A culpa da mulher autônoma

Liberdade. Leveza. Domínio de si. Autonomia. Estão aí palavras que traduzem uma sensação titubeante e recorrente. Eu não sei o que significam a cada um; a mim, angústia. Talvez culpa, possivelmente, conflito. O que significam a ela?

No encontro com o outro ela se perde. Seu balanço, seu gingado, seu molejo, algum tipo de sorriso frouxo e uma felicidade de dentro se perdem. Há ali uma perda. Por que permitimos que algum ser externo possa nos trazer sorrisos? Não deveriam vir apenas de nós?

Eu entendo que trabalhar me deixe imensa e euforicamente feliz, sendo eu workaholic. Entendo ficar triste quando perco um contrato, uma pessoa querida, um ligamento rompido ou 1m de cabelo. Por isto, eu a entendo. Cada um na sua proporção de tristeza, mas entendo.

Partindo deste pensamento, não haveria lógica a felicidade não vir apenas de nós, entende?! Hoje não estou sabendo me explicar. Aquela mensagem que não chegou, o encontro não marcado, a voz não ouvida, o subjuntivo repetido mais vezes do que se espera. Estratégias suaves e bem elaboradas de recusa. Ele riu, de tamanha inteligência emocional.

Por que uma recusa simples a um convite informal se torna a nuvem carregada dos nossos dias? Por que nós, brasileiros, associamos uma recusa a um convite como uma recusa a nós? “Por que pesquisa tanto sobre recusas e tenta desvendá-las”, questionou ela.

Eu parei, pensei — quando penso, olho para a direita, para baixo e parece que estou mentindo, mas sou ambidestra — e me dei conta de que eu recuso com tamanho remorso da dor futura do outro que tento minimizar o impacto. Sendo eu empática demais, defendo o outro do meu não, da minha recusa, do meu abandono.

Pessoas doadoras e empáticas estão à mercê de um par, podendo ele ser manipulador ou também doador. Pessoas doadoras são raras como doce de leite de Viçosa no Rio de Janeiro a preço justo. Caso o outro seja manipulador, sofrerei os diabos até conseguir me resgatar. No caminho, já me perdi de mim. Minha autonomia interna estava sob o julgo de outrem.

Vamos contar com a sorte? Eu disse a ele que me doava e me perdia — meu maior medo. Daí, eu esperava que ele também se doasse. Doadores empáticos não manipulam e eu estaria salva, ele não me tomaria de mim. Eles sempre me sequestram de mim, procuro-me por horas, dias, semanas. Quando me acho, já estou em pedaços.

O maior pavor de uma mulher forte e livre é perder sua liberdade interna, é ter que lidar com a demanda interna do outro que não cabe a ela. O medo de ter que suprir a expectativa que você supõe que o outro tenha sobre você é constante. Perda. Medo. Liberdade. Pavor.

“Não toque nas minhas horas”, disse eu antes de ir embora, deixando apenas uma foto desfocada dentro de uma agenda antiga. Eu o abandonei antes que eu me abandonasse me mim, órfã de mim e das minhas necessidades de liberdade. Olhar para dentro, prestar atenção no barulho interno, me apaixonar pela mulher que eles despertam. Tão egóico a olhos outros. Tão leoa trazendo a caça — ela tão livre — para cumprir com o papel que se espera dela. Posição tão ímpar diante de Chronos, Hermes e Serket.

Ela apenas ama quem a aceita e traz sol. Quando nota que o silêncio da outro tem o poder de trazer chuva, ela fingi preteri-lo por si e segue. De nada adianta um sol que não pode se abrir. Ela é carioca e aqui quase sempre há sol — não temos estações marcadas, apenas sol. Não sabe como conseguem viver os londrinos, já que o cinza apenas é. O sol deve vir dela, precisa ser seu próprio sol. Quando nota sua falta de autonomia, sua perda de liberdade interna, ela pondera séria, escreve para racionalizar e decide.

Sempre em textos longos se despede, pois não sabe ir embora calada. Ela não consegue lidar com a ideia de abandonar alguém. Quando se perdeu dos pais tão pequena, 42 dias perdida, deve ter jurado a si nunca abandonar alguém. Hoje ela vive entre a felicidade de ser seu próprio norte e a culpa de abandonar quem tenta domar sua sorte.

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