O afeto na era da liquidez e o amor achamos que merecemos

Existe um paradoxo bem grande nessa era das coisas líquidas, as pessoas não querem mais criar laços por que se deram conta de que eles não duram pra sempre. As relações vem se transformando de tal forma pra que isso fique cada vez mais claro, casamentos acabam, amizades acabam, a vida acaba, sendo assim, por esse medo do que não podemos controlar, muitas vezes nos privamos das entregas e então estamos constantemente carentes e necessitando de afetividade, necessitando estabelecer conexões mais profundas, muitas vezes sem se dar conta de que é isso buscam. Demonstrar o que se sente virou motivo de tolice.

Ah mas é tão bom se sentir tolo por amor…

Talvez muitas das doenças psicológicas modernas seja devido a esse afastamento, essa falta de afeto e contato, falta de compreensão com as dores e limitações do próximo.

Mas quando criamos laços, muitas vezes logo nos prendemos aquilo e quando eu falo em prender, entenda como criar uma corrente mesmo, bem apertada pra aquilo não fugir, não se esvair. O medo de perder, o medo de que aquilo esteja aqui hoje e amanhã não esteja mais, o medo de não estar preparado pra não ter mais aquela pessoa na sua vida, como se de uma hora pra outra o andamento inteiro da sua vida dependesse de um outro alguém.

O apego e a negação da impermanência. O ideal seria criar um equilíbrio entre os dois. Criar laços, ter responsabilidade emocional, dar afeto sem criar uma dependência emocional. Quando eu falo em apego, as pessoas facilmente confundem isso com “afeto”. Minha compreensão do que é apego é muito mais ligada a visão budista de apego, que tem a ver com medo de perder, insegurança e dependência emocional, tem a ver com a manutenção das prisões do ego e desapego nada a ver com afastamento e frieza emocional. Tem a ver com não se sentir pleno e confortável dentro de si, então sendo necessário buscar esse conforto em outro lugar, em outro alguém.

Nessa era, a definição do que é amor se confunde em meio a uma confusão de outros sentimentos e sensações que acabam por ofuscar o verdadeiro sentido de buscar uma relação com alguém. Afinal, a busca por “um alguém especial” é algo inato ou socialmente construído?

Há uns anos eu me dei conta da importância que damos aos relacionamentos sexuais-amorosos e de como isso ocupava uma grande parte das nossas vidas, a constante busca pelo outro que não deixava que fizéssemos uma viagem interna de encontro a nós mesmos.

Foi quando comecei a me dar conta de que estamos todos perdidos. Eu pelo menos me via completamente perdida, foi todo um processo de aprendizado, de me relacionar com pessoas tão confusas ou mais que eu, de não saber lidar nem comigo mesma, imagine com outra pessoa? De decepções sucessivas, rompimentos turbulentos e dolorosos. De não saber que tipo de energia projetar no mundo, afinal quem não sabe o que busca aceita qualquer coisa que lhe é oferecida por achar que naquele momento aquilo lhe parece bom e muitas vezes não é. Eu não sabia exatamente o que buscar ou esperar de um relacionamento (inclusive qual arranjo era melhor? Monogâmico? Livre?) e por conta disso eu aceitava qualquer coisa. Qualquer meio afeto, qualquer meia entrega.

Foi quando eu tive um insight, eu me vi em uma relação em que, depois de tantos anos de medos e dúvidas, eu me doei 100%, eu me entreguei aquela experiência sem reservas e de coração aberto e vi a outra pessoa não fazer o mesmo, talvez ela até tenha tentado, vai saber, mas eu percebia em cada olhar, em cada expressão corporal dela e nas contradições das palavras dela, o quanto ela não se permitiu e não estava disposta a viver aquela experiência comigo na mesma intensidade. Foi uma vírgula, uma hesitação, um silêncio e eu soube que só eu estava ali de corpo e alma naquele momento.

Há muitas formas de você demonstrar algo com palavras, mas palavras são vento, nem sempre temos coragem de expressar o que sentimos verdadeiramente ou até temos palavras pra expressar o que sentimos. Mas uma coisa que não mente de forma alguma é seu corpo, seus olhos. A maneira como os sentimentos se expressam em cada músculo da sua face e foi assim que eu percebi nela as tantas prisões, os tantos medos, dúvidas, angústias e apegos que eu já tinha visto em mim mesma um dia. Eu não a culpei por isso, por não ter conseguido estar ali, eu demorei muito tempo pra me dar conta do que eu buscava ou merecia, foi quando aquela famosa frasezinha de “As vantagens de ser invisível” fez mais sentido do que nunca.

As vezes a culpa não é sua, não é de ninguém, na verdade. Muitas das vezes nós só criamos prisões nas nossas mentes das quais demoramos demais pra reconhecer e assim poder nos libertar delas e cada pessoa tem seu tempo, a verdade é que essa pessoa não falhou comigo, essa pessoa falhou com ela mesma, por qualquer que tenha sido o motivo, ela se privou de viver plenamente um momento com alguém tava ali, sorridente e disposto a construir algo com ela. Pela leitura corporal, a pessoa parecia querer envolvimento, mas construiu um “dique emocional” e não deixou que nada passasse dali.

É triste como nós nos prendemos a sentimentos ou até a pessoas que claramente (pra quem vê de fora) não enxergam ou não dão valor a tudo em nós que temos de bom pra oferecer. As vezes nem nós mesmos reconhecemos em nós como somos um universo inteiro em movimento e o quanto de bom temos a oferecer ao mundo. Então nós as vezes permitimos que essas pessoas nos tratem como um tanto faz, nós nos permitimos estar numa relação com alguém que se entrega pela metade, enquanto você ta ali, totalmente sem armadura e fora da sua zona de segurança. E essas pessoas fazem isso ou porque querem, de forma consciente, escolhe se relacionar sem um envolvimento mais profundo e sem sair da sua zona de conforto, ou porque naquele momento ela não estava disposta viver o sentimento e as vezes até simplesmente não há uma compatibilidade afetiva e nós demoramos a enxergar isso ou aceitar isso, o importante é haver diálogo sempre pra deixar claro os interesses de cada um.

“ Outra questão é quando alguém sabe sim que não quer um namoro e fala isso desde o início, mas aí a gente, apaixonada, decide que é melhor ter pouco do que não ter nada e continua saindo com a pessoa, na expectativa de que ela perceba o quão maravilhosas somos (SPOILER: isso nunca acontece).” — Laura Pires no texto “Responsabilidade Afetiva”

Se teve uma coisa que eu aprendi na prática e na marra é que quem quer algo de verdade, da um jeito, quem quer ta junto arranja uma forma. As vezes a gente inventa mil e uma desculpas pra não estar em algum lugar mas quando queremos estar, nem mesmo mil contratempos nos impedem de estar ali. A verdade é que nossas prioridades mudam de acordo com os nossos interesses.

Esses dias apareceu na minha timeline uma postagem com essa imagem e a seguinte frase:

“Seja qual for o relacionamento que você atraiu para dentro de sua vida, numa determinada época, ele foi aquilo de que você precisava naquele momento”

E isso me fez refletir cada relacionamento bom e ruim que eu já tinha vivido e como eles tinham me moldado pra ser quem eu sou hoje e ter a sensibilidade e percepção que tenho agora, perceber também que somos sim responsáveis pelos sentimentos que nutrimos ou pelas pessoas que deixamos entrar/permanecer nas nossas vidas e eu percebi que amo quem me tornei e o amor dentro de mim floresceu ainda mais. Foi quando me dei conta de quanto amor e afeto eu tinha guardados no peito e que isso independia de outra pessoa pra existir, esse amor existia por si só, ele só deu vazão do peito e tentou alcançar outro alguém. Alcançar essa paz interior e sentir que seu bem estar não depende de outra pessoa é algo muito gratificante. Saber todos sabemos, mas sentir isso dentro de si, é outra história.

Então de uma hora pra outra não havia mais arrependimento, não havia mais medo, nem auto-punição. Tudo ocorreu como devia ter ocorrido e ocorreu da melhor forma possível, agora é só fazer o balanço dos saldos positivos e negativos e seguir a vida. A compreensão de mim me ajudou a compreender uma outra pessoa e saber que a vida é isso, tudo é mutável e eu voltei ao início desse texto de sentir o medo do mutável e da incerteza mas ainda assim isso não me impediu de demonstrar afeto e amor por alguém. Hoje não foi possível, amanhã não se sabe e não importa porque não tem pra que ter certezas, o que importa é que você saiba o que quer agora e tenha uma direção a seguir, existem tantos seres humanos incríveis no mundo e com certeza vai ter alguém disposto a receber o que você tem pra oferecer e ninguém merece ser um plano B ou um “tanto faz” na vida alguém, não aceitem meias entregas(a não ser que vocês também estejam ali pela metade), aceitem somente a total entrega porque isso na verdade é o mínimo.