Você disse que me machucaria. Eu aceitei. De tantas vezes que você se disse babaca, todas aceitei. Todas as vezes que você assim se fez, não achava que o era. Me dizia que algo acontecia, estava pra melhorar. É questão de tempo, tudo passa. E mais uma vez, mais um momento difícil.

Noite clara. Todas as cortinas abertas e algumas janelas. Senta no chão do corredor, de frente pra janela. Costas na parede, mão sobre a testa. Procura desculpas para não fazer o que não deve. A voz no telefone chama, provoca, questiona, anseia. Mês a mês, mensagem a mensagem, ligação a ligação. Respiração perturbada interrompida por um “vem me buscar então”.

Os 20 minutos pareciam uma eternidade. Ele provavelmente não esperava uma resposta diferente das que tinha tido nas outras tentativas. Ali o peito se abriu. Adrenalina. Ninguém podia ver, saber ou sequer imaginar. O taxi que parou em frente ao prédio abriu a porta pra ver mais uma vez a cena de todos os dias sob um novo ângulo.

Parecia estar sonhando. Acreditava estar ainda levemente bêbada, mas havia muito tempo que tinha parado de beber. Beijou seu pescoço, falou algo que não se recorda mais e prestou atenção na ordem dada ao taxista. “Podemos voltar, é o mesmo endereço que passei para que me buscasse”. Pensou que ele nunca fosse chegar. Dava tempo de desistir, mudar de ideia.

Como seria se ali parasse tudo? Passava com o carro amarelo em frente ao prédio que trabalhava todos os dias. Pensou que era ali que devia falar. “Para o carro, preciso descer”. Andaria pelo escuro, no meio das árvores que ficavam por ali. O vento frio que entrava pela fresta da janela estaria em todo seu corpo. Seu corpo estaria no ar.

A noite que entrava pelos vidros e visitava seu quarto era a mesma que ela estava a visitar. Dona de nada se doa ao destino. Se entrega ao perdido, ao arrependimento, à memória de um sonho acontecido. Passa a mão sobre o corpo do outro, sente o calor de sua respiração, dele e do taxista.

Enquanto beija a boca sabe que faz aquilo pra ser um outro alguém. Chega de sempre ser o mesmo. Faz alguma coisa que se arrependa e não conte pra ninguém. Seja o que o julgam e deixa o que admiram. É tanto ter que ser que aqui precisa fazer sem pensar, deixa alguém ser você. Ter você.

O corpo guiado pra dentro do prédio de entrada branca. Nunca mais voltaria. Não veria sob ele a luz do dia. Talvez só exista antes das 6 da manhã. Invertida Cinderela. Corpo dos podres até a luz voltar. Ninguém vai ver nem saber. Ela é pra sentir. Frases soltas, fingidas, mal formuladas. Compra e molda sua falsa ilusão.

Olhos perdidos mal focados, formam a mesma imagem em um diferente criar. Olhar que sente o despir. Olhar que olha o olhar. Teu olhar que corre sobre o meu ser confirmando teu criar. A mão grande corre no corpo dito feminino. Sem tempo pra respirar o nervosismo parece ânsia de um antigo esperar.

Empurra teu corpo na parede. Finalmente aqui. Esse rosto pequeno com feições de dominar. Espera que suba, que faça, que seja, que doa. Provoca e pede que suba, que faça, que seja, que doa. Se perde. A sede vira confusão. O desejo se contrai. O poder e submissão. Me diz o que acontece pra ele se permitir.

Passa a ser o que é abominado. Domina, agride, xinga e influencia. Ali os dois se perdem. Se deixam. Pernas se abrem, costas se dobram e o suor escorre. Vizinhos acordam sem despertador. Tudo continua silencioso. O corredor vazio parece ser o prédio inteiro, com exceção do pequeno apartamento barulhento.

O gosto de ter do que se arrepender. Ter do que se lembrar quando deitar a cabeça. O gosto salgado do suor que com a mão tira da boca. Ter um motivo pra não esquecer. O gosto do filme trash na vida real. O início do vício da adrenalina e confusão. O desgosto que passa só pra si.

Volta pra casa pra dormir 4 horas. Pra no dia seguinte ver a figura da noite sob a luz do dia. Pra se sentir descartada. Pra se sentir acabada. Pra sentir.

Você disse que me machucaria. Eu aceitei. Porque nenhum machucado poderia ser maior que os que eu voltaria a me fazer sem você pra me fazer sofrer.

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