Todos os defeitos dele

Somos todos feitos de descargas hormonais, vozes doces e sorrisos. O que há de melhor não se escreve, apenas transborda num som alto que ele pensou que fosse dor. Nunca seria. Cartas claras de um encaixe perfeito não doem. Ele é a força e o cuidado construídos em lindos ombros largos e bem desenhados. Acabo de sorrir ao reler “bem desenhado”. Bem, voltando, tão claro quanto seus olhos, nunca me machucaria.
É irônico a incrível timidez que temos. Eu acho que finjo melhor do que ele. Quando falo, falo, falo estou tentando confundir pelo excesso quem me intimida da melhor forma. Ele evita os meus olhos quando vestido e eu não quero evitar os dele quando despida. Nós nos buscamos e perdemos no espelho. Falamos muito, nos tocamos em pele e olhares, aquecemos nossas vontades e desejos por horas e horas seguidas. Não nos damos conta. Chronus se perde em nós.
Queremos mais. Não nos contentamos com duas ou quatro horas de luz baixa. Eu vou e ele me recebe em seu leito. Ele vem e me entorpece no meu. Sempre esquecemos algo que nos lembre de voltar depois. Eu preciso me conectar a ele para fluir, deixando sempre espaço seguro para manter o acordo. “Eu tenho medo”, disse eu. Ele disse “eu entendo”. “Sem expectativas”, nós dissemos. “Eu entendo”, dissemos um ao outro.
Eu pedi a ele que me desse algum defeito, já que ainda não encontrei nenhum. Eu disse que precisava de um ponto negativo para me ancorar quando eu quisesse mais do que deveria ou precisasse esquecê-lo. Tenho medo de me perder de mim. Ele disse que tem vários, mas continuou sem me mostrar nenhum. Quando o desejo, o carinho e o cuidado se esbarram com o medo, vivemos sem expectativa para que a frustração não caia sobre nós. É apenas medo.
Seguimos soltos. Estar solta sempre me causou uma inquietação, porém, desta vez, o “solto” quer dizer livre e não “abandonado”. É a minha escolha, nossa escolha, nosso respeito sobre a escolha do outro. Estamos livres a encontrar o inesperado – ele e eu. Admito que me acalma ouvir a palavra livre próxima de “sábado a noite é nossa”.
Ele usa frases que me aquietam e suas ações me arrancam sorrisos inoportunos. Fiz para nós uma caixa delicada com o que não pertence a mais ninguém. A ele tenho vontade de escrever cartões e bilhetes físicos, palpáveis, “sentíveis”. Ao invés disto, escrevo textos longos virtuais e ele me lê. Admite que parte dele se orgulha, enaltece e relê algumas vezes. Uma outra, feita de timidez ou falta de jeito, não sabe como agir. Ainda assim, age da melhor e mais encantadora forma sempre.
Eu gostaria que ele não encontrasse um sorriso mais belo do que o meu no caminho. É verdade, eu admito, sendo o destino quem escolhe e não eu. Admito também que, desde que suas palavras me encantaram, não tive encanto para nenhum outro. Já não há ouvidos ou olhos a nenhum outro. O corpo se fecha e se guarda ao cavalheiro que desperta o meu melhor enquanto segura meu sobretudo. Perigoso? Tão perigoso quanto sentir a pele sem barreiras. Ele concordou comigo. Eu pedi, mas ele não me deu defeitos.