Ponto final — Jorge e Lavínia

Não foi um dia fácil. Há pouco mais de um ano não pensaria que estaria aqui, escrevendo sobre 24 horas como essas. Mal sabia que o trânsito até o escritório e o café derramado no terno, ainda pela manhã, só me preparavam para a tarde que nem foi embora e já me tira o sono da noite.

Lavínia apareceu. Saí do elevador e ela estava à porta. Assim, sem cerimônias, circunstâncias ou expectativas. Da minha boca saiu, quase em murmúrio, um você por aqui reticente. Da dela, o meu nome foi pronunciado com firmeza, a mesma que colocou um fim em nossa história.

Desajeitado, nem sabia por onde começar. Comentei dos óculos de grau que ela havia trocado por lentes de contato. Bobagem. Antes de perguntar o que a trazia ao Brasil, ela se adiantou, como quem apressa um diálogo para terminá-lo logo. Disse que estava de férias e foi encontrar os antigos amigos dos quase 10 anos de firma.

Não fosse os cabelos mais curtos e mais claros, arriscaria dizer que é a mesma Lavínia. Mas sei que não. A única pergunta que me fez foi sobre a minha remoção. Ela não sabia, mas desisti de ir embora para que Marcela terminasse o mestrado. O detalhe omitido é que os estudos foram interrompidos por uma gravidez que tem exigido repouso. Fraquejei na hora da informação.

O abismo entre nós foi evidente e, apesar de também surpresa com o encontro, Lavínia pareceu mais preparada do que eu. Ela foi natural e mesmo nas protocolares palavras, articulada. Depois que terminamos o relacionamento saí, algumas vezes, com outras mulheres, na tentativa de punir o meu casamento, de tratá-lo como uma teia que me enredou entre obrigações e rotinas. Pode até não parecer, mas gosto da vida que levo, apenas me assombro com as tantas convenções sociais a que me submeti.

Lavínia mascava chicletes com tanta despretensão, enquanto eu procurava esteio no acaso. O elevador abriu e a minha memória aflita tentou dizer algo que fizesse sentido, já que a saudade que me tomou naqueles minutos parecia não fazer. Ela entrou no elevador, não olhou pra trás e o resto, dentro e fora, foi só silêncio.

Mais tarde, lá em casa, vou abrir algumas cervejas que estão na geladeira, tem futebol e Marcela me pedindo pra baixar o volume da TV e fazer cafuné. Ponto final.

Jorge

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