Feminismo desde Angola

Dos desafios das mulheres angolanas em construir o movimento feminista

Feminismo Com Classe
Nov 5 · 4 min read

Texto de Tchenguita Mawela

É comum pensar-se em África como um continente monocromático, um continente em que todo africano é simplesmente africano e ponto.

Talvez tal estigma advenha do facto do Continente ter sido delimitado numa mesa com régua e compasso sem a autorização dos próprios africanos, sem se ter em conta suas vivências e histórias.

Mas a verdade é que existem muitas Áfricas, assim como existem africanos múltiplos, com variadas realidades. E todos nós gostaríamos de não ser chamados simplesmente de africanos, como se de uma massa homogénea nos tratássemos. Pois até mesmo dentro de cada país africano existem outras Áfricas, com outros hábitos, outros cheiros, outros tactos, outras línguas. Com isto quero dizer, que não gostaria de ser conhecida apenas como feminista africana, e que meus escritos não invisibilizassem as várias Áfricas que existem, que possuem outras histórias para contar. Gostaria que meus escritos fossem lidos como feminista angolana, que fala sobre o contexto angolano e ainda assim de apenas uma parcela de vários outros contextos.

Por este motivo gostaria de começar por escrever que diferente de vários outros países africanos, o feminismo em Angola encontra-se em estado fetal, ou seja, passamos, e é de louvar, de um estado embrionário para um estado um pouco mais sólido, pois, a voz do feminismo no nosso país é mais sonante e muitas mulheres abraçaram a causa. Hoje já conseguimos ver mulheres a identificarem-se como feministas, quando há mais ou menos dez anos, os dedos das mãos não contemplavam todo, o número de mulheres feministas angolanas. E essa tem sido uma das maiores conquistas dos últimos anos em Angola: as mulheres pouco a pouco têm erguido suas vozes e exigem os seus direitos.

Por ser ainda tão novo, o feminismo angolano, a meu ver, não segue uma divisão comum a países dos continentes americano e europeu, isto é, não poderíamos falar de um feminismo radical e de um feminismo liberal em Angola, mas pura e simplesmente de um feminino angolano, que tenta dar resposta às problemáticas de mulheres angolanas. Assim, como cada país tem o seu percurso e essas pegadas na História são únicas, o nosso também o é.

Nós temos questões peculiares ligadas à mulher por resolver. Como exemplos temos a situação das mulheres zungueiras que são as maiores vítimas de violência institucional no país e menos protegidas pela lei; a situação de mulheres empregadas domésticas que muitas vezes trabalham sem carta assinada e sofrem abusos por parte dos patrões; a situação de meninas tiradas de lares rurais para zonas urbanas para trabalharem como empregadas domésticas, sem direito à Educação – seja ela formal ou informal –, um trabalho que poderíamos adjectivar com escravo, sofrendo, muitas vezes, abusos sexuais de quem as devia proteger; a situação da mulher rural que não tem informação de seu aparato legal quando o esposo falece e vê-se obrigada a deixar todo o trabalho de uma vida para a família do marido. Temos a situação da violência doméstica tão comum e normalizada principalmente pelos agentes policiais; temos a questão da prostituição, tão alarmante e pouco discutida ainda.

Assim como os exemplos acima citados, temos vários outros específicos a mulheres angolanas como pautas das nossas lutas, pois, apesar do patriarcado ser um único sistema, ele desenvolve várias ferramentas de opressão e cada uma elaborada especificamente para cada região. Por isso, o cuidado no trabalho que está a ser desenvolvido por mulheres do meu país tem sido sempre o de tentar resolver problemas nossos.

No entanto, com tantas pautas por discutir e procurar soluções, a maior preocupação, a meu ver, tem sido a de como tirar o feminismo das redes sociais e materializa-lo. Como não restringir o feminismo a mulheres classe média angolanas e levá-lo tanto à periferia como às academias, uma vez que o feminismo angolano ainda é pouco ou nada debatido nas nossas instituições académicas e pouco conhecido por mulheres periféricas e rurais que muito poderiam nos ensinar assim como aprender connosco pois elas utilizam mecanismos próprios para driblar o machismo tanto nos seus lares como nas suas comunidades.

Tendo o Ondjango Feminista como o único lugar que permite às mulheres discussões, encontros e resoluções de problemas de teor feminista, este espaço precisa ser ampliado para outros espaços, outros colectivos de mulheres feministas precisam ser criados por todo país, para tornarem nossas vozes estrondosas. Sendo o Ondjango pioneiro, necessita que outras associações sejam criadas para podermos solidificar a nossa luta por uma Angola mais justa para nós mulheres. As redes sociais apesar de serem uma ferramenta útil à causa no nosso país, já não são suficientes uma vez que precisamos chegar a todas as mulheres do país.

Angola precisa do feminismo, tanto quanto o ser humano precisa de água para sobreviver, mulheres angolanas precisam saber que não estão sós, que suas lutas são vistas apesar de ignoradas, que por todo país existem milhares como elas e ema situações semelhantes, que unidas somos mais fortes, que nossas mãos formara correntes mais fortes que o aço.

Só haverá liberdade se todas formos livres.


BIO

Maria Luísa é seu nome de registo, mas é o nome Tchenguita, dado na infância que a identifica e a torna parte de seu país. Nascida em 1996, foi em 2014 que conheceu o feminismo e desde lá, estuda e investiga sobre o mesmo tentando contextualiza-lo à sua realidade. Fez o Ensino da Língua Portuguesa no Ensino Superior e vê a Literatura como um dos meios de trazer o feminismo à discussão e reflexão. O Ondjango Feminista tem sido o lugar que mais liberdade tem de aprender e dizer o que tem para ensinar as outras mulheres.

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