Surtos de esquizofrenia amorosa

Eu não tiro fotos e os inventei todos

Ele não notou, mas eu não tiro fotos. Não há registros de nós. Se expectativas eu tivesse, além das reais e tão claras de um olhar encantadoramente verdadeiro e azul, eu tiraria fotos de cada minuto nosso para que, quando a expectativa se realizasse, eu tivesse registros de nós. Eu não tiro fotos.

Cada vez em que mergulho naquele mar azul esverdeado é a última. Sempre tenho em mim que não nos veremos mais e por isso, talvez, seja tão imenso, intenso, encaixado. Ele me olha com um sorriso de “a gente vai se falando” e não percebe que meu peito diz adeus baixinho a cada conversa. Manter-me perto é a minha forma de não me afastar cedo demais.

Nos meus olhos de rocha avermelhada há uma incredulidade quanto ao tempo, a nós, ao desejo. Sempre me vi imensidão contida e transbordar também é temer – e errar. Sorrio com sábios lábios solícitos e minhas rochas avermelhadas dizem adeus desde a primeira vez. Esta já é a terceira.

Eu não crio expectativas; crio encantamento, magia, tesão. Crio tudo o que deve ser criado, reproduzido, multiplicado, não o que deve ser de alguma forma esquecido. Quando eu não tiro fotos eu digo a ele que esperanças não tenho, tenho vivências. Na verdade, digo a mim. Vivo como se a morte me aguardasse ao dobrar da esquina, mesmo sendo eu um touro de forte.

Gostaria de tirar fotos?

Seria algo doce a ser esquecido depois. Se, por sorte, existissem imagens de nós do hoje para serem lembradas seria encantador. Mas eu não tiro fotos de nós, não há marcas de nós, não há rastros de nós a não ser as marcas e rastros etéreos que nós mantivemos e mantemos com nosso desejo de estar juntos numa manhã preguiçosa.

Sei que podemos nos perder em outros, por consequência, de nós. Entendo que estar livre é contar com encontros perfeitos nossos e errantes alheios ou o outro se vai. Nossa liberdade gera um preço e pode ser alto: podemos nos perder pela pressão e obrigatoriedade de estar livre. Já vi este filme, cujo ator chorou diante da mocinha e não a esqueceu até dias atrás – e também não tirei fotos.

⁃ Sabe aquele que amei?
⁃ Qual?
⁃ Aquele a quem chamei de escorpião… Acho que seus olhos eram verdes. A única foto que tínhamos ele apagou. Hoje, mal me lembro do rosto dele.
⁃ Você chama todos de escorpião, leoa! Deve ser um dos seus devaneios de paixão, parte da sua esquizofrenia amorosa.
⁃ Talvez eu busque escorpiões por saber que eles não permaneçam.

Eu não tiro fotos de nós porque eu não quero ter que apagar, não quero ter que esquecer, não quero ter algo sobre o qual chorar. No final de tudo, eu me esqueço dos rostos dos meus encantamentos, apelido-os com seu sol e acredito que foram apenas um surto de esquizofrenia amorosa, por mais especiais que tenham sido. “Eu os inventei todos”, repito.

Eu não tiro fotos porque preciso deixar a minha mente confusa a ponto de não ter a capacidade de afirmar se era real, se me encantei, se amei, se tive expectativas. Eu não tiro fotos e só tiraria alguma quando algo de fato mostrasse em mim que o registro valeria o medo. Não me exponho por dentro, vivo sem rastros, marcações ou check in. Digo que estou quando já saí e que vou sem anotar.

E se ele quisesse tirar fotos? E se ele criasse expectativas? E se ele pedisse para tê-la para si?

Bom, se eu entrar no campo do SE – um futuro improvável e hipotético feito para, com o perdão do pleonasmo, sonhadores e piscianos – viverei à mercê da decisão do outro, à espera da escolha dele, e isso sim me causa uma agonia imensa. Eu não tiro fotos.