Mães entenderão

Sou meio mãe-coruja… Há quem discorde e diga que sou a mãe das ‘mães-corujas’ de tão protetora e ciumenta e egoísta e qualquer outro adjetivo que descreva mães que não conseguem desgrudar das crias.

No início, eu dizia que era o primeiro, que era bebezinho, frágil, tinha refluxo e uma infinidade de argumentos pra justificar a fita zebrada — isso… bem aquela, amarela e preta, usada pra isolar cenas de crime — ao redor do berço, indicando que era proibido ultrapassar.

Mas aí, o primeiro cresceu um pouquinho, o segundo estava a caminho e eu comecei a ouvir aquelas frases enlatadas: ‘Com dois você não vai dar conta. Vai ver como as coisas mudam.’ E até uns desafios do tipo: ‘Quero ver fazer a sopinha pra um, preparar mamadeira pro outro, dar banho, trocar fralda, tudo ao mesmo tempo.’

E as coisas mudam mesmo, mas com um pouco de jogo de cintura a gente se adapta à nova condição e vai priorizando os bebês, transferindo pra eles o tempo que antes usava pra organizar as gavetas das meias ou limpar cantinhos dos porta-retratos com escova de dentes…

E deu certo. Obviamente que não fiz tudo sozinha. Sempre tive quem me ajudasse — e essa ajuda foi fundamental pra manter minha integridade física e mental. Mas sempre que possível, reservava pra mim as tarefas relacionadas às crianças.

Só que essas criaturinhas crescem e começam a ter vontade própria e pedem pra ir ao cinema com a tia Gi. Pode?! Doeu mais que o parto… Nada contra a tia Gi, não é nada pessoal. Poderia ser com o pai que o sentimento seria o mesmo. ‘Como minha cria quer sair de perto de mim? E o cordão umbilical? Ah é… já foi cortado.’ A gente aceita, mas não sem dor.

E depois de um tempo, quando os DOIS já têm vontade própria, eles decidem passar uma tarde na chácara do vô. Com quem? Óbvio… Tia Gi!!! E a mãe pode ir junto? Não, a mãe precisa trabalhar. E aí, com o coração na mão — só pra lembrar, não há absolutamente nada contra a tia Gi — dou início à sessão de recomendações.

- Não come muita porcaria. Não exagera no chocolate. Não corre! Usa o cinto de segurança e nada de andar no banco da frente. Não anda descalço… Não, não, não…

E, pra terminar, com muita ênfase, eu digo:

- Não passem nem perto da cascata!!!

Depois de quatro ou cinco horas que duraram uma vida, chego em casa do trabalho e pra minha surpresa estão todos vivos. Precisando de um banho, mas vivos… Eles vão pro banho e a tia Gi começa a narrar o dia divertido que tiveram. Tudo certo, até que:

- Ah! Convidei o Murilo pra descer na cascata. Ele disse que você proibiu. Falei que você nem ia ficar sabendo e sabe o que ele me respondeu?

Fechei a cara, esperando algo do tipo ‘É verdade, não vai saber mesmo… vamos!’, mas quase chorei quando ela disse:

- Mas tia Gi, EU vou saber que fiz uma coisa que minha mãe pediu pra não fazer. E isso não é legal.

Nesse minuto tive certeza de que a ‘corujisse’ valeu à pena.

Eu não vou estar perto deles pro resto da vida, e o fato de eles terem discernimento do que é certo e errado — ou responsabilidade pra assumir seus próprios conceitos de certo e errado — me traz um pouquinho de tranquilidade e torna menos traumático aceitar que logo eles vão querer ir a lugares muito mais distantes que a chácara — e eu, apesar de ser uma mãe-coruja, vou incentivá-los.

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