A arte de sofrer

Ilustração de Daehyun Kim

Estive pensando que a ansiedade é como uma fome de não sei o quê. Quando você abre a geladeira, os armários e nada parece ser o desejo da sua fome. Você procura, vasculha, imagina, mas não há nada que possa parecer tão apetitoso quanto na sua imaginação. Você não sabe o que quer, não sabe direito qual comida é. Se é doce ou salgado, ou se poderia ser amargo. Nada é suficiente. Aí parece que a fome aumenta, mas você não consegue imaginar nenhuma solução. Enquanto isso, existe uma decisão a ser tomada: você pode comer algo a contragosto, pensando que está saciando a fome e enganando a si mesmo, ou pode apenas desistir de comer e esperar a vontade passar. A fome nunca passa.

Esse parágrafo provavelmente não tem nada a ver com o parágrafo acima ou qualquer coisa que eu tenha falado antes, mas os meus pensamentos também não existem em ordem cronológica e nem esperam que eu desenrole um raciocínio lógico que mantenha as ideias coesas, elas se sobrepõem e se atropelam. Há um grito desesperado ecoando como plano de fundo enquanto o caos parece ter decidido que o seu epicentro poderia muito bem ser a minha mente.

“Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada”

Não há nada a ser feito e não há nada a se fazer.

A diferença entre eu e Fernando Pessoa é que não tenho em mim nenhum sonho no mundo.

Afinal, para que servem os sonhos? Dentro de alguns bilhões de anos nosso sol irá se transformar numa bola de fogo gigante e vermelha e vai explodir. Toda a nossa civilização, tecnologia, ganancia e bondade vão cair no esquecimento da eternidade do universo –os físicos que me perdoem a expressão. Não há nada que possamos fazer a não ser esperar nosso trágico destino.

Nossos olhos hipócritas condenando o jardim das delícias terrenas estarão velados para todo o sempre, amém. Que o deus Pan me perdoe, mas hoje o sol não brilhou e sou eu quem dançará com as ninfas.

Dias-e-Pan. Ambos (re)existem na minha cabeça.

Enquanto isso Carl Sagan perguntava se é mais assustador estarmos ou não sozinhos no universo, posso afirmar que, ao menos na terra, estamos todos sozinhos. Every living person on earth dies alone, disse a velha.

A punição de Eva ao comer do fruto proibido não foi a morte, mas a consciência. Para quem acredita em algum deus deve ser mais fácil de entender e se manter são: há um objetivo em tudo. Enganam-se. Não há objetivo, não há nada. É só escuro, escuro, escuro, vazio.

Não há nada que preencha, nada que satisfaça, nada que minimamente crie uma certeza de que valha a pena viver. Viver para que, se o fim é a morte? Amar, cuidar, respeitar, fazer do mundo um lugar melhor enquanto milhares de sinapses e reações químicas acontecem no seu cérebro e seu coração bombeia sangue e oxigênio em seu corpo vivo, uma estrela morre. Agora mesmo morreu outra também. Um buraco negro se formou. Existem multiversos? Há alguma singularidade ocorrendo agora em alguma brecha do tempo-espaço? Qual o sentido nisso tudo? O governo conspira e alguns negros morrem, nada novo sob o sol.

Quando criança disseram que eu seria um prodígio. Grande orgulho da família, ainda bem que gosta de ler. Um exemplo no colégio, boletim impecável mesmo com as marcas vermelhas das boladas recebidas na aula de educação física. Pobre Olívia Palito, mal sabia seu destino. Guardei no peito todos os nomes ruins assim como Arya, mas não me vinguei de nenhum. Acredito em karma.

Gostava muito de ler a história dos 7 corvos, lembro especialmente da parte em que a lua queria comer a menina e ela fugiu. Quantas luas já quiseram comer da minha carne? Nesse quesito eu provavelmente seria Júpiter.

O peso somado das coisas leves equivale a uma tonelada e meia de chumbo fundido. O eterno retorno não sai da cabeça de Olívia. Que castigo horrível!

Não há mais nada a ser dito aqui agora, mas com certeza haverá muito mais quando for mais tarde — e aí já será tarde demais para estar aqui.