a árvore dourada

A menina magricela e desengonçada segurou-se nas raízes grossas que se enterravam fundo na terra do parque. Aquela não era a primeira vez que Clarisse entrava na grande árvore dourada que só ela, e aparentemente só ela mesmo, podia enxergar. Dentro da abertura no tronco havia um buraco cheio de raízes que formavam sua escada para descer e descer na escuridão; depois do buraco, havia um túnel que a guiava numa infinidade de tropeços e pragas pelo caminho e depois do túnel, havia a luz.

Clarisse gostava da luz. Era a única coisa em toda aquela jornada escura e cansativa que mostrava a ela que o que via era, de certo modo, real. A luz atravessava a cavidade no túnel e vinha do grande campo de grama acobreada, onde o sol brilhava sempre e nunca havia tempestades. A menina correu pela grama, perdeu os sapatos em um ponto e ralou os joelhos quando caiu perto de uma árvore de copa volumosa e tão verde que parecia recém-pintada. O campo se estendia e parecia não ter fim, tudo igual, tudo do mesmo jeito; qualquer pessoa se perderia ali com facilidade, mas não Clarisse. Ela explorava o lugar havia alguns meses e já o conhecia. Sabia onde ficavam as casas do povo das flores — como ela chamava aquelas crianças miúdas e magras que conhecera durante suas expedições — e sabia encontrar seu caminho de volta. Vira os mil jardins coloridos e achara o rio acinzentado que cortava o campo. Aquele era o mundo de Clarisse e ninguém melhor do que ela o conhecia, nem mesmo o povo das flores, em sua opinião.

Estava sentada quando as duas meninas pequeninas se aproximaram e sorriram. Clarisse sorriu de volta, mesmo com os dentes tortos que costumavam deixá-la envergonhada de seus sorrisos. Ali ela não tinha esse problema; na verdade, não tinha problema algum.

— Digam o que quiserem! — ela exclamou para as duas meninas, animada e áspera ao mesmo tempo — Não devolvo e não devolvo mesmo!

— Não pode ficar com a chave para sempre, Clarisse! — a menina de olhos castanhos retrucou, enquanto a de olhos amendoados assentia com fervor — A chave não é sua!

— Eu achei a chave, neste caso ela é minha! Ela abre a porta para este lugar, então vou ficar com ela.

— A chave não pode ser sua para toda a eternidade! Eventualmente alguém encontra a chave e vem para cá, pessoas que precisam esquecer seus problemas. Pessoas que têm sofrido bastante. — a menina de olhos castanhos prosseguiu, enquanto a outra continuava acenando com a cabeça e gesticulando a favor de sua amiga — Você tem que devolver a chave, Clarisse!

— Não, ela é minha! — Clarisse rebateu, irritada e correu para longe das meninas, a grama roçando suas pernas; as meninas miúdas correram atrás dela — Não podem pegá-la de volta!

Clarisse correu e correu, o mais longe que podia, dando voltas e voltas no campo, fazendo as meninas tropeçarem e rolarem na grama. Ela pisou na margem enlameada do rio, espirrou água para todos os lados e rolou na grama, rindo. Não importava o quanto demorasse a se levantar ou para descansar um pouco, as meninas do povo das flores jamais a alcançariam. Ali, no campo acobreado, Clarisse era sempre a primeira, a mais rápida, a melhor em tudo; ali ela sempre tomava a frente de tudo e sempre seria assim.

O sol queimava sua nuca, suor brotava-lhe da testa, mas Clarisse estava se divertindo à beça e mesmo o cansaço físico não a diminuía. Pulou nas flores azuladas que estavam em um dos jardins bem cuidados, correu atrás dos unicórnios que fugiam assustados devido ao seu barulho, mergulhou fundo no rio e ria, ria alto. Ria muito porque no fundo Clarisse sabia que precisava devolver a chave; não era dela e outras pessoas precisavam ver o campo acobreado. Nada mais doía nela do que saber que teria de deixar seu pequeno mundo perfeito. O mundo colorido, o qual ninguém lhe dizia coisas ruins como em sua cidadezinha pacata. O lugar onde ela se sentia em casa, feliz por um momento. Deitou-se perto de uma árvore, os braços e pernas abertos, o corpo sustentado na macia grama e os grandes e sonhadores olhos azuis voltados para o sol que iluminava tudo. Clarisse era uma sonhadora, ela sabia disso e sabia que por esse motivo, ela não era como as outras crianças em sua escola; por isso, ela tanto sofria e só por isso ela via o campo.

— Dê a chave para mim, Clarisse! — a menina de olhos castanhos ralhou, ofegante e sua amiga de olhos verdes continuava em seus gestos a favor de sua companheira.

Clarisse fechou os olhos com força e cerrou os punhos, os braços abertos para o céu, o sol queimando seu rosto pálido e descarnado. Ela sorriu para o céu, enquanto uma brisa gelada passava por ela.

— Deixe-me ficar mais um pouquinho — implorou chorosa.

A menina de olhos castanhos fez um grunhido negativo com a garganta.

— Não pode ficar, já se foi o seu tempo — ela murmurou — Agora, dê-me a chave!

Os olhos de Clarisse encheram-se de água, mas estavam fechados e ela evitou chorar. Já chorava demais em casa, na escola, nas ruas. Chorava muito para seus dez anos, chorava muito para uma criança saudável. Negou com a cabeça.

— Não quero!

— Você precisa me dar a chave! — a menina vociferou — Agora!

Clarisse sentou-se, bufando. Enxugou os olhos com as costas das mãos e fitou as meninas das flores com certo rancor. Estendeu as mãos vazias para a menina de olhos castanhos, que as segurou gentilmente e depois lhe tocou os olhos com suavidade. Por um momento, nada aconteceu e depois, nada de novo. Clarisse não compreendeu muito bem o que aconteceu.

— É hora de você partir — a menina disse.

Clarisse choramingou.

— Deixe-me ficar só mais um pouquinho, eu quero ficar, não quero ir para casa — falou tudo de uma vez, enrolando-se nas palavras — Se eu voltar, terei de ir a escola e na escola todos me tratam mal. Eles riem de mim e fazem piadas cruéis! E os apelidos — oh! Os apelidos — são maldosos e machucam-me! Não quero ir embora!

— Você não pode viver aqui para sempre — disse a menina de olhos verdes, finalmente — Já teve sua dose de sonhos, já teve seu anestésico e ele te dará o suporte para aguentar a dor que os machucados te causam.

— Eu morro se voltar!

— Não morre e não morre mesmo! — a menina de olhos castanhos retomou a palavra, enquanto a outra voltara a gesticular a tudo — Você esteve aqui, e o campo será seu suporte. Mas agora, você precisa voltar Clarisse. Já é tarde, as luzes irão guiá-la para casa e você conhece o caminho de volta.

Clarisse levantou-se emburrada e caminhou. Cortou o campo a passos lentos, encontrou seus sapatos e lavou o sangue dos joelhos ralados. Voltou para o túnel escuro, e depois subiu pelo buraco. E então, começou a cair na escuridão. Caía, caía e caía mais no imenso infinito que estava abaixo de si, seu grito ecoando por todos os lados, nenhum sinal de terra, raiz ou parede. Nada para se segurar, somente a queda sem fim, sempre para baixo, para o escuro.

Acordou sobressaltada com o despertador soando estridente. Era hora de levantar para ir ao trabalho e foi o que ela fez. Vestiu-se, escovou os dentes e tentou parecer menos cansada, enquanto caminhava. Todos os dias ela ia para a cafeteria onde trabalhava e passava, todos os dias, pelo parque onde costumava brincar. Passou outra vez ali, caminhando entre as árvores grandes e velhas e estava quase saindo na outra extremidade do parque, quando se lembrou do sonho. Confusa com si mesma, ela refez seu caminho até o centro do parque — seu lugar favorito — e ali, olhou para a grande árvore-coração. Era imensa e com uma copa larga e raízes ainda mais imensas.

Os olhos de Clarisse tentavam abrir a porta, como em seus sonhos; ela sonhava sempre com aquela árvore, mas em vez de ser marrom e verde, ela era dourada. E dentro dela havia um mundo. Um mundo com o qual Clarisse sonhava, todos os dias, tentando viver suas esperanças. Seu mundo colorido e generoso, que existia sempre que ela pegava no sono. E então, Clarisse dormia e dormia e dormia.