Luva rosa em unha feita

(Espelhos)

Quando dois seres de fogo se entregam é bonito de ver. Mesmo que tenham restrições do passado ou do futuro, eles se entregam até quando tentam dizer não. Isto já é muito mais do que qualquer outro ser de qualquer elemento. Simplesmente se entregam.

Difícil encontrar seres de entrega e doação hoje em dia. Seres de fogo, quando não autocentrados, lançam fagulha em gasolina e abrem o sorriso mais gostoso e entregue na hora da explosão. Desta vez, ele explodiu comigo e pulsamos juntos. Ele me chamou de “bruta”. Eu sorri e entendi que se referia a um diamante bruto, a uma mulher selvagem, a uma chama in natura. Ele me lê.

Minhas proteções rosadas não passam de delicadeza e encantamento. Ele diz que tenho um potencial imenso e muito medo. A forma como me lê, desde tão cedo, me assusta e encanta. Eu, sentada em piso quente, flamejo em rosa à espera de quem segura o meu rosto com as duas mãos, mãos grandes.

Hoje, pela manhã, achei que ele quisesse ir embora e reli as letras que poderiam cortar meu peito. Depois, notei que queria ficar e chorei. Não por tristeza. A tristeza de antes me deixou em choque. Eu chorei por sentir aquela entrega titubeante pulsar nas palavras dele e eu conseguia até ouvir sua voz me chamando daquele apelido só nosso.

Nessa quase despedida, ele se mostrou mais do que em suas vindas de rastros de peças da porta ao tapete. Ele diz que eu não o permito chegar. Permito da forma apropriada. Para que uma armadura se o peito e o colo o aguardam com tamanha intensidade e entrega?

Somos seres de entrega, nos doamos. Bradamos egoísmo por medo. Ele disse que era egoista e eu o admirei por isso. Também quero ser. Visto luvas apoiadas em ícone, tranço os cabelos e, ao vestir-me rosada, digo que sou o perigo perfeito. Ele diz que tem medo do quanto carinhosa eu sou e que eu ainda vou soltar o meu leão. Das minhas luvas de boxe, ele só vai sentir a maciez sempre. Somos seres de entrega, doação e medo. Espelhos. Falta o tempo ser bondoso conosco.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Fernanda La Ruina’s story.