Erros que eu cometi tentando começar a construir uma "carreira"

E o que aprendi com cada um deles

Algumas coisas a gente só aprende quando vive. Não são ensinadas na escola, muito menos na faculdade e, às vezes, nem em casa. Não é por maldade, é porque certas coisas são realmente difíceis de se traduzir em ensinamentos. Aprendemos e guardamos, sem nunca, no entanto, colocar em palavras.

Decidi fazer um pouco diferente e tentar traduzir alguns dos aprendizados que tive até aqui e, para que fiquem palpáveis, ilustrarei cada um deles com um evento desta fase complicada que é a procura por uma carreira. Tudo começou no Ensino Médio…

Tirei notas boas demais

Desde muito cedo, aprendemos que no mundo existem duas categorias de pessoas: as vencedoras e as perdedoras. Crescemos com o medo constante de ir para o lado perdedor e a escola, no modelo atual, é uma grande incentivadora desse medo. Lá eu ouvia frases como "se vocês não prestarem atenção na aula, irão para a faculdade da esquina, jamais passarão em uma Federal" ou a bastante comum "lá na frente vocês lembrarão do que eu estou falando e se arrependerão de não ter escutado enquanto era tempo". Claramente, as pessoas que tiravam notas vermelhas eram as que estavam com um pezinho no lado perdedor, caminhando para lá. E eu não queria isso. Queria "vencer na vida" e, para mim, naquela época, isso significava ter as melhores notas da sala. Não bastava sequer ter boas notas, eu precisava estar entre as melhores, quiça a melhor. E não há problema algum em tirar boas notas, o problema está nas coisas das quais abri mão para isso.

Abri mão de engajar em voluntariados. Abri mão de perseverar nas aulas de esportes. Abri mão de qualquer curso que não fornecesse um conteúdo cobrado no vestibular, apesar de amar arte e cultura. Abri mão de me envolver em atividades que eram grandes oportunidades de aprender habilidades como liderança e network. Na época, ninguém me mostrou que eu estava perdendo muitas coisas. Ninguém disse que eu estava deixando de adquirir as habilidades que eu mais precisaria após o colégio. Ninguém denunciou o fato de que eu evitava atividades que me desafiavam de verdade. Por que não? Porque eu tinha notas impecáveis.

Escolhi cursar uma graduação respeitada, em uma universidade de prestígio

Mais uma vez, nada de errado nisso. Ter estudado Relações Internacionais abriu minha mente e me deu diversas oportunidades. Ter tido a chance de estudar em uma universidade tão grande e diversa, idem. Sou extremamente grata por isso, especialmente porque sei que para muitos essa não é uma possibilidade.

Errada foi a minha mentalidade. Desejei estudar muitas outras coisas, antes de escolher Relações Internacionais, e admito que o que me fez desistir de cada uma delas foram apenas duas coisas: dinheiro e a opinião alheia. Por trás da minha decisão estavam diversos medos. Medo de cursar algo que amava, e acabar desempregada. Medo de aprender coisas incríveis, mas frustrar as pessoas que me suportavam financeiramente. Medo de seguir meu instinto, mas acabar pobre e envergonhada. Não que eu tenha ido para um curso que não amava — na época eu realmente adorava o tema — , mas houve uma necessidade de segurança me influenciando. E uma necessidade que hoje eu sei ser ilusória. Medos que sei serem limitantes. E medos que não eram apenas meus. Até porque, também não é fácil incentivar um adolescente a seguir um sonho pouco convencional, sabendo que ele corre um grande risco de passar por dificuldades. Mas o que são as dificuldades, senão uma parte fundamental das nossas jornadas, que nos fazem crescer e aprender? E quais são os caminhos que não envolvem desafios e problemas? No fim, optei pelo seguro e tive outros desafios, de qualquer forma. Diferentes, porém, talvez, não menores do que os que eu teria optando pelo desconhecido.

Fui ganhar dinheiro

Primeiro ano de faculdade. Passei no processo seletivo para ser parte de uma organização estudantil internacional incrível, que tinha a ver com impacto social e estava alinhada com meus objetivos de vida. A organização me dava inúmeras oportunidades de conhecer pessoas maravilhosas e desenvolver minha liderança. Dava a chance de, após pouco tempo de membresia, aplicar para cargos de liderança. Fiquei lá um ano, e não valorizei. Não apliquei para os tais cargos, por achar que não tinha competência ou experiência suficiente. Mesmo após um ano lá. Não me desafiei, por medo de fazer algo errado e ficar exposta. Saí de lá para começar um estágio na própria faculdade. Um estágio que eu odiava, com uma gestora que pouco tentava me ensinar algo, e um trabalho monótono que qualquer pessoa conseguiria fazer em uma hora. O único ponto positivo dele foi ter ficado apenas 4 meses, antes de encontrar outro. Ter deixado a primeira organização é um dos maiores arrependimentos que tenho. Hoje tenho amigos que permaneceram lá, deslancharam e tiveram experiências que até agora eu talvez não tenha alcançado. E a origem dessa decisão errada, além dos medos, foi medir meu sucesso por quanto dinheiro eu estava ganhando e o quanto as pessoas admiravam o que eu estava fazendo. Mesmo que a primeira experiência fosse incrível e desafiadora, ainda era um voluntariado. Mesmo que a segunda fosse irrelevante para minha vida, era remunerada e todos achavam importante. E essa é, com toda certeza, a pior mentalidade que você pode ter no início da sua vida adulta/profissional.

Acreditei nas minhas inseguranças

Permaneci por dois anos em um estágio. Era um estágio excelente, senão não ficaria tanto tempo. O que percebo hoje, no entanto, é que tive poucas experiências diferentes no momento da minha vida em que eu mais podia experimentar e arriscar. Achava que não era boa o bastante para conseguir um intercâmbio no exterior, então nunca apliquei. Achava que não era boa o bastante para largar meu estágio e ir atrás de um diferente, para experimentar, então nunca larguei. Achava que seria impossível conciliar faculdade e estágio com outros cursos, então não tentei. Fui acreditando no que meu medo me dizia ser impossível, sem pagar para ver. E fui perdendo a chance de arriscar, falhar, tentar de novo e ter experiências únicas de aprendizado. Novamente, por que ninguém nunca me mostrou que eu estava perdendo? Porque eu estava em um dos cursos mais concorridos. Da melhor Universidade. Estagiando em uma multinacional. Ganhando um salário de estágio espetacular. Claro que ninguém diria que eu estava perdendo.

Deu tudo errado

Terminei a faculdade sem saber explicar o que eu tinha aprendido. Sem saber por que eu tinha feito aquela escolha. Não fui absorvida pela empresa onde estagiava. Prestei mais programas de trainee do que sou capaz de enumerar. A maioria deles não tinha nada a ver comigo, ou com meus sonhos. Mas eu precisava de um emprego, urgente. Não passei em nenhum. Comecei a ter crises de ansiedade e me sentir completamente perdida. Procurei um terapeuta e, na primeira vez que ele me perguntou "quem é você?", comecei a chorar incontrolavelmente.

Enfim, encontrei um emprego. Em uma start up que tinha tudo a ver comigo. Tudo a ver com meus objetivos. Mas o trabalho em si me desagradava. Parecia under qualified pra alguém que tinha as melhores notas na escola, que havia passado em um dos cursos mais concorridos da melhor universidade, que falava inglês fluentemente com certificado Cambridge. Simplesmente estavam me subestimando.

Enfim uma escolha acertada

Persisti. Me agarrei aos meus sonhos e objetivos de longo prazo, não às circunstâncias que eu estava enxergando no momento. Desejava trabalhar em um lugar inovador, onde minha presença fosse relevante, e que causasse impacto positivo na sociedade. E eu estava nesse lugar. Podia não estar do jeito ideal que eu imaginava, mas decidi olhar para a big picture. E essa foi a escolha perfeita para o momento.

Aprendi que não existem perdedores e vencedores, nós fazemos nossa jornada tomando as decisões que fazem sentido para nós em cada momento. Prestígio, status e dinheiro não são meus objetivos finais, então por quê focar neles quando ainda tenho tanto a aprender e descobrir? Aprendi que tenho tempo e direito de arriscar e errar. E que cada erro trará um aprendizado. E que cada aprendizado é uma nova porta.

Entendi que essa coisa de "carreira bem-sucedida" é muito mais relativa do que imaginava, e que não adianta decidir o que sucesso representa pra mim tomando outras pessoas como referência. E aprendi, principalmente, a confiar em mim mesma. No meu propósito e naquilo que me faz feliz. "Carreira" é uma palavra séria demais. Prefiro dizer que estou tentando construir meus sonhos.


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