DEVANEIO

Domingo a noite. Assisto ao documentário “Santiago” de João Moreira Salles. O escolhi sem pretensão. Neste exato segundo compreendo que o filme me escolheu. Durante as cenas o documentarista expõe a vida de um de seus mordomos. Retoma momentos de sua infância. As lentes gravam ambientes que retratam sua vida. Aos poucos é possível enxergar que Salles é quem de fato está sob os holofotes. Suas memórias ali, expostas como cartas a mesa e ele tentando manter a distância entre aquele que filme e aquele que é filmado.

Não sei se é possível esta distinção. Talvez a arte saia de nossos poros em tentativas desesperadas de falar conosco. Me coloco a pensar que todos aqueles que escrevem, pintam, esculpem, tocam, dançam, possuem uma alma imensamente grande que não se cabe dentro de um corpo. Precisam explodir e explodem naquilo que é belo.

Me encontro completamente presente no sentimento que está me acometendo. Eu, que ando imersas em meus textos, projetos e produções, quiçá esteja sendo atacada por tudo aquilo de mais sublime que resolve se comunicar com o mundo e que me viu como ferramenta.

Eu, escrevendo, pensando em projeto, talvez devesse pensar em mim mesma. Acho que minhas tentativas desesperadas de textos sem sentido refletem a busca incessante pelo meu próprio caminho.

Tive nestes últimos tempos viagens fascinantes e descobertas incríveis sobre a poesia que está dentro de mim. Encontrei alguém que me estendeu a mão sem saber, e sem o menor interesse por detrás, me convidou para bailar em meus abismos interiores. Me vejo como uma caverna cheia de caminhos, uns pequenos, uns grandes. Uma caverna que leva a mistérios e desafios sem fim. Quem sabe eu seja uma grande aventura na esperança de alguém que tope se aventurar. Encontrei alguém que, em pleno feriado, assistia algum filme de conteúdo histórico. Lembro-me perfeitamente que o repreendi. Em feriado deve-se assistir coisas leves e rir de comédias sem graça, disse. Um mês depois cá estou eu caindo nesta mesma armadilha. Imagino que o filme que ele assistia não era à toa, mas um passo em busca de si. Assim como eu que, domingo à noite, me vejo inundada de sensações e pensamentos gerados pós documentário “Santiago”.

Um mês atrás encontrei alguém que me mostrou caminhos. Alguém que fez a questão de me instigar e que me convidou para traçar a jornada dentro de mim. Um espaço secreto, desconhecido, que, reza a lenda, guarda um tesouro inenarrável: o autoconhecimento.

E, se agora escrevo palavras metralhadoras que não necessariamente fazem sentido para o leitor que caiu de paraquedas em meu desabafo, temo, que este alguém me deixe. Pela primeira vez passou pela minha cabeça a possibilidade de ingressar nessa jornada sozinha. Nesta aventura, nesta caverna, nesta escuridão, nestes caminhos desconhecidos.

Não gostaria, mas sou capaz.

Quiçá tudo aquilo que escrevo são pequenos mapas que me ajudarão nos próximos passos, nos próximos assombros e nos próximos encantamentos.

Penso, neste momento, com a maior sobriedade (embora eu sei que possa parecer loucura e não faça o menor sentido) que eu, humana, sou muito mais do que uma simples pessoa. Talvez tudo aquilo que sempre versei em minha imaginação seja verdade. Cada ser contenha dentro de si um espaço único que merece ser conhecido; nem sempre é possível, todavia, e é isso que nos move a conhecer o exterior. Talvez as cidades históricas, os monumentos, as praças, os edifícios, tudo, tudo ajude-nos a compreender o que há de mais importante: não a história do mundo, mas a história de cada um.

Quem sabe seja essa a razão maravilhosa de viajar e, ainda, quem sabe seja por isso que cada pessoa possui dentro de si preferências de lugares a visitar: Eu, caverna interna, adoro lugares inesperados, simples, rústicos. Eu, em busca de mim.

Assim como em “Santiago”. O cineasta em busca de sua própria história. Fantasiado de filme. Fantasiado de outrem.

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