Reflexões sobre a ansiedade #01

Fernanda Tosoni
Nov 5 · 2 min read

É um exercício árduo desarmar a ansiedade. Anos de terapia, conversas desconfortáveis, crises de choro, válvulas de escape e noites mal dormidas. Olhar para aquilo que te amedronta. Aprendi a perceber minha ansiedade como uma sala de espelhos. Consigo me observar tempo o suficiente para quebrar uma camada de espelho, e imediatamente percebo outra me refletindo uma face ainda desconhecida. A cada camada, um alívio. Vou quebrando traumas, medos, autocríticas. Mas a quebra é dolorosa. Percebo uma máscara cair, uma rachadura se formar, e por um tempo indeterminado convivo com uma sensação aterrorizante de não saber quem sou. Pra onde ir, o que fazer? Viver com ansiedade é um exercício de lapidação. Por isso precisamos buscar estarmos sempre conscientes — conhecer nossas pedras, dominar nossas ferramentas, tratar bem nossos obstáculos. Aceitar que dorme em nosso peito um vulcão em constante erupção. Ser o vendaval, a tormenta. Saber destruir e nutrir.

Apesar de muito doloroso, é fácil ser a ventania. Considerando que a ansiedade normalmente me afeta com o propósito de me manter na zona de conforto, é cômodo me deixar levar pelo vento. Destruo minhas pernas, me despedaço para continuar no mesmo lugar (a clássica autossabotagem). Ultimamente meu exercício diário tem sido perceber a ventania que se forma em mim, sem me identificar com ela. Eu não sou minha ansiedade. Tento ver o desespero que me acomete como uma criança fazendo birra — o mais eficiente é, quase sempre, ignorar o chilique. A ventania se forma e, quando posso me manter distante (como se a visse no meu céu pessoal), ela passa. Eu consigo dialogar com meus pensamentos mais sinistros, os medos que são sussurrados, as certezas falsas que são criadas. Eu não permito que novos espelhos se formem.

E quando a ventania passa, é hora de nutrir o que nos mantém vivos. Eu amo meu corpo,aceito meus sentimentos, dou atenção e carinho aos meus medos para que, acalentados, eles se percebam indefesos. Confesso internamente que sou uma mulher sensível, carinhosa e sentimental. Me abraço e me permito seguir sorridente.

A ansiedade me dilacera dia sim, dia não — e eu continuo.

Fernanda Tosoni

Artista plástica que ora pinta com tinta, ora com palavras.

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