos históricos e tesouros de conhecimento.
Começamos nosso período de construção com um grupo de amigas. Além de uma forma de vida concreta, nosso projeto consistia em responder à pergunta “Como viver?”. A construção da vila das mulheres de Jinwar foi bem-vinda, seguida e apoiada por todos que contribuíram para a revolução de Rojava, com entusiasmo e alegria. Logo, nossos números aumentaram, bem como a riqueza e diversidade de pensamentos, ideias e perspectivas que criaram a vila. Todos saudaram nosso desejo de criar uma vila ecológica para mulheres, cuja economia seria baseada no cultivo, agricultura e trabalho manual e mental das mulheres.
Em vez de usar concreto na arquitetura da vila, preferimos usar tijolos de barro para casas arejadas de um só andar e com grandes pátios, pois tínhamos experiência e conhecimento suficientes a esse respeito. Avaliamos modelos de assentamentos que possibilitariam uma vida comunitária, onde as mães poderiam criar seus filhos confortavelmente e onde a vida seria geralmente acessível e funcional. Através de um longo processo de discussão, chegamos à conclusão de que cada casa deve ter seu próprio jardim, que cada moradora deve receber um terreno designado a atender às suas necessidades sazonais, que áreas de cultivo, agricultura e jardinagem devem ser disponibilizadas para atender à autossustentabilidade das necessidades emergentes da vida comunitária e que esforços devem ser feitos para plantar árvores na vila. À medida que essas discussões prosseguiam, foi determinada a área onde a vila seria construída. Assim, a construção da vila começou com o processo de plantio de árvores.

Além das discussões sobre o sistema de vida e construção da vila, queríamos criar projetos para crianças. Ao discutir o sistema educacional, tomamos o cuidado de aumentar o entusiasmo das crianças em aprender, prestando atenção a coisas como o fornecimento de grandes áreas verdes e salas de aula redondas. Cuidados especiais foram tomados para garantir a existência de instalações de recreação para crianças, bem como meios para as mulheres se envolverem em atividades sociais e trabalharem para melhorar sua capacidade de desenvolver seus talentos e aprender novas habilidades. Os lares foram projetados para constituir um círculo, com as casas voltadas umas para as outras, de modo que sirvam simultaneamente como os muros da vila. O centro é o espaço designado para as crianças brincarem.
Além das 30 casas e do sistema escolar, foram construídas a padaria ‘Aşnan’, a ‘Loja da Minha Irmã’, o Centro de Saúde Natural ‘’Şifajin’’ e a “Academia Jinwar”. Se também contarmos os abrigos de animais para nossa economia de subsistência ecológica, podemos falar de um total de 50 edifícios em nossa aldeia, incluindo casas e instituições.
Para encontrar uma representação visual da nossa vida, queríamos decidir um símbolo. Começamos a considerar símbolos diferentes, como a Shahmaran, a Rainha das Cobras, uma criatura mitológica feminina regional que representa fertilidade, abundância e sabedoria, ou a deusa da Mesopotâmia, Kubaba, com romãs em suas mãos, ou a deusa da fertilidade do norte da Síria, Atargatis, ou a Ashnan histórica, deusa dos grãos da Mesopotâmia. No final, concluímos que nosso símbolo deveria ser a planta de ervas (Rue síria ou perganum harmala), que cresce nas colinas de terra preta e é usada por curdos, árabes, sírios, assírios, armênios e chechenos na região como um remédio caseiro todos os dias. Acredita-se que a planta remova pensamentos negativos e seja uma cura para mais de 200 doenças diferentes. Escolhemos a decoração de parede comum feita de hermel como o símbolo de Jinwar.
Enquanto todo mundo estava inundando a propriedade vazia para lançar as primeiras fundações de nossas casas, houve muitas discussões sobre o nome da vila. Logo decidimos que deveria ser Jinwar. “Jinwar” ou “Warê Jinan” significa o “lugar onde vivem as mulheres” ou o “habitat das mulheres”.
À medida que nossa pesquisa, cálculos de custos, planejamento de infraestrutura e logística (equipamentos de construção, veículos, obras rodoviárias etc.) prosseguiam, começamos a fabricar tijolos de barro. Para isso, consultamos trabalhadores e pessoas conhecedoras. Quem estivesse curioso sobre nosso trabalho, passava pela nossa vila. No espírito da vila, grupos multilíngues e multiculturais reuniram-se e juntaram esforços para a construção da vila. A harmonia complementar entre as muitas línguas e culturas que forneceram mãos ajudantes parecia tão natural e empolgante que muitas vezes esquecemos que não falávamos a mesma língua! Através de uma combinação de imitações, gestos e trabalho coletivo, conseguimos nos comunicar e entender. Às vezes, tivemos que coletivamente transportar o solo para o nosso lugar de outras áreas. Fizemos feno, carregamos pedras nas costas e no colo.

Superamos nossas tarefas mais difíceis com a ajuda de todos os convidados que vieram nos visitar. Enquanto nossos convidados da Europa colocavam cobertores nos tijolos de barro para protegê-los da chuva, as mulheres árabes estavam empurrando seus carros presos para fora da lama. Algumas pessoas ficaram muito curiosas com a nossa situação, mas estavam muito distantes, e tentavam nos apoiar por telefone. Dessa forma, até as tarefas mais difíceis se tornaram agradáveis. As administrações locais não esperavam uma ligação ou convite para nos trazer os materiais e ferramentas necessários. Diferentes instituições de Rojava vieram em grupos para perguntar por maneiras pelas quais poderiam apoiar a construção da vila. Mulheres eletricistas e carpinteiras de diferentes partes do mundo expressaram seu desejo de viajar até a vila para trabalhar. Havia muitas mulheres que acreditavam que a vida aqui seria linda, mesmo antes da construção da vila das mulheres. À medida que o projeto se desenvolvia e tomava forma, a sociedade se tornava cada vez mais empolgada. Todo mundo queria participar, mesmo que isso significasse colocar apenas uma pedra na outra.
Nem um único momento se passou sem ação. Mesmo durante as pausas para o chá ou as refeições, tentávamos encontrar soluções para os problemas que enfrentávamos. Discutíamos maneiras pelas quais podíamos melhorar nossa capacidade de cooperar. Há um ditado em curdo: “tekîliyên bi nan û xwêy” — laços através pão e do suor — que parece ter sido atualizado com a construção de Jinwar. Realmente conseguimos criar um estilo de relacionamento que compartilha e produz tudo sem interesse próprio.
A construção da vila das mulheres começou em 10 de março de 2017, logo após as comemorações do dia internacional das mulheres no 8 de março, e abriu suas portas para as residentes e trabalhadoras em 25 de novembro de 2018, o dia internacional contra a violência contra as mulheres. As mulheres começaram a se candidatar para morar na vila, mesmo enquanto as obras estavam em andamento e se mudaram quando as casas estavam terminando. Elas lideraram a cerimônia de abertura de seus próprios lares.
As mulheres de Jinwar queriam se basear em princípios democráticos que respeitam os direitos de todas as pessoas e garantem a capacidade de todas de participarem da vida como iguais. Assim, começaram os debates de Jinwar sobre o conselho de mulheres da vila. Toda mulher que se estabelecer na vila pode participar do conselho da vila e ajudar a planejar a vida da vila. As mulheres de Jinwar podem assar coletivamente seus pães na padaria ou cozinhar e comer na cozinha comunitária. Na escola, na academia ou no centro de saúde, bem como nos domínios da agricultura, mídia e diplomacia, toda mulher pode assumir responsabilidades com base em seus próprios desejos. Ela pode moldar a vida social, receber as delegações visitantes, administrar a loja com seus próprios produtos, de acordo com suas próprias necessidades. Ela pode estudar e participar de discussões na Academia. Ela pode discutir e compartilhar seus pontos de vista sobre mulher e vida, co-vida livre, mulheres e ética-estética, mulheres e ecologia, mulheres e economia, mulheres e história, mulheres e saúde/saúde natural. As mulheres podem, é claro, providenciar suas necessidades além da vila, elas fazem visitas familiares ou convidam e hospedam seus entes queridos na vila. Mas os homens não podem passar a noite na vila.
Quando as mulheres contam suas histórias, fica óbvio que cada uma delas espera o início de uma nova jornada com a vida na aldeia. Nas discussões realizadas em nossa vida cotidiana, as mulheres expressam constantemente sua felicidade: “Quão grande é a nossa existência, quão grande somos nós unidas, quão grande somos aqui. Todo grupo de mulheres pode imaginar e criar esses espaços e aldeias para elas próprias.”
Jinwar surgiu como o esforço coletivo e o trabalho de voluntárias e mulheres trabalhadoras curdas, árabes, armênias e circassianas. Jinwar foi construída no solo de propriedades agrícolas áridas, um terreno pedregoso e seco, onde os animais pastam e as crianças brincam no verão. Pela primeira vez, este pedaço de terra está passando por um período de criação de tais dimensões: seu próprio solo, água e pedras forneceram a base para a construção de uma vila inteira de mulheres. Constitui uma geografia para diferentes comunidades, culturas e crenças se misturarem na criação de uma nova vida. Cada pessoa que pisar neste solo fica plena da alegria de contribuir com algo para esse empreendimento histórico.
Hoje, as mulheres em Jinwar se recriam de suas cinzas para desenvolver sua própria identidade autodeterminada.
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