Desemprego — primeiro dia

Não se assuste com o título deste texto. Esta condição foi totalmente programada.

Há algum tempo já não mais me sentia satisfeita com o que estava fazendo da minha vida. Passava de 8 a 12 horas por dia dentro de um bem conceituado escritório de advocacia, meu trabalho era bem reconhecido pela equipe de forma geral, eu era bem remunerada e andava por aí com toda a pompa de uma futura advogada. Pudera, estive me preparando para isso desde o primeiro semestre da faculdade de direito.

Eis que, após quatro anos de muita labuta, estudo direcionado, treino de raciocínio estratégico, técnicas de redação forense e infindáveis perturbações com afazeres menos glamurosos — como ligações intermináveis e relatório infinitos — entendi que dedicava a maior parte da minha vida a algo que não estava me fazendo bem, mas que na verdade me consumia e angustiava.

Os sinais de estresse eram aparentes e constantes. Só pensava no trabalho, vinte e quatro por sete eu era o trabalho, a preocupação do trabalho, o prazo do trabalho, o chefe do trabalho. Meu eu se resumiu a desempenhar aquela função. Quem era Fernanda Ferraz se não a estagiária de direito?

Após algumas dolorosas frustrações com a prática advocatícia, não apenas no que concerne à profissão, mas também aos percalços que a cercam, decidi parar.

Um dia, em prantos, declarei a todos os meus amigos que esse sofrimento todo não tinha nenhum propósito. Conversei seriamente com mamãe sobre deixar meu bem pago e glamuroso trabalho pela solitária vida de livros e estudos para concurso público, bem como a extensa preparação para o magistério.

Nossa Fernanda, mas quanta certeza nesta decisão! Não meus caros amigos. Quantas certezas vocês acham que uma pessoa de 22 anos tem? Eu não tenho nenhuma.

O fato é que precisava ardentemente buscar algo que me fizesse mais feliz e me livrasse daquela cobrança diária imposta por terceiros e por mim mesma. Precisava, especialmente, sentir que estava fazendo algo por mim mesma, para o meu próprio sucesso — não apenas financeiro, mas pessoal — e auto-estima.

Foi assim que acordei nesta terça-feira, um pouco perdida por ter a rotina de quatro anos arrancada de mim e enfrentando o novo desafio de me organizar inteiramente sozinha, de ser a minha própria chefe, de cobrar e realizar o melhor que eu posso para mim mesma, apenas para mim.

Com muito frio na barriga, mas também com uma lufada de esperança, dou início a uma nova fase da minha vida que eu não tenho a menor ideia de onde vai dar. Espera-se, apenas, que eu encontre minha tão buscada satisfação pessoal no que eu faço todos os dias. Isto porque, daqui a alguns anos quero me dizer: bom trabalho!

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