Kim Gordon e seu “espíritu salvaje” em palco.

Body/Head — ao vivo

Kim Gordon e Bill Nace deixam plateia de SP atônita com guitarras ruidosas e letras minimalistas

por Fernanda Maldonado.

Minha mente não guardou muitas referências concretas desta noite, mas ficaram marcadas algumas boas impressões sensoriais, que, no caso, são as que de fato importam. SESC Pinheiros, 21 de outubro de 2016: a primeira apresentação do Body/Head, projeto da musa noise Kim Gordon em parceria com o guitarrista Bill Nace, em São Paulo.

A rua do SESC já estava cheia de gente uma hora antes do show, lotando os botecos da redondeza. Impossível não identificar os rostos dos órfãos do Sonic Youth virando doses de cachacinhas e brindando com copos americanos de bera (ou de breja, como dizem os paulistanos). A noite estava bem agradável e era inegável que uma esmagadora maioria do público estava lá por ela, pela garota da banda.

Pouco depois das 21h, horário marcado para o início, estávamos lá sentadinhos, esperando a entidade Kim Gordon e Bill Nace entrarem com suas guitarras. Não sei se pelo nível etílico meio generalizado das pessoas à minha volta (sic), pela poltrona do teatro que não parava de ranger ao mínimo movimento do meu corpo ou pelo silêncio azul que havia naquela noite dentro daquele lugar, mas a performance do Body/Head foi algo um tanto melancólico.O palco era grande e dava uma sensação ilegítima de vazio, imediatamente cortada pelos primeiros acordes. Melancólico, mas não menos poderoso.

O duo de guitarras compensava perfeitamente a ausência de percussão. O som pulsava e as músicas pareciam se configurar todas ao vivo. Kim cantou letras extremamente minimalistas, quase recitadas.

Talvez o mais fantástico a se observar na performance dessa mulher, pisando pela primeira vez no Brasil após o fim do Sonic Youth (que por acaso teve sua despedida final em Itu, São Paulo, no festival SWU em 2011) é que ela carrega em si a expressão de toda sua vivência multiartística. Das artes plásticas e visuais, do teatro, da dança, da moda. Tudo se difunde perfeitamente. Sua biografia ressurgia a cada distorção e movimento: olhares fixos, frios, golpes precisos nas cordas. É claro que não poderia faltar uma escalada básica no amplificador. E 63 anos é o caralho!

Bill Nace, não menos importante, merece um parágrafo à parte. Além de músico, é artista visual e fundamentalmente envolvido com uma cena avant-garde de Massachusetts, onde desenvolve projetos que vão do noise ao free jazz. O guitarrista é dono do selo Open Mouth Records, através do qual lança discos próprios e de parceiros de forma independente. Fora dos holofotes, é um cara da pesquisa e da experimentação musical não tão visto publicamente. No palco, segurou muito bem o espíritu salvaje de Kim. Nace, aliás, é amigo pessoal tanto de Gordon quanto do ex-marido dela Thurston Moore.

Relativamente breve, a apresentação do Body/Head cumpriu um papel que nunca foi prometido. Desestabilizou o público. Teve quem levantasse para ir embora na metade das músicas, que duravam uma média de seis a dez minutos. Teve quem não se mexesse da cadeira. Gostando ou não, certo mesmo é que ninguém saiu de lá como entrou. E muito provavelmente muita gente ainda foi brindar uma segunda vez depois de ter presenciado aquela peça forte de um único ato, dois atores e muitos pedais.


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