Plural, singular, coleira e tapete

Primeiro eles vêm, cheios de incerteza. Mesmo que tenham defeitos claramente vistos por nós, nosso encantamento nos faz aceitar aquele ser errôneo e imperfeito como a melhor coisa que poderia ter acontecido. A melhor coisa deve ser falada no singular.

Os minutos e horas parecem meses sem ele e sem o responder dele. Sentimos tanta falta que já passamos por dor de abstinência da droga do amor. Por que nós estamos no plural e ele no singular? Porque eles são o padrão e nós, um coletivo de citações partidas.

Quando ele sentiu medo, não me disse. Na verdade, ele me chamou de “pesada” e disse “acho melhor nos vermos com menos frequência”. Por que ele fez isso a quem era só dedicação? Provavelmente, porque ele não era singular naquele momento. Nunca me disse.

Mas ele voltou. Eles, no plural mesmo, sempre voltam. Já seríamos nós as mesmas? Já não nos tivemos que adaptar a um eu frio, que por ser plural de outra acabou sendo afixo ou desinência número pessoal e que de nós nem queria o inteiro?

Hoje, ele, que se contentava com metade, quer o inteiro. Não há problema. Ele está pronto a se dar por inteiro ou só a cobrar, por fetiche ou proibição? Hoje, por um misto de ciúmes, cuidado, dominação e zelo, ele me pesa. Ama-me e pesa-me, eu, tão leve.

Agora, depois de perder quem amava a outro que sequer amava, teme. Contudo, eu sou mulher dona de mim que não desvia a conduta, mesmo sem supervisão. Sou, no singular, a minha própria ética, mais coerente que a ética vigente. Eu sou aquela que espera a confiança como prova de amor, mesmo que haja ciúmes.

Sempre, eles, todos eles, deveriam ter medo quando me enfezo, o saco enche, e meto o pé na porta. Não costumo tolerar coleiras quando ainda não me deram tapete e coberta. Para tudo há seu tempo. Não sou boa em transições suaves. Eu deixo para ver até onde suporto. Quando dói demais, eu meto o pé na porta e não volto mais.

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