Azul e magenta

Fernanda Isla
Sep 6, 2018 · 22 min read

Eu tinha muitos e ineficientes mecanismos de proteção da minha autoestima em farelos. Um deles era reagir com sarcasmos a cada pequeno ou grande problema que surgisse, e nunca realmente fazer algo para resolver alguma coisa. Mas, pelo menos, com isso, eu conseguia ser a garota legal. Aquela que sempre ria, sempre uma boa companhia. Entretanto, eu acabava por ser um pouco burra demais para esse cargo. Eu nunca sabia quando estava sendo só uma garota legal ou quando estava parecendo que estava flertando com alguém. Na maioria das vezes, eu só aproveitava o momento, envergonhada demais com a situação para dizer que eu não estava realmente afim. A garota legal odeia dizer não para as pessoas, afinal, sua função é agradar.

Como eu disse, eu era provavelmente burra demais para ser a garota legal, porque rapidamente perdi esse posto. Mesmo na universidade, mesmo no curso de Artes, onde a maior raridade era ver um casal monogâmico ou juntar duas pessoas que já não tivessem se pegado, eu logrei ganhar o título de vadia, piranha, fácil, ou qualquer adjetivo semelhante.

Eu não tinha ideia de como uma má reputação totalmente injusta me destruiria. Eu passei a chorar frequentemente, apenas quando estava sozinha, é claro, e de repente, minhas feições mais sérias fizeram com que as pessoas não me achassem mais tão divertida assim. Não que eu fosse expressamente excluída, mas passou a ficar claro que eles sempre queriam tirar uma vantagem de mim, ou para me zoar, ou para fazer seu próprio test drive em Gabrielle Menezes.

De forma geral, apenas duas pessoas nunca mudaram o jeito como se comportavam comigo. Uma delas era Silvana, uma gaúcha com sotaque extremamente forte, olhos tão verdes que era difícil olhar pra eles por muito tempo, e um cabelo preto e cacheado acima dos ombros de dar inveja, principalmente porque eu sabia que ela não fazia absolutamente nada para mantê-los. Silvana era uma garota forte. Todo mundo parava pra ouvi-la falar. E tudo o que ela falava tinha uma base tão concreta que eu duvidava que alguma vez na vida ela estivesse errada sobre qualquer coisa. Aos poucos, Silvana se tornou minha melhor amiga, e foi em grande parte por causa dela que eu simplesmente não larguei a faculdade.

A outra era Elise Wolski. Elise era uma figura que não passaria despercebida aonde quer que fosse, nem se ela quisesse. Era uma das melhores alunas do curso, uma das poucas que você sabia que chegaria em algum lugar e não ficaria simplesmente segurando um diploma, desempregada. Ela não era brasileira, nascera na Aústria e se mudara para o Brasil ainda criança. Pelo que eu sabia, seus pais trabalhavam para o governo austríaco numa embaixada, mas eu não tinha muita certeza. Seu nome real era Elisk, e ela fizera questão de mudar para deixa-lo mais “brasileiro”. Eu sabia tudo isso sobre Elise não porque fôssemos próximas o suficiente para aquela garota fechada me contar sobre sua vida, mas porque todo mundo queria saber e falar sobre ela. Eu conhecia Elise antes mesmo de vê-la. Antes de, por pouco, não esbarrar nela quando passamos uma pela outra. Eu não consegui parar de olhá-la nem por um momento, desde quando a vi andar em minha direção até quando passou por mim. Ela realmente não parecia com nada que eu estava costumada a ver. Digo, os elementos de sua aparência, em separado, eram comuns. Mas todos eles somados, junto aos seus trejeitos, seu modo de andar e falar justificavam o porquê as pessoas serem tão curiosas sobre ela. Elise tinha o cabelo curto, pintado de azul, no mesmo tom de azul que seus olhos, intencionalmente ou não. Ela era tão branca que se eu tentasse ver todos os vasos sanguíneos dela, eu provavelmente conseguiria. Ela se vestia como se não desse a mínima para o que estava usando, e mesmo assim, conseguisse espontaneamente ser mais “fashionista” que eu, uma modelo, era. E Elise era alta. Porra, ela era alta pra caramba. Devia ter mais ou menos um metro e oitenta centímetros. Ela era um pouco forte, também. Pelo que eu sabia, ela era uma das alunas do krav magá ofertado pela universidade. Quando ela vinha em minha direção, não me olhou. Continuou fumando, sem mirar em nada além de sua frente. Mas quando ela passou por mim, eu automaticamente olhei para trás, e, nessa hora, ela estava olhando pra mim. Minha vergonha por ter sido pega em flagrante sucumbiu à lisonja de ser alvo de um olhar tão forte, um pouco curioso, quase como se estivesse me aprovando. E logo acabou. Ela sorriu levemente e voltou a olhar para a frente. E eu esporadicamente lembrava dessa garota aleatória, até saber que ela era a tal Elise, e também, para a minha infelicidade, que a garota que estava ao seu lado no dia em que primeiro a avistei era sua namorada. Um dos únicos casais monogâmicos do curso de Artes. Eu realmente era uma garota de sorte.

Bom, eu, na verdade, não honrava meu título de piranha, porque ao saber desse fato horroroso, passei a ser apenas cordial com Elise, mesmo quando, eventualmente, estávamos na mesma roda de conversa. Ela e Carla, sua namorada, formavam um casal do qual era impossível não gostar, o que me trazia muitos sentimentos conflitantes.

Elise era sempre muito legal comigo, e apesar de parecer fechada, aprendi que ela podia ser muito simpática com quem não achasse estúpido. E ela nunca, nunca tentava tirar qualquer vantagem de mim ou fazer algum tipo de comentário sem graça. Eu era uma garota normal na visão de Elise. Eu não tinha nenhum título, fosse qual fosse, estampado na minha testa.

Um dia, nós fomos as primeiras a terminar uma prova de história da arte na qual eu tinha certeza que me foderia muito. Entregamos os papéis à professora quase na mesma hora, e aproveitamos para sentar e conversar. Eu acho que acabei me descontrolando um pouco na dosagem de piadas autodepreciativas, porque Elise, depois de dar um sorriso fraco, afirmou que eu não estava bem. Ela sequer precisava perguntar. Era evidente.

“Gabrielle”, ela falou, e eu soube que estava por vir algum tipo de conselho que eu valoraria mais do que o necessário, “essa Universidade está cheia de gente estúpida. Eu não te conheço muito, mas já deu pra perceber que você é uma pessoa muito melhor do que aqueles com os quais se importa tanto” e então ela baixou a cabeça e riu “e se eu pegar algum desses merdas em ação, eu vou fazer o possível para que eles recebam um processo administrativo”.

Eu ri, e dessa vez não foi só para tornar o ambiente agradável. Eu sorri, apesar de estar triste. E então, Silvana chegou, reclamando sobre a prova e as perguntas que estavam, segundo ela, mal formuladas.

Ser uma modelo não era 30% tão glamouroso quanto parecia, especialmente quando sua mãe acreditava piamente que você poderia viver disso pelo resto da vida e você tinha plena consciência de que a beleza feminina tem prazo de validade. Não se passava uma semana sem que minha mãe perguntasse por que diabos eu estava cursando Artes Visuais. Afinal, minhas telas nem eram tão boas assim. Afinal, arte dificilmente dá algum dinheiro. E eu claramente tinha nascido apenas para que alguém tirasse fotos minhas, esse era o meu talento. Ficar tão inerte e parecer tanto quanto possível um objeto. Foi no meio de uma dessas discussões rotineiras, uma mais acalorada do que o normal — eu já estava prestes a mandar minha mãe ir pra puta que pariu — que Silvana me salvou mais uma vez, ligando pra mim no momento mais oportuno possível. Eu disse a minha mãe que precisava atender e fui direto pro meu quarto, o mais rápido que pude para não ouvir mais nenhuma de suas reclamações.

Silvana disse que havia essa nova garota, chamada Alice, uma caloura, que chegara de alguma cidade do Ceará cujo o nome eu não entendi. Silvana passou uns cinco minutos falando do quanto essa garota era legal e como era uma pena ela ser hétero — não que isso não pudesse mudar, ela acrescentou. “A gente ficou de mostrar a cidade pra ela hoje à tarde”, continuou, “Você tem que vir também, se a Elise furar vai ser muito constrangedor ficar sozinha com a Alice. Ah é…” eu pude ouvir uma risada dela, “A Elise vai, acho que esse é motivo o suficiente para você ir também”, outra risada. Eu revirei os olhos. “Às 15h, no parque. Por favor, não fure comigo, a Elise fura muito”.

E desligou, deixando claro que eu não merecia ter opinião sobre o assunto. Eu sabia que Elise e Carla tinham terminado há algumas semanas, mas para a morte da minha breve felicidade, logo chegaram os boatos de que elas ainda estavam se vendo. E o fato de eu continuar não querendo me envolver no romance mal resolvido de ninguém, somado à minha convicção de que, infelizmente, eu não passava de uma garota legal e provavelmente hétero para Elise, não me deixavam ter tantos planos para aquele encontro como Silvana estava supondo. Entretanto, também não passava pela minha cabeça recusar. Estaria com as melhores companhias, portanto, com certeza me divertiria. Até porque Silvana tinha conseguido me deixar curiosa sobre a tal Alice.

Joguei-me na cama, olhando as horas em meu celular. 13h05min. Eu ainda tinha muito tempo, que eu destinaria a fazer nada. A ansiedade, o enjoo que se formava em meu estômago, minha perna inquieta, minha respiração descompassada, não permitiriam que eu arranjasse uma ocupação até as 15h. Inevitavelmente, me lembrei de algo que acontecera uma semana atrás. No mesmo dia em que soube, tardiamente, do término de Elise e Carla.

Nós havíamos sido dispensadas mais cedo, pois a professora da última aula não pudera vir por causa de outro compromisso acadêmico. Eu tinha percebido que Elise não tinha ido sequer às primeiras aulas. Perguntei-me se ela ainda estava tão mal assim por causa da ex-namorada. Na minha cabeça nervosa, era a única explicação possível. Ou a única que eu tive tempo de formular até chegar no ateliê da faculdade. Seria bom aproveitar o tempo livre para treinar arte abstrata. Eu era simplesmente péssima nisso. Quando abri a porta, na exata linha da minha visão diagonal, estava Elise, sentada no chão, com uma tela grande à sua frente, combinando uma diversidade de tintas acrílicas diluídas. Era a técnica que ela usava em seus quadros abstratos, muito elogiados pelos professores. As tintas haviam tomado conta também de suas mãos, subindo até pelos braços. Sua camisa branca e sua calça larga marrom igualmente não puderam escapar dos tons de azul e magenta.

Antes que eu pudesse dar meia volta e fingir que nunca estivera ali, que foi o meu instinto — não soube exatamente o porquê, já que a timidez não costumava me afligir –, Elise me viu, voltou-se pra mim e abriu um sorriso, no qual se podia ver seus dentes tortos e amarelados pelo vício em nicotina. Pra mim, um sorriso tão charmoso que me deixava tão sem reação como um déjà-vu.

“Ah, Gabrielle! Por favor, eu gostaria de sua ilustre opinião sobre este pequeno desastre aqui” ela falou, franzindo o cenho ao olhar para a tela. Atrasada, sorri de volta e entrei de vez na sala, aproximando-me de sua criação, que espalhara tinta pelo chão à sua volta, também.

Para mim, era um quadro já finalizado. Eu não mudaria exatamente nada. Elise havia combinado de uma maneira incrível uma escala razoável de tons de azul com outra menor de rosa. Os fios de spray branco traziam caos para o que parecia uma melancolia quase inerte, resgatada por episódios de fúria. Os pedacinhos irregulares de folhas de ouro despejavam orgulho e teimosia naquela tempestade. Quando dei por mim, já tinha passado tempo demais divagando. Elise me olhava curiosa. Com uma cara de “você não precisa ter vergonha de dizer que está ruim”.

Eu sorri, um pouco emocionada com a profundidade que Elise conseguia passar mesmo com uma pintura abstrata. Ela era uma artista feroz, tudo que fazia, seu coração estava ali, em vísceras e sangue, à mostra pra qualquer um ver. Sem vergonhas, sem medos.

Então dei de ombros, soltando uma risada.

“Sabe o que é pior? Você realmente merece o título de aluna mais promissora da faculdade”, eu disse, com uma imitação ruim de frustração. “Se eu não estivesse na sua frente, talvez tivesse chorado com este quadro, então posso dizer que está bom”, acrescentei, com um pouco de ironia. Era estranho que Elise não tivesse total confiança no que fazia, e mais ainda, que viesse pedir opinião para mim. Eu tinha a impressão de que ela sabia o quanto era a mais talentosa daquela porcaria de lugar e não precisava de validação nenhuma.

“Ah, não” disse Elise, entrando no meu jogo de tragédia, levantando-se do chão e vindo parar ao meu lado. “Não se acanhe, pode chorar”, ela afirmou, com um sorriso deveras canalha, e ainda piscou um olho para mim.

Eu revirei os olhos e dei-lhe um leve empurrão no ombro. Elise riu.

“Por que não foi à aula hoje?” perguntei, porque puxar um assunto idiota era melhor do que deixar um silêncio constrangedor permanecer.

“Ah…” Começou ela, como se não soubesse bem como explicar, enquanto guardava seus materiais. Eu tinha muita preguiça de usar tinta diluída porque dava um trabalho enorme colocar tudo no lugar depois. E ela ainda teria que esperar por horas para que enxugasse. “Quando eu cheguei aqui, senti meu coração meio que pesar, e decidi que tinha que pintar. Acho que aproveitar o impulso é melhor que qualquer aula, não?”

Eu realmente não sabia. Os impulsos não me vinham assim, tão fortes, e eu precisava de cada aula que pudesse ter para ver se eu conseguia sair da mediocridade. Mas o que realmente me deixou calada por algum tempo foi, novamente, pensar nas razões pelas quais Elise supostamente estava mais melancólica que o comum. Antes que eu pudesse filtrar minhas palavras, meu estômago me fez cuspir: “Você está triste por causa da Carla?”

Elise obviamente não esperava por aquilo. Todo mundo sabia que ela não gostava muito de falar sobre qualquer aspecto de sua vida pessoal, então se poupavam de lhe perguntar sobre. Ela fitou o chão, ou seu quadro, e depois se voltou novamente para mim. Mas ela não estava mais no ateliê. Estava em alguma, ou algumas, de suas lembranças.

“Talvez eu seja um pouco fria, Gabrielle. Ou talvez o término de coisas importantes tenha se repetido tanto para mim que tenha se tornado banal. O que realmente me incomoda é perceber que a pessoa com quem eu compartilhei tantas coisas era só uma personagem, dentre muitas que aquela mulher desenvolveu. Você acha que conhece uma pessoa, mas só conhece um alter-ego dela”, Elise explica, com bem menos tristeza do que se esperaria. Não é uma lamentação, é uma constatação. Eu vi em sua expressão que Carla havia não causado dor, mas se esvaziado de significado. Carla não poderia causar a tempestade daquela tela.

“Então, vocês não estão mais se vendo?” eu perguntei, cada vez mais atrevida, cada vez abusando mais da sorte.

Elise deu uma risada, balançando a cabeça para os lados. Olhou pra mim daquele jeito que Elise olha, como se conseguisse ver para além da sua pele.

“Do jeito que você está falando, vou achar que está interessada. Cuidado, eu posso ser egocêntrica”.

“Nesse caso, não estaria mais do que certa”, eu respondi, apenas nos meus pensamentos. “Você não ouviu falar?”, digo, com um sorriso sarcástico, “Gabrielle Menezes é afim de todo o corpo estudantil das redondezas”.

Elise sorriu, quase que por educação. Olhou pra mim com um pouco de dó, desconstruindo toda a piada que eu fazia em cima da minha tragédia, até meu próprio sorriso desaparecer. Ela vem até mim novamente, com passos firmes, como se decidida a fazer algo de importante. Eu estava sentada num banco um pouco alto, meus pés mal tocavam o chão, pronta para começar minha pintura. Elise veio e se colocou entre as minhas pernas, se abaixando um pouco até nossos rostos ficarem na mesma altura. E ficamos nos olhando. Ela, com seu olhar tão misterioso quanto o de um felino, eu com meu coração querendo abrir espaço pela minha carne e ossos até se desprender do meu corpo, que o fazia pulsar num ritmo que era demais para ele. Eu não sabia o que aquele momento significava para Elise, mas sabia que ela estava agindo por puro impulso. Então ela fechou os olhos com força, como se estivesse penosamente desistindo de algo, e me deu um beijo. Na testa. O impacto de seus lábios em minha pele foi quente, pois inédito, mas também foi frio, pois frustrante. Azul e magenta, assim como seu quadro. Ela respirou fundo, segurou meu rosto delicadamente em suas mãos, voltando a me olhar determinadamente.

“Você me prometa que não vai deixar as besteiras que as pessoas dizem te ferirem mais do que ferem agora. Eu nunca vi uma pessoa como você, Gabrielle. Você é o ponto de iluminação nessa mesmice. Não há outra pessoa aqui que chegue perto disso”. Os olhos de Elise, tão próximos dos meus, começavam a ficar um pouco vermelhos. Vermelhos-fúria. Combinado com o brilho-selvagem de suas íris, formavam um arranjo perigoso e impossível de se desviar a atenção. Eu senti lágrimas muito bem formadas caírem pelo meu rosto com uma força de gravidade particular, e silenciosamente, firmei com ela a promessa. Elise sorriu fraquinho, e limpou minhas lágrimas com seus polegares sujos de tinta. Antes que eu pudesse pensar no que estava fazendo, eu peguei minhas coisas e saí da sala correndo. Precisava chorar todas as frustrações que eu tinha mantido debaixo de um sorriso simpático, porque Elise acabara de jogar na minha cara toda a farsa.

No carro de Silvana, nós fomos conduzidas pelos melhores pontos da cidade, que, para ser franca, não eram tão fantásticos assim, mas Alice parecia estar muito satisfeita. Ela era realmente bastante legal, embora muito tímida. Sua pele escura parecia ter um iluminador natural e seu cabelo em tranças era quase uma obra de arte por si só. Aos poucos, ela foi ficando mais à vontade com a gente. Já era tardinha quando resolvemos ir a um fast food da cidade que era parada obrigatória para qualquer universitário, tanto pela variedade e qualidade da comida quanto pelo preço justo, algo que era muito importante para nós.

O estilo meio vintage também era um ponto que chamava muita atenção da nossa culta geração. Havia até uma jukebox, a qual eu sempre fitava, mas nunca sequer chegara perto, porque não fazia ideia de como usar. Elise ia na frente, e nos conduziu para a mesa na qual ela sempre sentava. A última, perto da janela. Ela tirou sua jaqueta e se jogou no banco acolchoado em vermelho, dizendo que eles definitivamente tinham o melhor café da cidade, e que o único defeito era ser proibido fumar lá. Silvana prontamente se sentou ao lado de Alice, e eu, ao lado de Elise. Os bancos não eram muito compridos e Elise era um pouco espaçosa, e o contato físico que invariavelmente se formou não foi nem de longe desconfortável para mim, que, pelo contrário, ansiava por mais. Mas, de repente, eu não sabia muito bem o que fazer com as minhas mãos. Eu não podia ficar nervosa, porque, como eu raramente ficava nervosa, eu não sabia lidar muito bem com isso e uma voz contínua e alta o suficiente para incomodar começava a me dizer o quanto eu era estúpida. Me apressei em pedir um café, e Elise pediu outro. Silvana e Alice quiseram ver o cardápio.

“E então, Alice, o que achou da cidade?” Elise foi rápida em iniciar a conversa, parecia genuinamente animada. “Tinha algum lugar que vocês ainda não conheciam?” a pergunta, ao meu ver, era mais para Silvana e Alice, que vinham de longe.

“Sendo sincera? Era exatamente o que eu precisava numa cidade” o sorriso que Alice exibiu transmitia uma certa paz. “Vocês são ótimas tours, deveriam investir nisso” ela riu e apontou para nós com um canudo.

“Que bom que gostou, senão seria um problema”, continuou Silvana. “Eu, na verdade, sinto um pouco de saudade de casa, do que deixei para trás e tal. Mas não está sendo ruim, aqui”.

O meu café e o de Elise chegaram. Eu usei três saquinhos de açúcar. Ela só bebeu do jeito que lhe foi entregue.

“Eu gosto bastante daqui” Elise afirmou, olhando pela janela. “É bem melhor que o frio insuportável da Áustria, embora lá faça mais sentido usar jaquetas. As pessoas aqui no Brasil me fazem sentir mais confortável”.

“Eu entendo você… Eu acho o sul do Brasil frio o suficiente, imagina a Áustria ou… a Rússia. Eu nunca iria querer ter nascido da Rússia” Silvana balança a cabeça, finalmente fazendo seu pedido.

Algo sobre o que Silvana falou não me deixou ficar calada, e não era como se eu me esforçasse pra isso, de qualquer forma. Eu não podia não exibir o quanto fui doutrinada pela ideologia marxista, quando alguém falava da Rússia.

“Você jura? Eu amo a Rússia, pela história e como eles eram um nada, e agora têm uma importância inegável na política internacional, e todas as pessoas maravilhosas que viveram lá… Eu amaria conhecer a Rússia”. Tomei um gole do meu café bem açucarado, e como ninguém mais falou, eu continuei “Com a tensão política daquele lugar, eu também não iria querer morar lá atualmente, mas é tão engraçado como a mídia é tão parcial e nunca nos deixa saber a real verdade de qualquer país contra os interesses dos americanos… Mas do que estou querendo falar? A política daqui não anda sendo das melhores também…”. Eu falava tão rápido e tão empolgada que nem percebi que havia falado demais, e que, provavelmente, ninguém estava interessada e eu possivelmente fiquei parecendo algum cara chato tentando mostrar à força o quanto ele entendia sobre política. “Me desculpem por isso, foi meio automático”, eu ri, um pouco sem graça, cobrindo parte do meu rosto com a caneca de café, numa forma de me impedir de falar mais asneiras.

Elise olhou diretamente pra mim, e sorriu, bem aberto. Eu, desacostumada a ficar sem reação, fiquei simplesmente congelada. Eu só conseguia olhar de volta pra ela, em seus olhos azuis que se tornavam ainda mais densos com a luz batendo neles.

“Na verdade, foi interessante o que você disse, Gabrielle” a voz de Elise era grossa, quase como se ela estivesse eternamente rouca, e assim como Silvana, passava uma certeza praticamente incontestável. Eu não consegui fazer muito além de sorrir fracamente. “Eu concordo totalmente com você”. Elise era extremamente inteligente, e seus quadros tinham já certa fama pelo frequente teor político. Ela provavelmente saberia comentar de forma muito melhor a conjuntura política do mundo, já que ela realmente lia sobre aquilo. Mas preferiu ser breve, como sempre era. E continuei a olhar para ela, seus olhos, seu nariz com ponta quase quadrática, sua boca, seus lábios finos e corados. Ah não, olhar para a boca não é adequado nessas situações. Quando me dei por mim e voltei a perceber que Alice e Silvana estavam ali, já era tarde demais. O silêncio constrangedor já havia se instaurado.

“Política é foda” Silvana soltou, dando de ombros, e nós acabamos por rir. Ela sempre sabia como salvar um clima ruim ou estranho.

O olhar de Elise de repente se desviou de nós, e todo mundo percebeu porque sua expressão, de repente, tornou-se bem menos amigável. A nossa curiosidade foi maior que a discrição, de modo que até Silvana e Alice, de costas para o ponto de onde Elise não tirava os olhos, se viraram. Era Carla que entrava, com seu visual punk rock. É claro que as coisas precisavam se estragar em algum momento. Ela não olhou em nossa direção, foi diretamente ao bar e pediu alguma bebida, conversando animadamente com a balconista.

Eu sempre tive a impressão de que Carla não gostava muito de mim. Eu não podia culpa-la, porque era consciente de que não sabia muito esconder meus interesses. Mas eu não podia deixar que aquela saída tão legal acabasse num clima constrangedor. Eu não sabia se os boatos sobre Elise e Carla ainda estarem se vendo eram reais ou não, mas eu sabia que Elise não estava gostando nada daquela situação, e poderia vê-la indo embora em qualquer minuto próximo, deixando um clima que nem Silvana saberia como consertar.

E bom, eu era a garota legal, era meu papel não deixar coisas desse tipo acontecerem. Eu sorri, e apoiei minhas mãos na mesa, levantando-me.

“Sabem de uma coisa? Esse lugar já já vai ficar lotado e chato, e ainda tem muitos lugares importantes que a Alice precisa ver. Eu acho que os calouros não vão ao Ateliê de Artes da universidade. Lá é incrível e nesse horário nunca tem ninguém”.

Eu sabia que ninguém iria recusar o convite de uma Gabrielle tão empolgada, e as circunstâncias não tornavam isso muito difícil. As garotas de pronto concordaram que era uma boa ideia. Pagamos a conta, tendo tempo para ver Carla sair. Pelo vidro, entretanto, dava para ver que ela ainda estava do lado de fora, com uma bebida em embalagem descartável e um cigarro. Elise novamente estava na frente, e passou por ela sem sequer olhá-la. Silvana a cumprimentou, e a mim foi dispensado apenas um risinho de nojo. O suficiente para matar o meu clima.

O trajeto até a universidade só não se deu em total silêncio devido ao som do carro de Silvana, e sua péssima voz que tentava cantar no ritmo da música. Elise e eu estávamos no banco de trás, cada uma muito ocupada em olhar pela sua janela.

Felizmente, não nos tomou mais que vinte minutos para chegar. Ao entrar no lugar, a energia de Elise pareceu mudar radicalmente, e muito animada, começou a colocar uma tela num cavalete e ajustá-lo, como se fosse começar um trabalho ali mesmo. Eu me senti entusiasmada para pintar também, embora ficasse um pouco envergonhada de fazer algo com uma “plateia”.

“Vocês vão me desculpando, mas eu não consigo trabalhar em ambientes institucionais. Muito opressor”, Silvana disse, claramente tentando me imitar e zombar de meus posicionamentos. Fiz menção de jogar um pincel grosso nela, e ela riu.

“Eu acho que vou ficar só assistindo também” completou Alice. “Aliás, aproveito e vejo exatamente quais os materiais que estão disponíveis e quais eu vou precisar trazer”.

“Droga, aqui não tem cerdas sintéticas brancas” Elise reclamou, referindo-se aos pinceis. Eu costumava usar aquele tipo de pincel para minhas aquarelas, algo que fazia esporadicamente, então sempre tinha um conjunto deles na minha bolsa gigante. Eu o tirei de lá e os estendi para Elise, sorrindo e piscando um olho.

“Ah, não, caramba, vocês usam até esse mesmo tipo de cerda ridículo. Eu desisto, vocês foram feitas uma para a outra” Silvana disse, erguendo as mãos e revirando os olhos. Eu sabia que ela era um tanto quanto impaciente em relação a Elise e eu. Digamos que de acordo com os princípios dela, era super normal e adequado dar em cima de uma garota que acabara de terminar um namoro e que talvez ainda fosse reatar. E eu é que ganhei má fama.

Nesse momento, eu passava o conjunto para as mãos de Elise, e ela pareceu ficar um pouco nervosa com o comentário da minha amiga, o que se evidenciou quando ela deixou os pinceis caírem. “Desculpa”, falou, forçando um sorriso, e se apressou para pegar os pincéis.

Depois disso, eu resolvi finalmente iniciar a pintura. Foi se formando um céu estrelado, com ventos fortes pairando. No canto esquerdo, comecei a desenhar um farol. Mas o foco era a garota bem no meio do quadro, de costas, a contemplar o nada em particular. Seus cabelos azuis se misturavam com o azul do céu, num ponto que mal dava para distinguir quando um terminava e o outro começava. De alguma forma, era como se ela fosse só mais uma das estrelas naquele céu, mas o que a tornava especial era que ela não se reconhecia como uma.

Eu parei, ainda com a tela inacabada. Meu braço estava cansado. Eu simplesmente adorava pintar. Mais do que qualquer coisa.

“Nós somos tão estúpidos por achar que precisamos de mais do que isso. De um deus, ou sei lá o que seja. Arte é nossa representação. É a coisa mais transcendental que eu posso imaginar”.

De novo, eu não sei porque realmente chegava a falar essas coisas, e de novo, Elise pareceu ser a única que não me achou uma delirante tediosa. Ela também parou. Sua tela era menor que a minha, e ela aparentemente tinha acabado.

“Nós não fomos feitos para nada. Nada em específico. Nenhum destino pra nós. Uma vez que se compreende isso, só resta buscar algo que arremede um sentido para a existência, que na verdade, nunca será concreto. Pra mim, isso é a arte” Elise falou, sem tirar os olhos de sua própria tela, sem se importar se Silvana e Alice iriam acabar por nos zombar e dizer que havíamos nos chapado mais que elas. De repente, ela saiu da frente do quadro, mostrando-o a todas. “Um prêmio pra quem adivinhar a inspiração”, sorriu torto, olhando para as meninas, e então, para mim.

Era uma mulher. O fundo da pintura era o cosmos, quase todo preto, com algumas estrelas e conjuntos de estrelas em combinações de cores incríveis, numa técnica precisa. A mulher, que tomava quase toda a tela, também tinha uma pele cósmica. Azuis, violetas e verdes se misturavam numa harmonia que poderia me prender por horas. O ponto mais quente da tela, entretanto, eram os cabelos da mulher, que pareciam representar o próprio sol. Cabelos alaranjados, como os meus. Elise era boa demais para que não fosse perceptível que todos os outros traços da mulher pintada eram meus também.

Silvana se levantou, fingiu analisar de perto o quadro de Elise, depois olhou para mim, e novamente para o quadro.

“Eu tenho um leve palpite”, disse, entre um suspiro, e prontamente pega sua bolsa, me olhando com uma cara de “eu não aguento ficar aqui mais nem um segundo”. “Acho que vou pro bar que abriu ontem, me falaram bem de lá. Ali, você me acompanha?”. Eu não posso culpar Alice por ter praticamente corrido atrás de Silvana. Eu teria feito o mesmo. E eu fiquei feliz pela minha amiga, porque, por algum motivo, durante aquele passeio, era notável um aumento nos contatos físicos entre as duas, de modo que, na saída, Alice passou seu braço pelo de Silvana, sorrindo para ela a uma distância não muito heterossexual.

Naquele mesmo momento em que a porta se bateu, o som que ecoou foi a única coisa que preencheu a sala, diante de nossas respirações presas. Elise então soltou uma risada baixa, pelo canto da boca, sem graça, com a cabeça meio abaixada, para depois olhar para mim. Ali eu pude ver tudo. O cansaço pelo desgaste da sua relação com Carla, mesclado com seu interesse por mim. Sim, eu pude ver tão claramente e tão enorme foi minha surpresa ao ter a certeza de que Elise sentia uma atração por mim, a qual tinha a pegado de surpresa, à contragosto. Seu plano era ficar como a tinta diluída, esperando por um longo tempo quase imóvel, até secar. E lá estava eu, obrigando-a a se mover. Mas ela não precisava fazer tudo. Eu também tinha meus próprios contragostos. Ter um sentimento tão genuíno, não pautado na superficialidade, não era algo que eu estava acostumada a ter, no campo amoroso. Junto com Elise, eu estava aprendendo a lidar com a situação. Meu peito se encheu com a determinação que, não, Gabrielle, pelo menos dessa vez você não pode estragar tudo com uma piada quase sem graça. Elise era alguém que merecia mais de mim do que minha zona de conforto.

Com uma coragem tão urgente quanto a fúria, andei até Elise e a abracei, assim mesmo, nós duas com mãos sujas de tinta. Nós duas, com aquele sentimento entre nossos dedos clamando para que fizéssemos algo com ele. Eu senti todo o corpo de Elise, seu coração pulsando desajeitado e veloz, até que ela se entregou e repousou a cabeça em meu ombro.

“Você é minha transcendentalidade há mais tempo do que imagina, Gabrielle”, Elise me confessou, com sua boca tão perto do meu ouvido. Meus olhos arderam, expulsando lágrimas que eu havia andado prendendo em meu peito. Eu era singular para alguém. Eu era singular para Elise.

Afastei-me dela só o suficiente para olhar para seu rosto. Azul tinha se tornado uma cor muito mais interessante a partir do momento que eu primeiro a vi. Eu sorri, tão feliz que parecia que meus sentimentos iam escapulir de mim a qualquer momento e se transformariam numa aquarela em pleno ar.

Eu não tinha palavras bonitas como as de Elise para dizer tudo o que eu sentia numa só frase. Preferi, então, optar por uma tela abstrata, que eu fiz com minhas próprias mãos, em seus olhos, seu cabelo, sua boca. Enquanto isso, ela podia ver um sorriso tão sincero que provavelmente seus similares estavam documentados apenas nos álbuns da minha infância. Minhas mãos paralisaram cada uma em uma bochecha de Elise, me dando um claro recado do que todo o meu corpo queria fazer.

Ali, naquele Ateliê de Artes, Elise e eu nos diluímos uma na outra. Duas cores improváveis, azul e magenta, encontrando-se e intercalando-se como se há muito tivessem desejado apenas correr uma para a outra.

Fernanda Isla

Written by

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade