Como eu enfrentei o medo de apresentações em público — parte 2

Continuando minha história, tenho mais 3 momentos que gostaria de compartilhar.

A primeira delas, aconteceu logo depois do Front in Sampa. Como eu disse, eu sai mandando call4papers para vários eventos e um deles foi a Agile Brazil. Eu achava que eu não teria nada para falar de Agile. Mas em conversas acabou saindo um tema que une dois mundos que eu gosto muito de falar: experiência do usuário e diabetes. Para quem não sabe eu sou diabética, e inclusive tenho um blog sobre o tema. E eu consegui fazer uma talk explicando como foi o processo de criar um aplicativo para diabéticos. Não posso deixar de citar, o apoio da Cecilia Fernandes, que desde o começo me ajudou muito nesse processo de palestrar, me puxando para eventos, me ajudando com ideias, enfim, ela foi muito importante para eu começar e continuar palestrando.

Palestra na Agile Brazil 2014 sobre "UX para aumentar a liberdade de diabéticos"

Essa foi uma palestra que teve outras coisas novas: foi minha primeira viagem para palestrar e um evento maior do que os anteriores. Na hora da minha palestra, a sala estava lotada, com gente em pé e mais uma vez eu estava super nervosa. Nessa talk, eu tive um problema a mais: tive que controlar a minha voz. Minha voz claramente tremia de tanto nervoso que eu estava. E isso é muitíssimo complicado, porque você acaba não tendo controle algum sobre o seu corpo. Isso acontece, totalmente alinhado ao quão seguro você está. E não tem problema algum nisso acontecer. Da metade para o final da talk, eu fiquei mais segura do que eu estava falando, e com a reação do público também, e fui me acalmando um pouco. Isso com o tempo vai melhorando, é uma questão de prática e controle.

Mas como todas as experiências anteriores, o resultado pós talk, é algo que compensa tudo, que motiva, anima. Eu escrevi, na época, um post sobre como foi minha palestra na Agile Brazil aqui.

As duas próximas histórias, envolvem o mesmo evento: BrazilJS Conf.

A primeira delas, foi em 2016. Eu nunca tinha ido à BrazilJS, mas vi um belo de um desafio aí. No elo7, onde eu trabalho, estávamos em um período de transição, criando uma arquitetura nova, que usaria javascript isomórfico. Meu forte na época não era javascript, eu tinha sérias dificuldades com ele, e nem se fala com isomorfismo. Não fazia ideia do que estava acontecendo. O que eu fiz então? Submeti uma palestra pra BrazilJS com o tema sobre javascript isomórfico. Eu tinha toda e total certeza de que eu não passaria. Eu não era alguém conhecida, ou que palestrava muito, muito menos influente na comunidade, ou seja, na minha cabeça não tinha a menor chance de passar.

Eis que um dia, depois de um bom tempo, acordei de madrugada e olhei que tinha recebido um e-mail da BrazilJS falando que havia passado para palestrar. Achei que era mentira e estava sonhando rsrsrs. Fui me dar conta e ver que era verdade, apenas no dia seguinte quando acordei de verdade. Aí veio aquela alegria, porque eu tinha conseguido passar e logo na sequência veio o pavor. Como que eu conseguiria falar em um evento que tem as melhores pessoas de javascript? Eu não sabia quase nada, como eu faria isso? Como que em dois meses eu conseguiria não só aprender isomórfico, mas aprender JS e conseguir montar uma palestra para ensinar outros sobre esse assunto? Como podem imaginar, minha cabeça estava um caos completo, eu estava com muito medo de ser uma catástrofe. Até porque não era um tema que eu tinha muita proximidade quanto css ou diabetes.

Depois de todo esse desespero, fui conversar com as pessoas da minha empresa, pra elas me darem uma direção do que estudar e por onde eu poderia começar. E aí, veio uma parte importantíssima: planejamento. Eu tinha dois meses para a palestra, e dividi o que deveria fazer em cada semana, desde a parte do estudo até a parte de fazer os slides. Óbvio que acabei atrasando um pouco o planejamento, mas de forma geral, tudo correu bem. Consegui terminar uma semana antes, apresentar na empresa, colher feedback. Até que chegou a viagem!

Fui para Porto Alegre, e para a minha super felicidade a minha talk seria no primeiro dia. Até minha palestra não consegui parar sentada, dei milhões de voltas naquele galpão, precisava me acalmar. Quanto mais eu olhava para aquela plateia, todo mundo “empilhado”, mais eu me assustava. 1500 PESSOAS! Já pensou nisso? Pois é, eu nunca tinha imaginado hahaha.

Tudo isso ainda estava vazio pro tanto de gente hahaha

Consegui apresentar minha talk, e o pós talk foi mais do que sensacional. Muita gente vindo falar comigo, falando que tinha entendido o que era de verdade, que não tinham conseguido aprender até minha talk. Além disso, o networking em um evento desses tão grande foi muito legal. Conheci e conversei com pessoas como Lea Verou, Chris Lilley, Mattias Petter Johansson, e mais um monte de gente. E mais uma vez vi que eles são gente como a gente. Além deles, teve uma pessoa, que foi essencial para eu começar a perder o medo de falar inglês, que foi o Mike Taylor . Eu estava com vergonha e medo de falar inglês, achava que não conseguiria, então eu ficava com os palestrantes e na maioria das vezes só escutava o que eles falavam, e evitava ao máximo falar. O Mike veio falar comigo, sobre a minha talk inclusive, e ele me ajudou muito a falar, o melhor de tudo é que além do inglês ele falava português também! Então sempre que eu travava, ele traduzia a palavra pra mim, e a gente continuava conversando em inglês. Isso foi muito importante, para eu perceber que eu era capaz de falar inglês, que eu só precisava perder a vergonha e enfrentar o medo de falar.

Palco da Brazil JS 2017

A outra história com a Braziljs, foi no ano seguinte, em 2017. E as experiências foram bem parecidas, só que bem mais fortes. Pra começar… dessa vez eu acreditava que não conseguiria passar em um evento grande duas vezes seguidas. Tanto que mandei nos últimos minutos de submissão. Dessa vez, eu decidi que falaria sobre Ecmascript 7. Mas de novo eu não sabia nada sobre o assunto. Tanto que aconteceram surpresas!

Uma delas, terei que contar sobre outros dois eventos para fazer sentido. Tudo começou no FSXP (Full Stack Experience). Nesse evento eu iria falar sobre alinhamento com CSS. Dei minha palestra, e lembro de um moço na primeira fileira da palestra prestando atenção e fazendo cara de quem estava gostando. No final da palestra ele inclusive fez perguntas e logo depois da talk, em um pequeno intervalo que tinha ele veio falar comigo. Parabenizou pela talk e falou que viu que eu iria falar na BrazilJS sobre EcmaScript, que tinha achado muito legal eu abordar esse tema e que depois a gente continuaria falando. Só que até então, eu não fazia ideia de quem era ele (me desculpe! hahaha).

Aí eu descobri que ele seria o próximo a dar palestra no evento. Comecei a assistir a talk dele, e descobri quem ele era! Era só o Leo Balter, membro do TC39 (grupo de pessoas que define as especificações do Ecmascript), e a pessoa que definia altas especificações do Javascript. Nesse momento eu só pensei: "Wow 😱". O detalhe era que nesse momento eu não fazia ideia do que eram as coisas do Ecmascript, de TC39, novas specs, como funcionava absolutamente nada. Me senti até envergonhada pelo Leo vir falar comigo e ter tanta expectativa pela minha talk.

Mas antes da BrazilJS, eu iria apresentar essa talk no JS Experience, e adivinha? Depois da talk do Leo Balter, novamente. E de novo, ele expressou o quanto queria assistir minha talk e o quanto estava feliz por eu estar abordando esse tema aqui no Brasil. Confesso que estava hiper, mega nervosa. Imagina só, a pessoa que escreve as especificações do JS, que sabia de ponta cabeça tudo aquilo que eu iria falar, estava ansioso pela minha talk. Eu estava quase perguntando se ele não queria falar no meu lugar hahaha. No final deu tudo certo.

Queria muito agradecer ao Leo pela confiança em mim, ele foi bem importante pra mim e me deu um super apoio. Pra mim ele foi um exemplo de humildade, assistindo minha talk, me dando dicas, feedbacks e muito incentivo. Além de toda a parte pessoal, eu ainda aprendi muito sobre a base do Javascript e de como as coisas funcionavam de verdade.

Voltando, lembra que eu falei que tiveram surpresas? Uma delas foi eu ter conhecido o Leo Balter e a outra foi durante a montagem da minha palestra. Eu simplesmente descobri que a minha proposta não fazia sentido. A nova versão do JS tinham apenas duas coisas para serem faladas, e eram bem simples. Eu não demoraria nem 10 minutos pra falar de tudo. Foi aí que pensei, e agora? O que eu faço? Eu tinha que fazer uma palestra de 40 minutos! Continuando os meus estudos, eu descobri que além do ES7, existiam o ES2017 e até uma spec definida para o ES2018. E foi aí que eu decidi fazer uma brincadeira. Apresentar tudo do ES7, fingir que terminei a palestra e depois apresentar as outras duas novas! Deu super certo e consegui apresentar os 40 minutos, mas a organização do evento quase foi a loucura! Eles acharam que eu iria terminar a talk em 15 minutos.

O que eu mais aprendi com essa talk, foi que quando você arrisca, você pode encontrar diversos imprevistos. Mas sempre é possível encontrar um jeito de contornar a situação. O mais importante é que eu não queria decepcionar as pessoas que pagaram para estar no evento e assistir a minha talk e nem decepcionar a organização que confiou que eu faria uma boa palestra. Eu queria entregar um conteúdo de qualidade e trazer algum valor para o público.

Nessa BrazilJS, eu disse que a experiência foi muito mais forte. Além de tudo isso que já tinha acontecido com a palestra, durante o evento teve muito mais. Primeiro que tiveram duas edições: Porto Alegre e Fortaleza. Isso trouxe um sentimento de proximidade entre os palestrantes gigantescas, viramos grandes amigos. Conheci pessoas incríveis, é até injusto citar e ficar faltando alguém. E eu tive uma nova experiência com o inglês e uma lição de vida que vou levar pro resto da minha vida.

Conheci um americano que trabalha no Netflix, Jem Young. Ele foi uma pessoa sensacional, sempre tentava me colocar em todas as conversas mesmo eu estando mais quieta. Queria saber minha opinião e queria que eu participasse. Ele assistiu a minha palestra duas vezes! Em Porto Alegre (com tradução simultânea) e em Fortaleza (sem tradução nenhuma). Pra mim, só por isso já teria sido super wow. Mas ele veio me dar feedback, falar sobre minha talk, perguntar como que eu me transformava da "menina quietinha" para a pessoa que ele viu no palco, enfim, …, não tenho nem palavras pra expressar tudo que ele me disse!

Depois disso, eu me senti muito mais a vontade para conversar com ele. Inclusive pedi dicas que ele poderia me dar para eu melhorar minha talk, postura, slides, e tudo mais. E ele foi super atencioso e humilde para me ajudar. Durante a conversa, eu fui tentar explicar para ele o porque eu era a "menina quietinha". Falei que eu tinha vergonha de falar inglês e que não sabia tão bem e por isso preferia só ouvir a falar algo. E aí chegamos a maior lição que eu pude levar pra minha vida! Ele disse "Você sabe e está tentando falar a minha língua, eu não sei nada sobre a sua". Ou seja, ele não poderia me julgar, porque eu estava me esforçando para falar com ele, ele não tentou nem falar em português. E isso me fez refletir muito… Por mais errado que eu estivesse falando, o que importava era conseguir me comunicar, e eu já estava "um passo a frente" por estar tentando falar a língua da outra pessoa.

Essa frase eu levo até hoje comigo, toda vez que me sinto insegura, e acho que você que está lendo e também tem vergonha de falar inglês, deveria levar essa mensagem pra você também!

No final, todos esses eventos trouxeram para mim muito mais do que conhecimento ou do que uma simples palestra. Me trouxeram conexões, conheci muitas pessoas, pude tentar ajudar muitas outras, consegui abrir minha mente para vários bloqueios e medos que tinha, e muitas outras coisas que nem consigo pensar nesse momento!

Desde esse tempo, eu comecei a construir coisas que tenho hoje inclusive. O @help4papers(veja mais sobre a proposta) foi construído a partir dessa minha timidez, de conseguir ir crescendo aos poucos e ir enfrentando esse medo de me expressar.

E também por isso que eu criei um workshop para conseguir fazer com que outras pessoas também consigam se comunicar melhor, para ter experiências muito mais sensacionais do que as que eu tive. O workshop "Expressão Para o Mundo!" também faz parte do Help4Papers e você pode conhecer ele melhor aqui e se inscrever aqui.

Se tiver alguma pergunta, sugestão ou pedido para novos posts, fale comigo! E para finalizar com uma mensagem…

Se tiver com medo,
Vai com medo mesmo!

by Rafa Cappai