Porra, melhorem!

Feppa Rodrigues
Sep 5, 2018 · 4 min read

Setembro amarelo.

Vamos falar de prevenção ao suicídio, vamos falar de acolhimento, vamos falar do que você pode fazer para que, de seu amigo ao desconhecido, as pessoas se sintam bem consigo mesmas. O mundo já esta cheio de cuzão, você não precisa ser mais um.

Há uma semana atrás li sobre um menino de 9 anos que se suicidou. Jamel Myles tinha orgulho e era abertamente gay, após sofrer bullying homofóbico na escola o mesmo retirou a própria vida.

9 anos, esse menino tinha NOVE ANOS.

Eu tenho 32.

Semana passada me perguntaram como é ser gay.

E a resposta foi: é foda.

Eu sou branco e cis, isso me da uma série de privilégios.

Ainda assim é foda.

Dentro e fora de casa e no ambiente de trabalho.

Não há lugar seguro.

Eu sou o meu lugar seguro.

Eu me tornei a pessoa forte o suficiente para mandar se foder.

Estruturalmente a sociedade é heteronormativa. Você, amigo hetero, cis…especialmente se for homem e branco, tem a norma a seu favor e não tem ideia do que é ser questionado tempo integral sobre a própria existência.

Quantas vezes no trabalho ouvi colegas sendo estruturalmente homofóbicos, quantas vezes em mesas de bar com amigos cerrei o punho embaixo da mesa enquanto eles faziam piadas de teor homofóbico em um tempo que eu não tinha ferramentas para intervir.

Vou tentar te contextualizar invertendo a situação:

“Você é hetero?!? Meu deus, que bacana! Como isso funciona?!? E quando você contou para seus pais? E na cama, como é?!? Gente, esse é meu amigo hétero! Vocês heteros são tão alegres!“

Nossas vidas não são alegoria, não somos televisão para sua curiosidade.

“Foi só uma piada, você leva tudo muito a sério”.

Experimente viver a nossa vida, ser alvo de olhares e piadas desde tão cedo que você se acostuma a ponto de não imaginar uma vida diferente, experimente ser alvo e simultaneamente afetivamente invisível, perder ou deixar de construir amizades por quê seu amigo te percebeu diferente, ter medo de sair na rua de mãos dadas com quem você ama e depois venha nos dizer como reagir.

Viver assim tem custo, aceitar ser menos é um “estilo de vida”(citando alguns héteros), que cobra muito caro.

A diversão do coletivo sempre me foi hostil, rir da bicha é comportamento padrão, respeita-las não.

Defender-se o tempo todo me tornou uma pessoa ansiosa. Hoje me conheço, adquiri inteligência emocional suficiente pra me tratar como eu mereço. Mas nem sempre foi assim.

Quando minha ansiedade atingiu o ápice, eu desenvolvi um quadro pesado de síndrome do pânico. Quando as crises chegavam e me deixavam imóvel na cama por horas, incapaz de fazer uma ligação, zumbi por dias e visitar o hospital se tornou rotina, a responsabilidade de melhorar foi só minha.

Por muito tempo pensei que tudo isso tinha acontecido pois eu não sabia como me tratar direito. E advinha com o que eu aprendi como eu deveria me tratar?

Com as estruturas que perpetuam a ausência de representatividade homoafetiva.

Que dizem que meu afeto é invisível e impossível. A homofobia me deixou em estado de alerta constante. Quem perpetua a homofobia?!? Haaaaaaa….você, coração…suas piadinhas fazem esse papel, sua necessidade de suprir seu status de macho perante seus amigos fazem isso.

Enquanto criança eu não sabia o que era ser bicha, mas já sabia que era ruim.

E se eu, enquanto criança, gostasse de alguém, era um afeto sem lugar. Um afeto que ia além de duas partes, envolvia uma estrutura que inviabilizava qualquer possibilidade, mesmo se o afeto fosse reciproco.

O grupo da escola que se reúne no facebook e o sujeito fala ”Gente, o feppa virou viado”. A agressão continua. E da-lhe eu desconstruir e educar o coletivo…isso caaaansa. “Calma feppa, não precisa responder assim “a agressão continua.

O problema da depressão, do descolamento do coletivo que nunca acolheu, da dor pungente no peito que consome…não é individual é estrutural.

E advinha de quem é a responsabilidade por isso?

Sua.

Nossa.

Você esta perpetuando a estrutura agressiva e homofóbica, e as crianças aprendem como as estruturas funcionam desde cedo. Você ta fodendo essa e a próxima geração.

Preste atenção nas palavras que saem da sua boca antes de me dizer como me comportar.

Você que já é mãe/pai e acha que seu filho pode não ser hetero…não deixe ele no escuro, ajude, valorize ele como ele é, mostre desde cedo que ele é perfeito, e se abra para aprender com ele.

Um filho questionar se seu núcleo duro de amor e afeto o ama deixa marcas.

Eduque seu filho para que ele não se odeie, e nem odeio o próximo.

Se for gay, lésbica, se não for cis gênero, eduque-o para que ele se ame, para que desde cedo ele entenda como deve ser amado, e que não aceite menos!

E se ele for hetero…eduque-o para que ele entenda que o meu amor, o meu afeto não é sinônimo de violência.

Melhorem!

Porra, melhorem!

    Feppa Rodrigues

    Written by

    Este é um espaço para compartilhar experiências envolvendo este “adorável transtorno” que me acomete desde fevereiro de 2015.