Eu trouxe bolo

Ela corta cada um dos pedaços do bolo e encaixa um a um no potinho de plástico. O brigadeiro gruda na lateral do tabuleiro e quase que a última fatia vira da faca e cai no chão. Mas caiu certinho dentro do pote. É o ultima fatia que cabia no potinho, mas ainda tem mais um quarto do tabuleiro pra levar no dia seguinte.

Aquele bolo era a metáfora que eu precisava pra falar da vida. Ela passou a semana inteira precisando fazer aquele bolo, só pela simples sensação de poder ver que fez algo, que foi produtiva e eficiente. Já era quarta feira e tudo que ela queria era fazer aquele bolo. Não importava se seria as 7 da noite ou 4 da manhã, ele ia ser feito.

A vida toda nos persegue com 1001 obrigações e planejamentos que levam meses para nos trazer resultados. Fazemos tanto e não vemos nada pronto. Uma pessoa é do planejamento, outra da execução, mais uma da criação e a última da entrega. Todo aquele papo que o proletário não vê o resultado final da produção, é verdade.

Em algum momento o evento vai acontecer, vai estar ali na frente de todo mundo, mas quem agendou aquilo tudo? Ela colocou no papel cada um dos detalhes; cada problema e solução; cada despesa e lucro; cada convidado e inscrito. Tudo estava ali e alguns meses depois cada palavra escrita se transformou em um evento com centenas de pessoas. Mas ela não ligou pra nenhum palestrante, não reservou o espaço e nem lidou com o público.

Ela fazia tanto mas não fazia nada. Esse foi o desespero que se materializou em um bolo. Depois de textos e textos lidos a sensação de ainda não saber nada despertou a impressão de que tanta coisa feita não servia para nada. O tempo passa e as 24 horas gastas com tanta coisa que não lhe traz retorno pararam de fazer sentido.

Ali estava algo que poderia ser feito. Era fácil, relativamente rápido e prático. Bastava um pacote de mistura pra bolo, 3 ovos, 150 ml de leite e duas colheres de margarina. Essa era a receita para que tudo se acalmasse e sua vida voltasse a fazer sentido. Tudo isso ia lhe custar nem 10 reais. Precisava ser feito.

Entre preparar a massa, lavar a louça, esperar o bolo assar e fazer o brigadeiro, passou uma hora e meia, ou mais. É muito tempo pra quem tem o dia corrido e muita coisa pra fazer, mas foi o tempo que precisou para si. Os pequenos problemas que precisavam ser resolvidos, como os pequenos pontos de margarina que não queriam se misturar com a massa e a quantidade certa de leite a colocar, foram solucionados. Passar por todas essas etapas de ver o problema surgir, propôr uma solução, colocar ela em prática e resolver tudo, era o que precisava.

Era bom ver algo se realizar e sentir que você é capaz de fazer algo completamente sozinho. A vida anda tão corrida que se faz muito difícil conseguir um tempo pra fazer algo pra nós mesmos. Ela não ia comer aquele bolo sozinha e nem comeu, mas ele era pra ela e só dela.

Com tantos pedacinhos distribuídos em vários potinhos, ela levou aquele bolo pra faculdade. Pedacinhos de sua produtividade distribuídos no ambiente que mais a faz se sentir inútil, improdutiva e atrasada. Pedacinhos que entregou pras pessoas que no meio de toda essa conturbação a fizeram se sentir percebida. Fizeram-na se sentir fora da reta. Acabaram com o sentimento de que a cada manhã o mesmo dia se repete.

Aquele bolo ficou muito gostoso. Bolo de chocolate com cobertura de brigadeiro, o que haveria de dar errado? Mas ele deu mais certo do que qualquer tarde de leitura ou manhã de trabalho. Ele se fez o sabor da calmaria, plenitude, paz e esperança. Esperança… há quanto tempo eu não escrevia essa palavra…. mas está certa. Essa é a esperança de que no meio de todo esse desgaste o bolo apareça e vejamos os resultados de tanto trabalho.

Nossa, esse texto realmente tá muito capitalista e neoliberal, mas parece que não tem pra onde fugir quando nossos sentimentos perpetuam esse sistema em que nunca somos o suficientes e nunca seremos. Quando você trabalha demais, precisa parar pra viver; quando para pra viver, deveria tá produzindo; quando tá produzindo, não tá produzindo o suficiente; quando tá produzindo o suficiente, tá trabalhando demais.

Pra quem é esse bolo? Ela o fez pra fugir de todo esse sufoco e desgosto. Transformou sentimentos desesperadores em algo maravilhoso. Mas a vida não merece isso, não merece ser transformada em algo ótimo. A vida é escrota e faz com que nos sintamos um lixo. Mas pra quê eu to falando isso? Não há nada de novo sob o sol. É vida que segue. Sorte dos que tem uma hora e meia no dia pra não surtar. E pros que não tem, espero que alguém leve bolo pra você.

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