Bolsonaro, vitimismo e “tempos modernos”

“coi•ta••dis•mo” e “vi•ti•mis•mo” são sinônimos que se definem de tal forma:
1.“Autopiedade; vocação para ser vítima; modo de ver a vida que demonstra complacência e/ou piedade em relação aos seus próprios problemas, decepções, desgostos etc.: o coitadismo o impediu de ter uma vida feliz.”
2. “Sentimento que faz com que alguém se coloque sempre no papel de vítima.”

São duas palavras que se utilizam muito ultimamente, sobretudo (e obviamente) em relação a grupos minoritários: LGBTs, negros e mulheres. Isso porque de repente as políticas e as lutas sociais tornaram ainda mais evidentes a desigualdade e a discriminação existentes institucional, cultural e socialmente no Brasil.

O Brasil é o país com maior quantidade de crimes homofóbicos do mundo ocidental. Segundo um levantamento do Grupo Gay da Bahia, houve, em 2017, 445 homicídios de homossexuais no país: um a cada 28 horas. — o que demonstra um crescimento de 30% em relação ao ano anterior. 
Enquanto à realidade dos transexuais, a crueldade não fica para trás: o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais, foram 347 mortes em 2017. Você sabe o que significa isso? Uma morte a cada três dias. É a maior taxa em dez anos. Isso sem nem tocar na dificuldade de respeito de sua própria identidade, das mudanças burocráticas, da realidade social de coisas que para a maioria é tão simples, como qual banheiro usar. 
Agressões e ameaças são, ademais, cotidianas, muitas não registradas por medo, por vergonha e elas só vêm piorando nesse último ano devido às inflações vindas de discursos como esse. Elas não acontecem escondidas. Você as ouve em shoppings, nas ruas, nas praças, nas festas; as pessoas ao redor não fazem nada, algumas até acham graça ou seguem o mesmo.

No país orgulhoso da miscigenação e que exporta a imagem da diversidade étnica, há 43,5% de pardos e 7,52% de negros segundo o censo de 2010 do IBGE. Apesar de somados representarem mais da metade do país, o abismo existente entre brancos e negros é assustador: a taxa de analfabetismo é duas vezes maior entre negros (11,5% para eles e 5,2% para brancos); a sua renda média é 40% menor e chega a ser de 47% em alguns casos de mesma instrução; são representados por apenas 10% dos candidatos à cargo político nas eleições deste ano; são representados por apenas 15% das personagens nas novelas da TV; apenas 4,7% tem acesso a cursos universitários (contra 15% para a população branca); são mais atingidos pelo desemprego (7,1% para eles, 5% para brancos); e representam mais de 1/3 dos homicídios (em alguns estados o índice é 200% maior entre eles que entre os brancos). 
Isso tudo sem tocar nos preconceitos institucionalizados, como o fato de que os jovens negros têm mais chance de ser parados (e até sofrer violações de direitos fundamentais) pela polícia, pelo claríssimo apartheid social que os torna maioria da população mais pobre, da população de rua e dos que vivem abaixo da linha da pobreza e pela disparidade de tratamento social. Ademais dos óbvios casos de racismo criminoso vistos e ouvidos diariamente por todo o país.

Em números, há 6,3 milhões de mulheres mais que homens no país, elas são 51,6% da população. No entanto, na Câmara dos Deputados, elas são apenas 10,5, o que faz com que o Brasil ocupe a 152ª posição dentre 190 países enquanto à presença feminina nos Parlamentos. É o pior índice da América do Sul. Além disso, apesar de representarem a maioria no estudo superior (21,5% contra 15,6% dos homens), elas recebem salários 25% menores que os salários masculinos para as mesmas funções e condições. Elas estudam, trabalham fora, ganham menos e ainda gastam mais 73% de seu tempo cuidando da casa e dos filhos que os homens. Elas ocupam apenas 37,8% dos cargos públicos e ocupam menos de 40% dos cargos de gerência. 
Nessa mesma sociedade, as mulheres sofrem cobranças que estão muito distantes das realidades masculinas: “mulher tem que se dar ao respeito”, “ela não é mulher pra casar”, “você não pode usar essa roupa” são frases que vão se ouvindo por todas as regiões e todas as classes sociais. Ao mesmo tempo em que se reconhecemos as violências que lhes podem praticar nas nossas ruas, falhamos em ver e entender por que “avisa quando chegar” ou “não volta sozinha” são frases que elas escutam muitas vezes mais. E pior: ainda são culpadas por aquilo que sofrerem, já que para um em cada três brasileiros diz que a violência sexual, por exemplo, é causada por uma provocação feminina.
Em média, o Brasil registra 12 assassinatos de mulheres e 135 estupros diariamente. Em 2016, os estupros totalizaram 49.497 e, em 2017, 4.473 homicídios tiveram como vítima uma mulher por conta do seu sexo, isto é, por conta de um menosprezo ou uma discriminação à condição feminina e à sua liberdade (definição, inclusive, de feminicídio). Esses índices, inclusive, são claramente piores para mulheres negras e pobres. O Brasil já é considerado o 7º país mais perigoso para as mulheres no mundo, segundo o último relatório da OMS, quando, na realidade, apenas 35% dos casos de estupro são comunicados no país.

Importa frisar que ninguém diz que esses homicídios importam mais que os homicídios “regulares”, senão que o que se deve diferenciar são as condições distintas em que acontecem. Qualquer um pode ser vítima de um homicídio, de um latrocínio. Todavia, quando um grupo populacional pode sofrer esse ato devido a uma questão específica, isto é, quando o crime é motivado por uma questão específica, as respostas da sociedade, das leis e do governo a esses crimes devem ser distintas. Parece repetitivo, mas, ainda assim, muita gente não entende: ninguém morre por ser branco, por ser homem ou por ser heterossexual, mas há agressões específicas motivadas por questões de raça, orientação sexual, sexo e gênero e a esses casos se deve tratar distintamente para poder lutar por suas resoluções.

Com isso, só fico com uma pergunta: onde está o vitimismo? Onde está o vitimismo? Parece-me que o coitadismo verdadeiro está na dificuldade de aceitar que aqueles que sempre foram oprimidos social e até institucionalmente conquistam direitos e condições de igualdade (nunca de privilégio). A luta pela igualdade é crescente e necessária nas condições materiais existentes na sociedade. Antes de dizer que aqueles que sofrem o que você nunca vai sofrer são vitimistas, experimente um pouco de empatia e tente ver o mundo que vivemos, aquilo que sofremos e pense se você acha justo ou se acha que aguentaria um mundo assim. Ainda mais agora onde o discurso odioso de um candidato à Presidência da República inflama e legitima todas essas ações.

Resistamos. Lutemos. Conquistemos. Esperança e força a todos nós por um Brasil mais justo, mais igual, mais democrático e mais consciente.

Fontes: 
https://www.dicio.com.br/coitadismo/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Homofobia_no_Brasil
https://exame.abril.com.br/…/assassinatos-de-homossexuai…/2/
https://www12.senado.leg.br/…/brasil-e-o-pais-que-mais-mata…
https://oglobo.globo.com/…/assassinatos-de-lgbt-crescem-30-…
https://www.cartacapital.com.br/…/taxa-de-homicidios-de-tra…
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https://pt.wikipedia.org/wiki/Racismo_no_Brasil#Impacto
https://exame.abril.com.br/…/entre-graduados-brancos-ainda…/
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http://www.brasil.gov.br/…/estudo-do-ipea-analisa-presenca-…
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https://examedaoab.jusbrasil.com.br/…/um-em-cada-tres-brasi…
https://www.cut.org.br/…/a-desigualdade-entre-homens-e-mulh…
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https://vestibular.uol.com.br/…/feminicidio-brasil-e-o-5-pa…
https://noticias.uol.com.br/…/morte-de-mulheres-e-verdadeir…
https://g1.globo.com/…/cresce-n-de-mulheres-vitimas-de-homi…