sobre finais (in)esperados e começos (im)possíveis

sempre fui uma pessoa muito dependente. me lembro de ligar desesperada pra minha mãe pedindo pra ela voltar correndo pra casa porque eu não conseguia ficar sozinha domingo à noite. lembro também de me sentir sozinha quando ela chegava. porque, naquele momento, a atenção de quem me protege e me cuida e me ama incondicionalmente não bastava.

comecei a namorar muito cedo, com uns (pasmem!) 13 anos. emendei um namoro de 3 anos em um de 2, o de 2 num de 3 e, no meio, vários rolos sérios e relativamente longos. posso dizer que minha vida sempre foi baseada nos meus relacionamentos. sejam eles amizades, namoros ou amores platônicos, eu dependo de quem me quer bem. me finco aos outros, me moldo ao que está em minha volta. e foi assim que essa história de dependência foi ficando mais e mais forte. mas tudo bem. “essa porra vai mudar. sou muito nova. vou aprender a me virar sozinha.”, pensava eu.

se tu é uma pessoa dependente, tu sabe do que eu tô falando. é complicado demais saber ser sozinha. saber sorrir sozinha. nos poucos 12 segundos de uma troca de episódios do netflix bate um desespero monstruoso, uma angústia que grita “EI, VÁ ARRUMAR MAIS AMIGOS! VÁ ARRUMAR UMA FODA, QUE SEJA! TU NÃO SABE FICAR SOZINHA, CAI NA REAL!”. mas aí o episódio seguinte começa e fica tudo bem. de novo.

ok, vamos ao que interessa.

meu namoro mais recente — que acabou de acabar, faz menos de mês, e é meio que o motivo da epifania pela qual quis escrever esse texto — me corroeu. me debulhou e fiquei só a espiga. foi intenso, durou pra caralho, foi feliz pra caralho. nunca aprendi tanto, sorri tanto, viajei tanto, amei tanto. e nunca me desliguei tanto do mundo.

meu medo de ficar sozinha e minha dependência naquela hora gritavam “EI, OLHA O QUE TU ARRUMOU! ISSO TE BASTA. LARGA O RESTO E SE JOGA DE CABEÇA!”. e foi o que eu fiz. esqueci de tudo. deixei de lado os amigos, a faculdade e até eu mesma. o que eu sei é que eu tava ali, sendo feliz, sorrindo. mas eu só tava ali, sabe? preenchendo meus buracos — em todos os sentidos da expressão.

aí, então, uma relação que começou promissora, que parecia que ia durar pra sempre — porque, “não, dessa vez vai ser pra sempre. dessa vez não é como das outras.” — acabou acabando. e pior do que em todas as outras vezes em que me senti sozinha e dependente, nessa eu não sobrei. eu sumi. a sensação de segurança e certeza e amor incondicional foi embora e eu me vi mais sozinha do que nunca — já que todo o resto eu joguei fora.

agora, depois desse final inesperado — mas, esperado. porque, afinal, nothing lasts forever — vem o medo de um recomeço quase que impossível. agora, aparece a angústia de — finalmente, amém, jesus cristo! — buscar um caminho que seja só meu. de pedir pizza só pra um. de congelar feijão e durar o dobro. de comprar sorvete pra comer tudo direto do pote — detalhe: veja como minha vida é baseada em comida. de, como ouvi de alguém esses dias atrás, desligar o celular e estar num lugar que só eu saiba.

a solidão tem seu valor. e aprender a lidar com o fato de que a gente nasce e morre sozinho é dolorido, mas não machuca mais que a dependência.

cheers por um 2016 onde eu me descubra. onde eu ande de bicicleta sozinha. onde, antes de qualquer coisa, eu me ame. cheers por um 2016 de começos completamente possíveis.