IMPEACHMENT DO DESRESPEITO

Desde o ano passado, observo as discussões políticas na web e procuro ficar quieta para não dizer um monte de coisas das quais me arrependeria. Pois cansei. Assistir a essa discussão, e mesmo participar das poucas que me permiti, tem sido muito cansativo.
Não pela discussão, quem me conhece o mínimo sabe o quanto sou parceira para uma boa discussão. O que esgota é ver pessoas se dobrando e desdobrando pra explicar o que só faz — e só vai fazer — sentido para elas. Ver gente gritando cada vez mais alto os mesmos argumentos e achando que mudar o volume da gritaria fará outras pessoas se converterem. Até agora não vi um petista consciente aceitar o argumento de que a economia do Brasil foi sacrificada a partir do governo Lula. Pelo menos não vi aceitar esse argumento como o mais importante. Da mesma forma, ainda não vi um PSDBista aceitar que o governo Lula/Dilma foi melhor do que o governo FHC por ter investido em programas sociais, que não existiam. Pelo menos ainda não vi um tucano consciente aceitar esse argumento como o definitivo.
Sim, existem tanto petistas quanto tucanos conscientes, assim como existem pessoas que seguem a massa mais sedutora. Não quero falar do segundo grupo, porque daí todo meu esforço por não escrever algo de que me arrependesse iria por água abaixo. Vamos falar dos conscientes, daqueles que defendem X ou Y porque analisaram prós e contras sem preconceito e chegaram à conclusão de que o partido ou político tal é o melhor para a nação brasileira.
Mesmo estes não entram em acordo. Não entram porque não podem, são pessoas diferentes. (Que bom, pois não haveria justificativa para democracia se todos entendessem política — forçada ou voluntariamente — do mesmo modo.) O que nos falta, como defensores de uma ideologia, é entender que não somos iguais uns aos outros, que temos necessidades e valores distintos. Meu pai, por exemplo, teve uma péssima experiência no governo tucano, pois trabalhava em uma empresa de economia mista e, assim como os funcionários públicos, teve direitos suprimidos, ficando sem receber aumento salarial por anos — justo os anos que tinha uma filha para criar. Um tucano diria que isso foi necessário para que a economia se estabilizasse e, depois de um tempo, meu pai mesmo pudesse desfrutar dessa estabilidade com sua filha. Já um petista (como o era meu pai naquela época) diria que o bem-estar do povo no presente é o mais importante, afinal sem comida não há futuro, e que o governo teria de buscar outras maneiras para resolver o problema econômico sem prejudicar o trabalhador.
Ocorre que pela história de vida do meu pai e por valores intrínsecos a ele, a abordagem tucana nunca lhe fez sentido, ele acha mais importante que o trabalhador seja valorizado hoje. Mas um tucano consciente, também por seus valores e sua história de vida, preferiria abdicar de alguns anos de conforto para não ter o ônus de uma economia fracassada. Diria ainda que a fragilidade do setor econômico traria prejuízos inclusive aos mais pobres, pois com o tempo não haveria dinheiro para manter trabalhadores na ativa ou tantos programas sociais. Um petista terminaria perguntando, então, se vale prejudicar o povo durante um período para que o país cresça no futuro. E a resposta de cada partido seria óbvia.
Por causa dessa diferença de perspectiva, de entendimento do que é mais importante para a população e para si mesmo, temos as votações. E na última festa/funeral da democracia, a maioria dos brasileiros votou na presidente Dilma. A maioria do povo teve a mesma percepção de que, a despeito da tragédia econômica deste país, o governo petista tem feito um bom governo. Eu fui voto vencido, não fiquei feliz com o resultado das eleições. Aliás, fiquei irritada e sem esperança, porque meu entendimento é que o governo petista está acabando com o que resta do Brasil. Não estou aqui para dizer que tenho razão ou para defender argumentos que, a meu ver, são essenciais. Estou aqui apenas para lembrar a todos de uma coisa importantíssima, que parece ter sido esquecida: a maioria do povo quis a Dilma e o PT por mais quatro anos.
Por que temos tanta dificuldade em aceitar — isso vale para os dois lados — quando a maioria quer algo diferente do que eu quero? Por que a democracia perde sua premissa quando somos voto vencido por mais de doze anos? Estou ouvindo um tucano nervoso dizer que a corrupção alcançou níveis inaceitáveis e que um impeachment é a punição justa para um governo assim. Mas, sinceramente, a corrupção já estava patente antes das eleições. O mensalão é coisa antiga e até o escândalo da Petrobras veio à tona antes das eleições (ainda que com inexatidão de números). Mesmo sabendo de corrupção sobre corrupção, mesmo vendo a economia ser massacrada, petistas veem mais benefícios do que malefícios no governo Dilma e demonstraram isso em seus votos. Esses dias, li o seguinte cartaz: se você está reclamando do preço da gasolina, que bom, pois um tempo atrás o maior problema do Brasil era a fome. Algo assim. Foi certamente por isso que a pessoa que segurava o cartaz votou na Dilma. Como rebater ou concordar com um argumento desses sem tocar nos valores mais básicos e pessoais de petistas e não petistas?
Mesmo que eu não veja o governo atual como uma boa solução para o Brasil, gosto de fazer parte de uma democracia. E se a maioria do povo escolheu a Dilma, é correto (eu diria até necessário agora) que o povo tenha, pelos próximos anos (nem digo só quatro), as consequências daquilo que escolheu.
Cansa essa discussão toda, mas não acho que seja negativa em si mesma. Hoje política é assunto de todos. Se discute política muito mais do que há alguns anos e esse é o maior (posso dizer o único?) benefício da situação política atual para a nação. O que é inaceitável é o desrespeito para com os valores alheios, os argumentos baseados mais em adjetivos do que em substantivos e verbos.
Temos que evoluir como pessoas antes de nos manifestar como cidadãos. Quando soubermos compreender o outro e aceitar suas escolhas, mesmo que não sejam semelhantes às nossas, saberemos conversar racionalmente sobre política, religião, futebol ou qualquer outro assunto conflituoso. E, se o respeito for mais valorizado que a imposição de nossos valores, o país poderá crescer como unidade, ainda que com divergências.
Nesse dia, finalmente, as discussões serão bem menos exaustivas.