Memórias de Prata

De cabeça para baixo, para não ser tão óbvia.

Tudo lá, registrado entre algumas dezenas de fitas cassetes: desde eu dançando ao som da abertura de Por Amor (“Chega perto / Vem sem medo / Chega mais meu coração…”), lá nos idos de 97, até meu primeiro dente arrancado. É como se fossem os melhores lances de uma partida de futebol: os momentos mais marcantes da minha primeira infância foram reunidos em uma dessas caixas organizadoras, na casa dos meus pais, prontos para serem revividos em qualquer reunião de família: “Awn, que gracinha, saudade da Fêzinha com esse tamanho!”.

Construí minha memória de forma curiosa: nunca sei se de fato lembro do momento vivido ou se recriei posteriormente através da filmagem. Um desses casos aconteceu no dia do meu aniversário de cinco aninhos, quando encontramos uma moça vestida de Emília no Beiramar Shopping. Meu sonho sempre foi ter uma boneca de pano daquela para mim — o que mais tarde realizei. Ao falar meu desejo para a menina fantasiada, ela me perguntou por qual razão eu não pedia para meus pais. Respondi na lata, sincera, tal qual uma boa Emília: “eles não têm dinheiro!”. O diálogo está lá, gravado para provar.

Sei que essa recordação vai além do vídeo, pois tenho alguns flashes em mente. Lembro da sensação de ter falado bobagem; achei que iria levar dura ao chegar em casa, por ter falado sobre “finanças” com uma estranha — vejam só, que problemão, no alto da minha primeira meia década de existência. Estou esperando até hoje a bronca. Meus pais só riram.

Mas tem uma história que não está nem na minha cabeça, muito menos nas velhas bobinas: final da década de 90, rumo à Guarulhos, tempo bom, estimativa de uma hora de voo e boas comidinhas sendo servidas — ah, a velha Varig. Lá estava Mario Prata, sentado no corredor ao lado. Passou o trajeto inteiro tentando interagir comigo. E logo eu, sempre tão extrovertida, me calei. Cara amarrada, bico instalado, amuada, não respondi nenhuma pergunta, segundo reza a lenda.

“Você podia ter sido chamada para ser atriz mirim de uma novela da Globo, já pensou?”. Como ouvi essa piada! Por conta dele ter escrito Estúpido Cupido (1976). Cresci lidando e acreditando nessa frase. Que trauma! Por que falei com a Emília do shopping e ignorei logo ele?

Porque criança é de lua, inesperada, depende da maré. Varia do grilo falante a um mudinho que honra o ditado “o silêncio é de ouro” — no meu caso, foi de Prata mesmo.

Anos mais tarde, já devorei alguns livros de crônicas dele. Ainda não consegui reencontrá-lo, mesmo morando na mesma cidade. Talvez em algum barzinho, fila de supermercado ou, quem sabe, um novo voo. Com certeza ele não se recorda daquele momento. Mas ficarei feliz em poder finalmente respondê-lo.

Bom, já passei da idade de encantar para alguma novela. Mas talvez o encontro renda uma nova boa crônica. :)