Não julgue, beije.

É engraçado, pra dizer o mínimo, como as mulheres acabam comprando a ideia de que a gente tem que “manter a imagem”. Se a gente segue um comportamento igual ou parecido com o que já é absolutamente normal para os homens, já era! É papinho de reputação, de fama, de “mulher não pode”, um tal de “ninguém vai te levar a sério”… Uma ladainha sem fim sobre como se comportar devidamente para merecer seu macho alfa provedor.

Há quase dez meses, ouvi um “tava preocupada contigo” que me trouxe pra esse texto. Uma amiga de muitos anos, dos tempos de colégio, e eu saímos pra tomar umas cervejas. Ela me conhece, sabe muito bem que nunca fui de ter relacionamentos, namoros, muito apego. Meu apego sempre foi maior pelo meu — um tanto feio, assumo — egoísmo e pela minha liberdade. O meu romantismo sempre foi de se esgotar nas palavras. Eu rabiscava histórias românticas, não as vivia.

Entre 2013 e 2015, como diz um outro amigo, eu “me perdoei”. Não vivi a minha vida preocupada com o que os outros iriam pensar. Fiz o que quis, com quem quis, quando quis. E, agora, tô namorando. Depois de vinte e oito anos, pela primeira vez (se a gente não contar o namoradinho que passou pela minha vida aos 12 anos), eu disse: tô namorando.

Por conta desse namoro, a tal amiga das antigas soltou um “que bom, amiga!”, seguido do desnecessário “tava preocupada contigo”. Ela justificou a preocupação, disse que a gente mora em uma cidade onde todo mundo toma conta da vida de todo mundo, que era uma pena, mas a realidade era que, aqui, é basicamente assim que funciona: ou você faz a santinha ou vive uma vida de puta pra sempre.

Oi??

O pior é que eu tenho certeza de que muitos dos caras que passaram pela minha vida concordam com ela. Acho que todos sempre me tiveram como alguém meramente pra diversão. E isso, sinceramente, não me incomoda. Eu os tinha da mesma forma.

Quando a amiga disse que tava preocupada com o que aconteceria quando eu quisesse me aquietar com alguém e que — pelo que pude entender — eu só tô namorando porque encontrei alguém que não vivia no mesmo meio que eu e não me conhecia, eu pensei “mas quem foi que disse que eu queria me aquietar com qualquer um dos outros?”.

Não me leve a mal, meu problema não era que, como eu, eles levavam uma “vida de puta”. Eu não queria me aquietar com eles pelo simples fato de não sentir essa vontade com eles. Se eles estavam procurando um relacionamento, mas não o queriam comigo por não achar que eu fosse mulher pra isso, bom… probleminha deles. Espero que eles tenham encontrado o que estavam procurando.

Aqui do meu lado, sou do time que acredita que pessoas livres podem fazer o que quiserem, dos que acreditam em um mundo de solteiros sem julgamentos. Se não tá desrespeitando ninguém, qual é o problema? Ninguém deveria se preocupar com o que uma pessoa livre faz. Todo mundo deveria se perdoar, se libertar… Nada melhor do que viver a vida do jeitinho que se quer. Quem faz isso logo vê como a vida alheia perde todo o apelo que parece ter quando se vive preso às amarras do “socialmente aceito”.

Não precisa complicar. Na verdade, é muito simples: não tem puta, puto, santa, santo, garanhão, mulher pra casar, macho alfa provedor, nada disso. Existem pessoas vivendo suas felizes vidas.

E, então, caso uma dessas pessoinhas, vivendo a vida nesse maravilhoso mundo dos solteiros, se destaque, brilhe mais que os outros, o melhor a se fazer é ir sem medo. Não dá pra deixar de aproveitar a vida no também maravilhoso mundo a dois só porque, no mundo dos solteiros, o outro não vestia a máscara de santo pra esconder a própria liberdade. Se dois querem ser dois juntos, por que velhas convenções sem cabimento deveriam ficar no caminho deles?

Eu tô aqui, há dez meses, descobrindo essa vida a dois, com todos os prós e contras, com todos os altos e baixos, com diálogo e sinceridade, sem conto de fadas, e extremamente feliz. Sem amarras. Com amor.

E pensar que tem gente que acha que eu não merecia isso…

Like what you read? Give Maria Fernanda Ohana a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.