Noir Blue: A assinatura poética de Ana Pi

A mineira Ana Pi, artista, coreógrafa e pesquisadora de danças urbanas, durante uma viagem por vários países do continente africano registra seus passos e sua dança performática. Transforma estas imagens em poesia, e o resultado é Noir Blue. Logo no começo do curta-metragem podemos escutar Ana, que expõe seu corpo e voz diante de nossos olhos, dizendo: “se me coloco no espaço, junto, me integro”. A frase ecoa por todo o filme. Quando em sua chegada no aeroporto dizem que “ela é daqui”, que ela é África, a menina parte para uma reflexão sobre suas raízes.
Em frente à câmera, performa uma dança, toda vestida de azul. Sim, veste-se de uma cor. Entre o azul-cobalto e o azul índigo, e a pele negra. No fundo, como cenário, tem o mar. O mar do continente africano, assim como seu corpo. Usa também um véu, de tecido fino e esvoaçante, também azul, que em quase todo tempo cobre seu rosto.
Num momento, começa a enrolar o tecido. Seus movimentos e amarrações vão se estruturando e revelando um turbante. O adereço é um símbolo de sua ancestralidade afrodescendente. “O véu me revela o que sempre me esconderam”, ela diz. Aquilo que escondia sua identidade se transforma em algo que marca sua resistência.
Em uma das cenas alguns meninos dançam em frente à câmera num plano médio. Revezam entre si o espaço no centro, como um palco improvisado, para exibir suas próprias coreografias. Entre as batidas da música, cantam o refrão: “signature”, palavra em francês que significa “assinatura”. Nesse momento, nossa narradora — que assume vários papéis, de dançarina a diretora — aparece no canto direito da tela sorrindo, cantando o mesmo refrão, deixando sua assinatura nas imagens.
Ela dança, coloca seu corpo no filme, compõe imagens etéreas, muitas vezes fantasmagóricas, brinca com as imagens, experimenta, trabalha com duplas exposições. Faz uma tela preta e, logo depois, uma bem colorida, como fosfeno. “Umas coisas eu vejo, outras você tem que imaginar”, ela diz. Mostra-nos todas essas cores que temos que nos habituar a ver. Cria silêncios, e em seguida suspira. Escutamos sua respiração lenta. “Preto, preto, preto...”, repete num ritmo constante, com voz carregada de intensidade. De tão azul é quase preto, ou o inverso?
A artista faz de seu Noir Blue um filme-ensaio cheio de vida e poesia. Cria cenas que recordam os cinensaios da diretora francesa Agnès Varda, ou os filmes-diários de Jonas Mekas. A partir de sua viagem, de suas danças, pensamentos e cores, registra seu íntimo, e se liberta, quebra suas fronteiras. Descoloniza seu corpo. Faz de suas imagens marcas da sua vida. Vê o cinema como poesia, e mais do que isso, como assinatura.