Assumir os cachos não te faz mais empoderada

Desde o boom dos cabelos naturais no Brasil ser uma garota negra “normal” passou a ser um pouco mais complicado.

Pela primeira vez em muito tempo ser negro passou a ser legal. Há uma imensa quantidade de blogueiras negras surgindo todos os dias, a estética negra está representada em outdoors, revistas, propagandas e comerciais televisivos. Grandes empresas da indústria de cosméticos estão fabricando produtos de cabelo e maquiagem voltada para negros. Mesmo com o racismo estrutural ainda vigente e forte no país, esse boom de representatividade negra que surge ainda tímida, deve ser celebrado, porém ela ainda não é a ideal.

O jornalista e escritor, Felipe Pena em seu livro de Teorias do Jornalismo comenta que, “estereótipos produzem estereótipos, em um ciclo interminável”. Antes, garotas negras passavam um dia inteiro alisando seus cabelos para serem aceitas no corpo social vigente. Passavam dias sem lavar o cabelo e a famosa “chapinha” era sua melhor aliada e companheira. Muitas pegavam pouco sol para não escurecer a pele e se intitulavam como pardas, “morenas jambos”, “moreninha”, “branca queimada de sol” e outros apelidos que mascaravam seu real tom de pele. Feminismo e empoderamento negro, nem se quer eram debatidos ou comentados. Apoiar e celebrar o amor de um casal negro pior ainda.

Com a efervescência negra que aflorou de uns anos pra cá todo esse antigo cenário se modificou. Essa quase revolução negra nos levou há outro padrão a ser seguido; o padrão negro ideal. A transição capilar tornou-se um “ritual” com devotos fervorosos. Vivesse a busca do cacho perfeito, definido e hidratado. Hidratações e produtos capilares aos montes para a busca da perfeição. A frase da vez é, “não nasci essa negra maravilhosa para você me chamar de moreninha”. Militância negra e empoderamento feminino é o ônus da causa.

É quase um dever de uma boa garota negra amar a Beyoncé, ler Ângela Davis, adorar a Tais Araújo e o Lázaro Ramos, ter um cabelo cacheado fabuloso e ser militante. Como dito anteriormente isso tudo é esplendido. Era hora de nós negros passarem a exigir a nossa representatividade, aceitar a nossa cor e a discutir e a debater sobre os nossos direitos e começar a tomar consciência do quão difícil é ser negro, mais ainda ser mulher e negra. Devemos sim ser empoderadas e militantes. Devemos enaltecer nossa estética e querer que todos os “manos” e as “manas” despertem e juntem-se a nós nessa luta. Porém quem não se encaixa nessa onda é hostilizado e jogado de lado, por nós mesmos.

Ter cachos é realmente muito bonito, nos grupos do Facebook as cacheadas dominam, mas e as crespas? E as crespas de pele retinta? E onde está a sororidade com as “manas” que mesmo com a onda natural, ainda se sente melhor com seu cabelo alisado? Por que não valorizar o crespo tão quanto os cachos são? Isso as faz menos negras que nós? Por que excluímos as “manas” que não usam seu cabelo natural, se endeusamos artistas negras que não usam seu cabelo natural?

Ser negro é muito mais que uma estética. É muito mais do que a “geração tombamento” quer passar. Reafirmo que não sou contra a nada que critiquei, pois sou um produto desse meio. Mas precisamos amadurecer, precisamos valorizar o crespo da mesma forma que o cacho, precisamos parar de romantizar a transição capilar (todas que passaram por isso sabe que não é nada fácil e a vontade de desistir dela é constante) e que depois dela tudo vai ser maravilhoso. Devemos saber que anos de repressão não vão embora tão fáceis e que nem todo todos estão preparados para lidarem com sua afirmação de cor e com os desgastes físicos e mentais que a militância acarreta. Temos muito ainda a despertar e que nesse despertar não excluamos ninguém.