pirei a bordo do charitas x copacabana
eu diria em que data isto foi escrito mas não vou, perdi a conta dos dias, não me sinto situada no tempo
me identifiquei com alguma coisa que vai permanecer em segredo, a identificação era algo que não acontecia há um certo tempo mas a verdade é
eu não queria ter passado por isso
a parada é que suprimi todos os meus sentimentos até declarar minha própria morte por asfixia, estou assim há sete longos anos e de repente minha caligrafia se tornou cursiva e eu não sei o que aconteceu comigo, contigo, conosco
talvez eu esteja fora de órbita mas sinceramente pouco me importa o desespero do burguês safado que se lamuria por não ter como gastar mais do que já gasta enquanto perambula sem rumo em estabelecimentos de luzes fluorescentes capazes de perturbar qualquer um que tenha um mínimo de decência, ou no frio glacial de um ar condicionado que me seca a garganta já seca por outros motivos
você sabe bem, eu odeio luzes ofuscantes
eu só queria falar de algo
do que tem ocorrido ultimamente
tava trânsito em botafogo naquele dia, copacabana tava fluindo
falei algo inútil de novo, vamos acabar com isso logo
me faz um favor, me encontra na rua tal, no apartamento x do edifício cinza, vou estar te esperando para te contar conquistas que não são do seu interesse, porque você sabe como é, existe em todo ser humano um sentimento de abandono que se insiste em ignorar e talvez se a gente falasse sobre a morte com mais frequência e naturalidade saberíamos lidar um pouco mais com tudo.
