Saí sem beber e isso rendeu a história mais chata que você pode ler nesta semana pelo menos

Decidi ter a experiência de ir em um pub e permanecer sóbria como fazem as pessoas que me despertam um misto de admiração e desconfiança. Se for crente, só desconfiança mesmo.

O cenário: pub famoso entre minhas amigas por mancar no chopp Guiness com gosto de água de azeitona e jamais decepcionar quanto ao índice demográfico de homens gostosos.

O contexto: domingo e minha roomie frenética com a descoberta do anestésico Rollet™ indicado para contusões cardíacas decorrentes da atividade desportiva de se apaixonar.

“Home is where the heart is” e o bar é o lugar onde me sinto à vonts. Não errei suprimindo o plural: o bar é UM lugar. Todos os bares possuem uma conexão cosmológica, seja pela teoria holográfica ou da sincronocidade, você pode discutir isto em um bar, o resultado não varia. Se você esteve em um bar, você esteve em todos. E é este o motivo de chegar em um bar novo tratando o garçom de amigo.

E em todo o ritual muita coisa pode variar, exceto o chegar e pedir seu copo. É assim, simples. Sem delongas. Sem cumprimentar os amigos. Eu sou sempre muito proativa nesse processo.

Mas ontem fui uma estranha em minha própria casa. Não sabia onde colocar as mãos. Buscando em cada problema uma oportunidade, decidi me hidratar e pedi uma água. Logo mais pedi uma cadeira e foi assim o começo do fim.

Com tanta hidratação logo precisei encarar a realidade do banheiro da balada sóbria. Mas a verdade é que tanto ele quanto eu já estivemos piores.

Passei a maior parte do tempo invejando minhas amigas que cantavam a plenos pulmões músicas que elas nem gostam tanto assim. Em momento algum senti vergonha alheia por ninguém, quem tava passando vergonha ali era eu que não estava seguindo o protocolo.

rock n’ roll em reação com álcool causa o efeito estão-tocando-a-minha-música

A opção do flerte foi rapidamente descartada porque homens eram muito bonitos ou muito feios. Só o estado ébrio é capaz de nos colocar todos em uma mesma casta. Fui fumar e ler aqui no medium.

Mas minha amiga precisava do número-do-amigo-do-cara-de-branco-que-também-estava-na-terça-passada. Me utilizei de toda desenvoltura natural e traquejo social que não tenho — e sóbria tenho consciência disso, o que torna tudo mais impossível.

Virginiano, crossfitter, que tornava os componentes cabelo-barba-tatuagem do kit galã feio acessórios dispensáveis. Bem humorado, sagaz, sorrisão de príncipe da Disney… MAS reforçando minha tese de que não há pessoas psiquicamente saudáveis no rolê domingo à noite, ele me apresentou seu life coach.

De qualquer forma, mission accomplished: consegui o telefone do amigo e desta vez, por razões óbvias, quem saiu correndo foi eu. Cheguei em casa hidratada, com dinheiro sobrando e com o cartão de um life coach na bolsa, afinal eu também estava no rolê domingo à noite.

Como podem ver, não é só quem bebe que pode contar história. Mas com certeza o capítulo de tragicomédia da vida dos sóbrios deve ser bem mais curto e sem graça que dos bêbados.