Depois de Paris

Histórias em lata.

Devo admitir que o título veio antes da própria crônica. Tão poético, digno de um filme de Woody Allen, foi dado pela minha querida amiga Celinha, quando contei que estava estudando o belo e instigante francês. Virou uma piada nossa: agora, todo plano ousado que falo em efetivar, ela diz que acontecerá depois que eu voltar de uma futura temporada parisiense.

E nesse modorrento e dignamente londrino domingo de agosto em Floripa, passei o dia no charmoso apartamento dela, entre um bom filme, cobertores e papos sempre gostosos. Toda vez que venho aqui, é uma nova descoberta. O paraíso para uma designer! Cada cantinho tem uma referência visual, uma história, uma inspiração própria. E hoje me perdi na coleção de potinhos da Célia. Fui do Havaí a Rússia em dez minutos. Portugal, Áustria, Holanda, México, China. Cada recipiente que abria me levava a uma nova trajetória, continente, país. Que vontade de pegar um avião e traçar novas rotas pelo mundo! Achei um gracioso: olha, é de Recife! Outro de Curitiba. Brasil tem tanto para explorar… Já me programei: passarei as próximas férias de julho longe desse frio sulista, comendo caranguejo em alguma praia de João Pessoa. Gosto de viajar e sentir saudade de casa.

Ah, nada como ter boas referências! No meu caso, a cidade natal era estranha para mim. Mudei-me de Florianópolis aos cinco anos de idade e frequentava aqui esporadicamente, com meus pais. Voltei para ficar quando passei no vestibular. Lembro de ir embora de casa em um dia chuvoso como hoje. Minhas inseguras lágrimas se confundiam com as gotas escorrendo pelo vidro do lado de fora. Tinha pavor só de pensar em pegar um ônibus urbano sozinha, vejam só! O mesmo medo que sinto hoje em imaginar-me em uma nação da qual não domine a língua. Bobagem… E lá se foram quase três anos morando sozinha. A gente aprende. Floripa transformou-me em adulta.

E a cada fase da universidade ultrapassada, vou naturalmente (e infelizmente) deixando de acompanhar o noticiário constantemente. Toda vez que vou visitar meus pais, me surpreendo com uma mudança drástica no mundo. Quem deixou acabarem com o Programa do Jô? E o meu sonho de acompanhar uma gravação ao vivo, como fica? E a Globo FM, onde aprendi a gostar de todas as músicas que ouço? Como ficam minhas tardes preguiçosas de sábado depois do almoço, ligada no canal 404 da Sky, quando gostava de deitar na rede e rir com meu irmão desafinando algumas canções lá tocadas? Sinto minhas referências da infância se esvaindo aos poucos — só que diferentemente da mágica realidade dos Teletubbies, não tem como pedir “de novo”.

Tudo muda o tempo todo no mundo, não adianta fugir. E cá estou eu, escrevendo ao som de Azul da Cor do Mar e tomando uma gelada Itubaína — nada adequada ao frio de hoje, mas e daí? Apesar de continuar achando que tem gosto de xarope para tosse, criei um carinho especial por esse guaraná, por conta do momento em que foi apresentado a mim. Porque tudo na vida depende de uma boa memória. Estou aqui, construindo a minha. Colecionando os instantes legais em “vidrinhos” especiais para lembranças e criando sonhos todos azuis, sim, da cor do mar. Motivos para sonhar — e antes de Paris.