Manuela e Rodrigo

Olá, Rodrigo

Não costumo escrever para meus pacientes, sobretudo de férias prolongadas, mas o peso de suas palavras saltaram do papel, invadiram meus dias por aqui e o calor da Costa Oeste foi interrompido pela frieza de suas angústias. Espero que minha resposta chegue a tempo de clarear suas ideias. Mas lembre-se do que combinamos: nada é absoluto, fuja das generalizações.

Não devemos dizer tudo sempre. Há espaços, de parte a parte do casal, que devemos reverenciar. Há territórios da nossa vida e da vida do outro que são propriedades privadas. É assim nos relacionamentos. É preciso manter a harmonia e esquecer alguns caprichos. Cuidar de quem gostamos tem a ver com respeito. Anular o outro e anular-se corrói os melhores sentimentos.

Permaneça sempre ao seu lado, não podemos transferir para os outros algo que cabe a nós mesmos. Somos totalmente responsáveis pela condução da nossa própria vida. As escolhas e o livre arbítrio fazem de nós senhores do destino, permita-me o clichê. Você precisa apreciar o imensurável valor da liberdade — sempre urgente e necessária. Será preciso perder para entendê-la? Torço para que não, ao tempo em que termino um café com creme e observo uma gaivota no pier, ora sozinha, ora acompanhada, ainda que sempre a voar. Assim deve ser a vida, Rodrigo. Livre.

Mesmo fora do consultório, te digo: a luta silenciosa de todos e de cada um por uma existência mais tranquila vale a pena, mas cabe a você decidir. Não tenha medo.

Até breve,

Manuela

//

Gaivotas fogem do frio, Manuela, tentam aquecer as asas porque o calor é o impulso para o voo. Congeladas, elas perdem a condição de pássaro e se tornam um peso na paisagem. Assim é a vida, que se divide entre o gelo e o fogo. Assim sou eu, e você sabe bem disso. Na Costa Oeste, o sol liberta hoje as gaivotas e ajuda a redefinir o céu. Livres, elas cortam o tempo com asas arqueadas. Ora sozinhas, ora acompanhadas, às vezes em bando.

Aqui, em Cruz Alta, o frio intensifica a minha angústia. Por isso decidi escrever. O reencontro demoraria quase uma estação. Escrevi sabendo que a resposta seria improvável, mas arrisquei. Desculpe, contrariei a recomendação de não dizer tudo. Fiz isso talvez por desespero, em resposta a tantos conflitos e aos pássaros que pousaram nos meus braços. Não queriam mais sair. A solidão dessa velha cidade também ajuda a me olhar no espelho e reconhecer traços de recomeço. Um aqui, outro ali, e em breve, juntos, eles podem se transformar em aviões. Ainda é cedo para saber.

Por enquanto, carrego duras penas amarradas pelo Minuano, vento gelado que sopra as dores do Sul, e por minha estranha consciência. Há liberdade nas ruas, nos pensamentos, no céu, mas a vontade de encontrá-la ainda depende do sol. Havia um, você bem sabe, que aquecia meus pássaros, meus passos e me afastava do frio. Ele está aqui dentro, guardado em algum lugar, esperando a nova estação chegar com um aceno. Posso até senti-lo quando o dia desponta.

Antes, chegaram as suas palavras. Chegaram com chuva, chuva boa, daquelas que limpam a terra antes de o sol aquecê-la. Vejo também relâmpagos nas frases. Clareiam minha consciência, refletem, tão fortes que podem amanhecer a noite e acordar os pássaros. Não, não tenho medo. Mais confiante, espero estar nas asas do primeiro que decolar rumo à Costa Oeste na próxima estação. Quero muito ver esse pier de perto e saber se as gaivotas de São Francisco voam por causa do sol ou da liberdade.

Com carinho,

Rodrigo

# Manuela é Fernanda Lins, Rodrigo é Victor Mélo

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Fernanda Lins’s story.