Como aprendi a construir uma carreira baseada em “Nãos”

Você entraria num vagão sem destino? Então por que teima em se colocar em situações complicadas pelo simples fato de temer o NÃO?

Independente de quantos anos de experiência você possui, sempre haverá situações em que terá que balançar a cabeça e falar um sonoro NÃO.

Pais são ensinados a nos dar NÃOS, porque sem eles, estaremos longe de sermos adultos preparados para uma vida recheada de negativas.

Crescemos levando NÃOS em casa, mas sabendo que sempre, de um jeito ou de outro, conseguiremos levar um SIM na base da insistência. É assim até hoje para alguns, mas felizmente ou infelizmente, apenas dentro de casa.

Com o pé na rua, aprendemos a levar NÃOS e a superá-los na marra (engole o choro menino!). Mas por que tarda tanto para entendermos que saber dar um NÃO é tão necessário quanto superá-lo?

Cansei de ver colegas de trabalho em situações de desespero porque o chefe direto havia pedido algo impossível, ou porque o CEO queria uma estratégia que levaria 2 intensos dias de trabalho em 1 hora. Alguém disse não? NÃO!

Esbaforidos em todos os casos que me veem à cabeça, a maioria saiu da sala de reunião exaltada, frustrada porque a apresentação não aconteceu como esperado. Oras, então porque não alinharam as expectativas do que poderia ter sido ser feito em 1 hora antes de se submeterem ao impossível?

Por que simplesmente tinham medo de dar um NÃO.

Se é difícil engolir um NÃO, dependendo da situação, é ainda mais difícil dar o NÃO. É preciso coragem, inteligência emocional, clareza sobre os fatos e uma pitada de “premunição lógica”, digamos, para antever as consequências do rápido e impensado SIM.

Inteligência emocional é um excelente antídoto para todas essas situações, e quando aplicada à experiência do dia a dia, o tornará um PHD em controle de situações adversas.

Grandes corporações — e acredite, eu já trabalhei com algumas e gosto de trabalhar para elas — normalmente tem longos processos.

O que comumente acontece, é que para conseguir endosso para um projeto inovador e sem precedentes, por exemplo, você deverá passar por incontáveis áreas. Escrutínio na certa — o que pode ser positivo. Se você souber entender o ritmo das coisas, poderá tirar algum proveito disso, como por exemplo, educar seus stakeholders sobre os motivos para tal implementação.

Ao estreitar relações e educá-los, você poderá conquistar advocates que certamente lhe ajudarão adiante.

Sinto um enorme desafio em ter que repensar todo o meu plano identificando modos singulares de apresentar a mesma ideia para diferentes públicos. É exaustivo, porém igualmente enriquecedor quando você se faz entender.

Provar por A mais B o ROI (Retorno sobre Investimento) é lei, claro. Porém, a grande questão acontece quando se trata de inovação, onde nem sempre você terá precedentes que poderão trazer avaliações concretas para cada métrica. Neste caso, estimativas coexistem com a incerteza pelo simples motivo de:

  1. Ninguém nunca ter feito o que você está propondo;
  2. Sua ideia é tão fora da caixa, que os poucos que fizeram algo similar, ainda não tiveram a possibilidade de concluir os pros e contras;
  3. Qualquer estimativa ou comparação com outras empresas não fará sentido algum e desvirtuará o potencial ROI para o seu caso.

É aí que a sua orquestração em falar NÃO para estimativas rasas atuam a seu favor. Quantas vezes você ouviu alguém sugerir para você aparecer com alguns números, caso o contrário, o projeto não seria aprovado?

[Escorre uma lágrima]

Imagine o impacto negativo na sua credibilidade caso, dois meses depois, as suas estimativas se provem completamente infundadas. Esse é o risco que se corre maquiando conclusões vazias. Uma hora o resultado aparece, e quem terá que responder a isso não é quem lhe pediu uma avaliação de última hora, mas você.

Nessas horas, nada mais honesto do que colocar os pingos nos “Is” e mostrar com claridade o potencial que pode haver (o que você sabe e o que enxerga em tal projeto), mas em hipótese alguma considerando números que não tem como prever.

Na Unilever (Reino Unido), o líder de Insights & Analytics se reporta diretamente para o CEO. Ele participa todas as reuniões estratégicas contribuindo para decisões baseadas em fatos, não em adivinhação. Nem toda empresa tem tal estrutura, mas você pode menos tentar evoluir numa postura avessa à adivinhações.

Empresas e líderes que despertaram para essa necessidade, tem conduzido planos piloto para entender algumas respostas como o estimado ROI. Os times tomam pequenos riscos, de baixo investimento inclusive, e aprendem com eles avaliando o real potencial que poderiam agregar ao seu negócio antes de avançar.

“A solução é se exercitar para expressar a linha de raciocínio que há por traz de uma negativa.”

Quando você apresenta o motivo, como por exemplo, o de estimar minuciosamente determinados fatores antes de uma primeira conclusão ou simplesmente o de começar a experimentar algo para sentir os primeiros resultados concretos, as pessoas entendem o valor do seu NÃO. Mas se nem você tem os seus argumentos definidos pra si, como irá prosseguir?

Mudança traz urgência, incerteza, e medo. Flexibilidade deve ser um mantra para qualquer um.

Pense em um grande líder. Alguém com o qual você já trabalhou diretamente e que fazia as coisas acontecerem de tal modo que era impossível deixar de admirar.

Provavelmente o líder que admira, é alguém que sabe gerir suas emoções e, provavelmente, um bom ouvinte. Ele sabe como parar e ouvir o que suas equipes estão dizendo e dedica algum tempo em como traduzir essas emoções para ações positivas e produtivas.

Ao mudar o “não sei sobre isso” para “eu entendo como você está sentindo…”, bons líderes se colocam em nosso lugar e produzem empatia nata.

Você pode ser o mais brilhante no que faz, mas se não for capaz de influenciar e ter a atitude certa principalmente na resolução de problemas, as pessoas não vão contar com você.

Dizer NÃO quando necessário é parte desse processo e os profissionais que estão conscientes de sua própria inteligência emocional, normalmente vão recebê-lo de modo positivo quando bem argumentado.

De maneira alguma o NÃO deve significar procrastinação, mas sim a ausência de recursos impensados apenas para atender a demandas de última hora (vide desespero). Se em muitos casos você não pode aparecer com um sonoro NÃO e se vê no limite de se submeter ao risco de aparecer com estimativas vazias, ao menos, tome fôlego e pense racionalmente no impacto do seu SIM.

Imagine os problemas que criaria para si e para o seu projeto ao apresentar algo na base do despreparo para o seu CEO.

Confesso que todas as vezes em que me vi respondendo a uma demanda inesperada e impossível, eu me coloquei com argumentos de como conseguiria alcançar o SIM que me era pedido. Os fatores ponderados eram desde tempo até o fator de risco por estar apresentando algo sem precedentes. Com as minhas opções para alcançar o tão esperado SIM, o meu NÃO foi acatado todas as vezes.

Assim como quando a sua mãe costumava lhe dar um NÃO em alto e bom som, e você com toda a resistência do mundo engolia por goela baixo os argumentos sem fim que ela tinha, devemos lidar com esse jogo de estica e puxa no trabalho.

Então por que tratar os projetos que colocamos tanto esforço com tal leviandade?

Espero dizer menos NÃOs do que SIMs na minha carreira. Se ainda assim eu te der um NÃO a qualquer hora, confie em mim, é porque estou me planejando para um SIM conciso.

Percebeu que eu usei a palavra NÃO inúmeras vezes neste post? Te incomodou ou te deixou mais familiar com o NÃO? Espero que a resposta seja opção B.

Que tal pararmos de profetizar coisas que não sabemos e começar a experimentar, provando o que de fato sabemos?

Dizer NÃO atrelado a um bom argumento é a chave para qualquer relacionamento bem sucedido no trabalho e na vida.

Fale NÃO para correr sempre atrás do melhor SIM!