A solidão da América Latina e o futuro esquecido

Fernanda Pamplona
Sep 6, 2018 · 3 min read

Lembro com clareza de uma visita ao Museu de História Natural em Londres. Era um dia da semana qualquer, e uma escola havia levado as crianças para uma visita com atividades de pintura. Lembro, com mais assustadora e incômoda certeza, da pessoa ao meu lado lamentando o fato do Brasil não ter museus bons como os da Europa, e mesmo que tivesse, em terras tupiniquins não temos uma cultura rica o suficiente como os grandes salões de Versailles ou os corredores infinitos que fazem qualquer um se perder dentro do Louvre. Sempre acreditei que esse comentário fosse uma exceção, daqueles que por algum motivo abraçaram a vocação de bajular os grandes colonizadores, de pagar R$600 no Chanel nº5 sem saber que é feito a partir do pau rosa, árvore nativa da Amazônia, de desvalorizar sistematicamente qualquer produto nacional, enquanto aplaudem aqueles que enriqueceram através do sangue, suor e ouro que enfeitam as grandes igrejas medievais nos centros do velho continente. Aqui, nos rincões do mundo, um museu é um símbolo de resistência. Um dos museus mais bonitos, da Memória e Direitos Humanos em Santiago no Chile, foi projetado por arquitetos brasileiros e lembra a cada um os horrores da ditadura do Pinochet, planejada e financiada, assim como a maioria das outras nos países vizinhos, pela CIA. Alta Gracia, nos arredores de Córdoba, mantém intacta a casa onde Ernesto Guevara de la Serna, muitos antes de ser o “Che”, passou a infância — mostrando que a história também é escrita por aqueles que não nasceram em berço de ouro. Sonhamos com uma máquina do tempo, movidos pela curiosidade de ver outras culturas e povos, sem saber que ela já está aqui, silenciosa, abandonada, fruto da teimosia daqueles que entendem que não existe um povo sem história, e que humanizar é dar nome, cara, e voz aos que já não estão mais aqui. Comovemo-nos com o holocausto — e enquanto as crianças polonesas visitam Auschwitz desde cedo para que, como as palavras da própria guia, o amanhã não repita o passado, nós, os “sem-cultura”, negamos a riqueza e o massacre dos incontáveis povos indígenas e negros que construíram essa pátria ingrata. Despedimo-nos do Museu Nacional, com seus 200 anos de existência, sabendo que hoje, mais do que nunca, a máquina de moer carne que compõe a vida cotidiana da maior parte da população destrói também a beleza e a importância da produção de conhecimento brasileira — internacionalmente reconhecida pela contribuição à ciência mundial. Mais do que pesquisadora, hoje lamento pela perda incalculável à humanidade e às futuras gerações. Somos órfãos da nossa própria História, e talvez por isso aceitemos um candidato à presidência que publicamente elogia um torturador da ditadura militar, enquanto aplaudimos a caça às bruxas à educação pública e à pesquisa nacional. Neste momento de incredulidade e apatia, as veias abertas da América Latina sangram cada vez mais, e assim como Galeano, ainda temos observado um silêncio muito parecido com a estupidez.

Fernanda Pamplona

Written by

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade