Marcas, rancor e autoconhecimento

Quando pequeno, me ensinaram que odiar alguém era errado e que isso não traz nada bom a ninguém, nem ao odiado, nem a quem odeia. O ensinamento talvez tenha sido mais superficial e, basicamente, visava, apenas, a evitar que as palavras “eu odeio você” se repetissem frequentemente após as frequentes brigas entre mim e meu irmão; mas a verdade é que só recentemente eu percebi os efeitos que isso teve na minha personalidade.

A verdade é que muito do que nos desenvolvemos humanamente para ser, isto é, para tornar-nos permanente ou temporariamente é resultado daquilo que vivemos, ouvimos, sentimos e aprendemos nos nossos primeiros anos. Eu jamais tinha percebido isso verdadeiramente, mas, recentemente, me vi forçado a chegar à seguinte realização: muitos dos reflexos que vejo na água ao me buscar são marcas jogadas ali por outras pessoas. Acontece que as pessoas jogam apenas a superfície e coube a mim mergulhar até seu fundo.

Dessa forma, se o Fernando de sete anos repetia “eu te odeio” a cada minuto quando o irmão não deixava que ele assistisse Sakura Card Captors, o Fernando de vinte e três tem absoluta aversão a odiar alguém. É como se eu tivesse medo de sentir algo assim, como se isso significasse que eu falhei como ser humano… E, assim, eu faço tudo o que for necessário para não me permitir sentir esse sentimento, mesmo que custe o meu orgulho, que me faça engulir as minhas cicatrizes ou que me faça sacrificar a minha psiquê.

Contudo, esse lado mais compreensivo e passional me permitiu enxergar muito da própria natureza humana, de forma que os erros de todos os que me ferirem passam por um filtro muito específico: “se eu estivesse no lugar dessa pessoa, conseguiria conceber tomar a mesma decisão que ela?”. Tirando raras exceções, que afetasse mais a humanidade como coletivo, como ataques terroristas, preconceitos ou o Holocausto, todo o resto do mundo me parecia perfeitamente concebível, isto é, se eu fosse aquiela pessoa e estivesse exposto a certas crenças, pressões ou motivações, eu poderia tomar aquelas decisões também e isso tornava, aos meus olhos, humanamente perdoável.

Eu não sabia disso então, mas eu sou péssimo em colocar limites nas coisas. Todos os males passados na minha vida se justificavam e eu os perdoava ou acreditava que o fazia porque não existe possibilidade de que sentir raiva ou odiar alguém fosse algo certo a se fazer. Isso foi fácil e, conquanto tenha me custado muitos traumas psicológicos e grandes noites de choro, eu nunca tinha sido desafiado até um certo momento.

Uma noite, eu descobri a razão pela qual a pessoa que eu amo (e com quem eu lutava novamente para estar) tinha me ferido. Ele me disse com a maior calma do mundo que o tinha feito porque, em seu julgamento, que ele mesmo admitia ser errado, para me esquecer ele precisaria me odiar e ele só poderia fazê-lo se eu correspondesse tal sentimento. Assim, a forma para conseguir era me provocar tanta dor que eu cederia às raivas do meu coração e estaria tudo resolvido, deve ser sempre mais fácil odiar alguém que te odeia.

Acontece que, à época, eu não sabia o porquê de ele fazer tudo aquilo e me machucar tanto e, apesar de todos os avisos e teorias, eu sempre encontrei um motivo para justificá-los… Até que a razão verdadeira apareceu e tudo isso ruiu. A dor se tornou raiva e a raiva se tornou mágoa e a mágoa ia se tornando rancor porque tudo o que eu via nele permanecia vivo, mas afetado e ele estava aqui, nós estávamos aqui porque estávamos tentando… Ou achávamos estar.

No fim, não se tenta verdadeiramente algo que te consome por dentro. O resultado só pode ser um de dois: o fim daquilo que se tentava, ou seja, desistir de tê-lo; ou a destruição do que existia ali para ceder àquelas vontades. A segunda opção era o que eu buscava, mas o primeiro veio antes e, junto dele, veio a vez dele de proclamar “Eu te odeio”.

Agora, depois que as lágrimas diminuíram, eu consigo entender que eu nunca o odiei e até mesmo que nunca o odiaria, mas que todos os dias em que eu lutei contra a raiva e a mágoa achando que estava sendo um ser humano incrível, na verdade, me fizeram pior.

Raiva e mágoa são sentimentos naturais, eles refletem algo . O ódio, por outro lado, não. O ódio é perpétuo, ele consome e vicia. É resultado da nutrição dos males no nosso interior, ele em nada acrescenta, apenas retira e retira e retira. O ódio é uma maldição para as duas pessoas, como diz um anime incrível de que sou fã “quando se odeia, se cavam duas covas”: a da pessoa que se odeia e a da pessoa que odeia.

Descobri, afinal, que, quanto aos dois primeiros,eles são solucionáveis: às vezes, com amor, outras com comida, algumas até com uma boa noite de sono, mas, sobretudo, pelo tempo. E não adianta fugir, todos os sentimentos se deve sentir para que passem livremente. Não é bom guardá-los ou acumulá-los.

Hoje, eu perdoo o homem que eu amo (ainda no presente). Eu entendo o que aconteceu e, sabe, descobri que perdoar não é necessariamente esquecer e aceitar tudo o que acontece; mas sim seguir a vida sem essa dor. Ele ainda parece declarar que me odeia, mas vamos torcer para que o tempo possa fazê-lo ver tudo o que eu tentei e tudo o que eu fiz de verdade. Enquanto isso, estarei aqui mandando boas energias.

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Fernando Gabriel Fiorillo

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