
Laura e Vicente
Vicente,
Já te disse isso inúmeras vezes: adoro seu nome, por isso mesmo, nunca te apelidei. Gosto de dizê-lo, é forte, mas é doce, como você. V-i-c-e-n-t-e.
Nunca saio a mesma depois dos nossos encontros. Olho ao meu redor e também não acho que as coisas ocupam os mesmos lugares. Quando você vem, reordeno meu mundo. Quando vai, repito, dias a fio, o álbum Blue, da Joni Mitchell, que você me deu naquele Natal na fazenda do seu avô, lembra? A inesquecível Case Of You toca repetidas vezes até quase, em súplica, pedir para dar espaço às outras canções.
“Oh, i could drink a case of you, darling. And i would still be on my feet. Oh, i would still be on my feet”.
Queria estar aí para comemorar sua promoção/remoção com nossos amigos queridos naquele seu restaurante preferido, que chamamos o garçom pelo nome e ele nunca erra o ponto da carne. Mal passada. Você vai sentir muita falta? Sabia que as horas nas aulas de inglês e espanhol teriam recompensas, se não o novo cargo e salário, as nossas próximas viagens. Serão tantas! Se não tivéssemos nos conhecido naquela segunda-feira de Carnaval, naquela praia, há cinco anos atrás, onde estaríamos hoje, Vicente? Com quem estaríamos hoje?
Agora que iremos ficar juntos, em mesma latitude e longitude, penso: estamos preparados para isso? A pergunta pode ser respondida de diversas formas, mas nenhuma delas interessa. Embora tantas vezes quiséssemos estar perto durante nosso relacionamento, nunca, nesses anos todos, parecemos nos arrepender da escolha que fizemos e isso é o que importa. Por trabalho, escolhemos a distância. Porém, entre o que perdi e o que ganhei, estou contigo, estou com a euforia da chegada, a cumplicidade fortalecida e a sensação que nos acompanha: como se fosse a primeira vez. Te espero pra mais um começo.
Com amor,
Laura
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Laura,
A distância deve ser esposa do tempo. Eles brincam conosco a todo momento, como um gato e sua bola de lã. Essa danada senhorita dilui alguns sentimentos ao mesmo tempo em que aflora outros: a saudade, por exemplo. Já o tempo, seu cúmplice marido, aproveita e corre rápido pra satisfazer os desejos da sua esposa e fortalecer ainda mais esses sentimentos que ela entrega.
Estamos prestes a acabar com essa saudade. Prestes a iniciar uma nova fase e eu nem sei como começar. O que sinto agora é um misto de felicidade e medo do novo. Mas é aquele medo bom de sentir, sabe? Aquele que você sabe, lá no fundo, que vai dar certo.
Claro que lembro do CD que eu te dei (você levou um baita tombo naquele dia após duas garrafas de vinho, hahaha). A Joni Mitchell é uma das minhas companheiras prediletas nas noites solitárias nesse AP de 30m².
Ontem comemoramos. Letícia, João e eu, mas ficamos aqui no AP mesmo. Só gente querida e uma conversa bem nostálgica, já em tom de despedida.
Eu nunca seria engenheiro se não tivesse te conhecido, acho que estaria surfando até hoje. Você me mudou muito, Laura. Pra melhor, claro. Amadurecemos juntos, e acho que o casal tempo e distância ajudou bastante nisso.
Ainda iremos escrever um para o outro? Ou agora serão só aqueles pobres diálogos em restaurantes? Tenho medo da boca não conseguir expressar o que só os escritos conseguem. Durante todo esse tempo o azul do Skype era minha cor favorita, agora quero o vermelho do teu cabelo.
Que nesses dois meses o tempo corra ainda mais.
Um beijo,
Vicente
Now playing: Case Of You.
# Laura é Fernanda Lins, Vicente é Carlyson Oliveira