Para Abelardo

de Heloísa


Depois de muito tentar seguir em linha reta, me dei conta de que estive andando em círculos. E depois que assumi para mim mesma o que no fundo, eu sempre quis, deixei que o ódio de mentira fosse substituído pelo desejo de verdade.

Eu penso como 33, você beija como 17. Fodam-se as borboletas no estômago, eu quero seu copo gelado na base da minha coluna, quero o formigamento, o sangue como lava, quero mordidas e coisas humanas. Desisti de querer lhe arrancar os olhos, agora só lhe arrancaria as roupas. Vou lhe guardar no bolso como o segredo mais precioso, vou acariciar nossa maldade toda vez que me julgar inocente. Lhe mostrei diferentes tons do meu ódio, que nem em milhões de discussões você foi capaz de notar. Falei sério pela primeira vez, você se assustou ao me ver mulher, mas não deixou de gostar do meu jeito agridoce.

Guardo memórias vívidas das suas mãos procurando meus ossos, ruídos, suspiros, dentes e unhas, pele marcada e um pouco de suor. A sensação de estarmos errados fazendo a coisa certa, e pouco nos importando com quem mais estivesse por ali. O tempo acabando, os movimentos erráticos, o estranhamento. O barulho em volta, o excesso de vida, pupilas dilatadas e medo. Volta e meia tenho o prazer de voltar àquele mesmo lugar em meus sonhos, e me visualizo fazendo as mesmas coisas, só que piores. E acordo sentindo a sua falta no escuro, desejando ser dona do meu nariz e talvez, de você.

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