Só mais uma noite

1 a.m.. Desligo o computador, já não consigo me distrair como antigamente. Vou até meu quarto na escuridão, para não chamar atenção de meus pais que dormem ao lado. Acendo a luz de meu dormitório, me troco com o mesmo pijama de muitos anos, já quase um trapo velho. Estou praticamente me arrastando para cama, não que esteja cansado. Não estou. Mas é a única coisa que estou com vontade de fazer. Deitar até vir o sono e tentar dormir logo, para evitar os demônios do passado que gostam de aparecer sempre para mim. Desligo a luz e tranco a porta, deito finalmente. Fico de olhos abertos em plena escuridão, sinto os problemas antigos me cercarem outra vez, mesmo já tendo passado tantos anos, eles sempre voltam. Todos os dias de todas as semanas destes últimos anos.

Tento me convencer que é so mais uma noite mas, não é. Hoje fazem exatamente três anos. Meus olhos querem lacrimejar mas, já gastei choro de mais neste período. Dizem que com o tempo melhora qualquer dor, claro que diminuiu a intensidade entretanto, a frequência continua a mesmo.

Tenho dificuldade para dormir, não só pelos problemas, naturalmente demoro para pegar no sono. Mesmo com todo o silêncio da madrugada, minha mente explode de tantos pensamentos, lembranças e angústias. Estou chegando perto do limite. Eu já pensei em tirar minha vida mas, me perguntei como. Porquê não conseguiria tirar a vida com mortes violentas como: afogamento, asfixiado ou atirar na cabeça, mesmo estando em total desespero e com os meios necessários, duvido que conseguiria fazer por tais mortes. Então me veio a cabeça a única opção tranquila e não natural: Overdose por remédios mas, quando coloco na prática também fraquejo. Talvez pelo instinto de sobrevivência ou pelo medo do pós-vida. Não sei. Já também torci muito para ter uma rápida doença terminal e indolor, mas nunca obtemos as coisas fáceis, mesmo as ruins.

Pego o celular para verificar o horário. Ainda são 1:23 a.m.. O tempo não passa e nem o sono vem. Vai ser mais uma daquelas noites.

- Eu não aguento mais.

É o que eu sempre digo. E é verdade. Essa dor ainda me sufoca e dilacera minha alma, a dor da culpa. Não consigo achar salvação. Primeiro por merecer tal culpa. Segundo por não querer ser salvo. E aliás, prefiro sofrer mesmo não aguentando mais, é o que decidi da minha vida. Pelo menos enquanto puder viver assim, melhor dizendo, sobrevivendo desta maneira. Ainda mais, sempre fui fraco de espírito e desde pequeno sou introvertido e de pouquíssima conversa, quiçá falo. Mereço estar assim. Então, eu devo me contentar com minha escolha.

Ouço pingados la fora. Alguns segundos depois se transformam em uma pequena chuva. Me recordo logo em seguida. Também choveu naquele dia de três anos atrás. Naquela madrugada de 28 de Maio. Eu pensava que aquela chuva era como se os céus estivessem tristes junto comigo e choravam de igual com minha dor. Foi o pior dia da minha vida.

Eventos em sucessão culminaram naquele dia. Eu poderia facilmente ter evitado, cada um deles se soubesse o que iria acontecer.

- Se eu pudesse voltar no tempo.

O ser humano sempre valoriza depois de perder. E no meu caso ainda não aprendi com a dura lição que, deveria ter assimilado da perda da pessoa com quem tive a melhor e única conexão amorosa que tive em minha vida. Luísa. Nome dado a belíssima garota dos olhos pardos, da pele feito das nuvens, alvas e aveludadas, de cabelos ondulados feito como as ressacas do mar e principalmente do sorriso encantador e gracioso que somente ela tinha. Deusa do amor e senhora do meu coração, não tive sentimento tão belo e arrebatador por outra pessoa do que com ela.

Ela se entregou de coração e alma para nosso relacionamento mas, eu, imaturo como sou, fui perdendo-a aos poucos, conversava pouco com ela e como moramos em estados diferentes, desgastei nosso amor para com ela. Chegando assim com um desgastante: “Não te amo mais”. Com o qual nunca esqueço, cada palavra pronunciada com certa tristeza mas, com indiferença. Ditas ao telefone, causando um impacto um pouco mais impessoal para mim. Quando ouvi cada uma daquelas palavras, travei, já não sabia o que fazer para evitar o destino que jamais imaginava. Mesmo que acreditasse que poderia ter um retorno feliz. Nada podia parar aquele final. Nada.

Namoramos por dois anos e oito meses. Não chegou perto da eternidade a qual gostaria de compartilhar com ela, mas foi muito bom estar ao seu lado durante este tempo, das brincadeiras aos beijos, dos abraços fortes e da companhia. Mesmo que as lembranças estejam meio apagadas, lembro de todas as sensações, das boas às ruins, mas principalmente das boas. Agradeço a ela por tudo. Para ela provavelmente só fui um capítulo pequeno em sua história mas, para mim ela sempre será meu livro todo porquê depois dela não existe o que contar além de minha incompetência. Eu não a valorizei como deveria. Ainda me culpo por isso. Talvez jamais me perdoe. É horrível viver com isso, mesmo querendo e merecendo, desgasta demais da mente e do coração.

No fundo, mas bem no fundo mesmo, eu sei que ainda desejo ser feliz entretanto, minha mente compara qualquer vida possível com quem for e nada se igualar a minha vida com ela. Nada consegue ser melhor do que já vivi. Somente uma continuação com a ainda dona do meu coração. O que é mais do que improvável já que praticamente não nos falamos desde o término e pior, ela já arranjou alguém. Achou alguém muito melhor do que eu. Se bem que isso não é tão difícil de se achar. Horrível é me achar insignificante perto desta pessoa, já que eu o conheço. Mas de certo modo eu sei que ele pode fazê-la muito mais feliz do que eu jamais consegui. Mesmo que me machuque, já que tenho inveja dele e as vezes raiva mas, nada tenho o que fazer. Nada. Eu perdi todas as chances.

O vento bate na janela do meu quarto, faz um pouco de frio já que estamos entre o outono e o inverno. Naquele trágico ano fazia um enorme frio, ainda mais em julho, passado um mês do término. Eu estava sozinho, quase sem calor em meu coração. Quando pensava realmente no suicídio e descobria que a vida é so um destruidor de sonhos e ideais. Mas por fraqueza ainda estou aqui, deitado nesta cama, como todas as noites.

Quase 3 a.m.. Sinto finalmente o sono chegar ás minhas pálpebras. Sempre em algum momento consigo finalmente descansar, o corpo não aguenta tanto desgaste, assim consigo fechar os olhos. É um dos meus únicos momentos que tenho alguma “paz”, mas mesmo assim, a noite sempre me espera. A escuridão estará aqui amanhã e todos os outros dias para lembrar e torturar da culpa, ou como normalmente chamo: Pecado. O pecado, culpa, escuridão, demônios, dor de só mais uma noite.