A água não é líquida

Ele estava lá, mas eu não era o brilho dos seus olhos escuros. Sequer me viu. Permaneci aguardando, com uma paciência que acelerava o peito tão mais quanto queimava o estômago. Já confundo palavras. Eu tinha uma dedicação plena a ele e ele já não me via no dia seguinte. Pedia-me que o esperasse no dia anterior.

Prometi a mim mesma que escreveria sempre e nada falaria a ele. No fundo, ele sabe o que faz e eu também. Relógios de ponteiros tortos só se consertam com a delicadeza e a calma do martelinho leve do amor. No entanto, quando é desamassado só de um lado, o veneno do desdém e da tristeza entranham e ressecam a linda flor do encantamento.

Se ele soubesse o quanto preciso, por anos no escuro, ser vista… Apenas por ele, ninguém mais. Quando não me vê, me lanço a diversos olhares e me perco até de mim mesma. Daí, volto a mim com certa ira por tê-lo permitido me tirar de mim mesma por e para nada.

Ele me convence que um terceiro elemento é a saúde mental que me falta. Eu me convenço sobre elementos outros. Ele falou demais e eu pensei mais um tanto. Mas eu não sei me dar a mais do que dois olhos negros. Sendo o foco o multifoco, já não sei quem sou em meio a tanta liquidez e tanta falta d’água.


Bauman fala sobre amores líquidos, vazios e sem compromisso, e a astrologia diz que a água é a profundidade dos sentimentos. Irônico, eu diria.

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