É culpa dele…

é tudo culpa do meu pai.

Até então ele era “só” meu pai. Mas eu cresci.

Percebi que ele era diferente quando trabalhei em um hotel 5 estrelas. Percebi que (infelizmente) ele não era a norma, ele era a exceção. Entrei em crise e telefonei pra ele de madrugada: eu estava farta de ver diariamente homens casados traindo suas mulheres com estudantes universitárias. Foi um período complicado. Na época estava recém solteira e havia perdido a confiança na raça masculina depois de testemunhar tanta traição naquele hotel. Confessei que meu pai era o último homem que restava no mundo e que ainda tinha minha confiança.

Espero que isso um dia mude.


Não acredito que alguém nasça feminista. Eu cresci num lar “normal”, numa cidade minúscula no interior de Minas Gerais e podia muito bem ter “a família tradicional mineira” mas nunca foi assim. Também nunca tive a família tradicional de lado algum.

Vejo e ouço atualmente muito sobre relacionamentos. Relacionamentos abusivos, o papel do homem no casamento, reclamações sobre maridos, reclamações sobre ex, etc e tal. Não sei dizer se é sorte, mas reconheço que eu e minha mãe temos que ser gratas. Meu pai nunca foi o tipo de marido que “AJUDA” em casa. Meu pai é o tipo de homem que “DIVIDE”.

Minha mãe encontrou o pacote completo naquela cidade do interior e 26 anos depois eu continuo vendo provas concretas disso. Meu pai é um marido melhor amigo/dono de casa/pai/excelente filho/vô de cachorro/funcionário público em ação.

Então é culpa dele. É culpa do meu maravilhoso pai que eu não aceite menos que isso. Talvez podemos culpá-lo pelo meu nível de exigência com homens. Talvez seja culpa do meu pai que eu esteja solteira… lida com essa, pai!

Meu pai pode não perceber o papel que ele tem na minha vida enquanto mulher feminista. Isso simplesmente por sabe que é POSSÍVEL igualdade de gêneros, porque cresci numa casa na qual os papéis de marido e mulher nunca foram os “tradicionais” (leia-se antiquados).

Meu pai é a prova viva de que NADA destrói um amor verdadeiro. Meus pais são a exceção das estatísticas que provam que 80% dos casais se divorciam com a perda de um filho. Juntos eles são os 20% que superam a pior coisa que se possa imaginar acontecer na vida. Sendo que ao longo dessa mesma vida superam ainda várias outras coisas, porque o tempo não para. Mas é culpa do meu pai que eu saiba que por pior que pareça uma situação vou CONSEGUIR SUPERAR.

Meu pai também prova que homem chora. Meu pai me provou que eu consigo ser forte o bastante pra consolar quando ele chora. Mas ele também mostra que não tem problema chorar com ele ou pra ele. Lidando com as cirurgias da minha mãe, com as eternas noites de hospital meu pai mostrou que resiliência e amor andam lado a lado. E não faz mal ter medo, demonstrar, chorar, sofrer. Só não podemos nos entregar ao sofrimento.

Meu pai me ensinou a amar uma mãe como ela deve ser amada, na saúde e na doença. Desde os 8 anos que minha avó (paterna) viveu com a gente. Quando eu tinha uns 14 anos ela deixou de lembrar nossos nomes. Até o começo desse ano, quando ela partiu desse plano terrestre pra um plano superior não houve uma noite em que meu pai não fosse ao quarto verificar se ela estava coberta, se o travesseiro estava do jeito certo e detalhes desse tipo. Por mais que ela não nos escutasse, por mais que ela não nos reconhecesse, por mais que ela não abrisse os olhos, meu pai sempre esteve lá pra lhe desejar boa noite. Sendo assim é culpa dele que eu não passo uma noite sem falar o clássico “boa noite, dorme com Deus, te amo” mesmo que por skype.

Meu pai me deu meu melhor presente. O melhor presente que um filho único pode ter. Um cachorro. Ele provavelmente discutiu com minha mãe (extremamente contra cães em casa) sobre isso. Mas no meu aniversário de 11 anos, me aparece ele com uma caixa de sapatos. Eu não queria sapatos e a caixa ainda por cima estava toda furada. Era ela, do tamanho de um rato: a Kika (nome que escolhemos juntos). E foi graças a esse presente que até hoje substitui um bocadinho do ninho vazio que eu deixei quando saí de casa aos 18 anos. Kika já tão velhinha que não enxerga, mas sabe exatamente a hora que meu pai chega em casa do trabalho. Então, sorry mãe, mas é culpa do meu pai se a Kika faz xixi no seu tapete, porque não fosse meu pai eu nem teria ela.

Meu pai mostra que quem ama cuida. Cuidou sempre de mim, da minha vó e agora da minha mãe. Ele não é médico mas é graças a ele que minha mãe tem mais um dia de vida e mais outro, e mais outro… e mais vários até hoje e adiante. Também é ele que me dá uns diagnósticos por ligação de vídeo, sempre com a mesma frase de efeito: “tem que alimentar a gripe” — ele quer dizer que eu tenho que comer quando to doente e sem fome.

Meu pai cozinha bem. Muito bem. E ele gosta de companhia na cozinha. E de música boa. Aliás é culpa dele meu gosto musical. Meu pai me fez assistir Forest Gump quando eu tinha uns 10 anos. Não entendi nada de nada sobre o filme (hoje já entendo e se tornou um dos meus favoritos) mas amei a versão de “Blowing in the wind”, então ele me deu o cd da trilha sonora. Antes disso, a primeira música que aprendi a cantar foi do Caetano Veloso: “Meia lua inteira”, vinda de um antigo disco de vinil. Talvez “cantar” seja um termo forte porque eu devia ter menos de 3 anos e só sabia a parte do “e ra ra ra rá”.

Meu pai me ensinou a curar ressaca. Meu pai me ajudou nas primeiras vezes que bebi: “não conta pra sua mãe, me chama” e me deu uma pequena farmácia de líquidos verdes pro fígado. Eu não sei dizer se foi meu pai que me ensinou a beber também, mas herdei esse talento dele com certeza.

Meu pai me ensinou a sempre correr atrás dos meus sonhos, e a me orgulhar das minhas conquistas.

As vezes ele achava meus sonhos muito ambiciosos… mas pra ser sincera, sempre foram.

Com 12 anos expliquei pra ele o que era intercâmbio. Também com essa idade já expressava minha vontade em viver no exterior. Na época ele deve ter pensado que era coisa de criança… mas olha de onde estou escrevendo agora, né pai?!

Falando em sonhos meu pai me ensinou a ter PRIORIDADES. Se eu queria morar fora eu teria que saber falar inglês. Pra isso eu não podia faltar no curso, tampouco desistir (e olha que eu tentei). Meu pai nunca foi de me falar sobre dinheiro, mas sempre me conscientizou de que como funcionários públicos ele e minha mãe tinham certos limites financeiros. Se eu quisesse mesmo fazer meu intercâmbio eu ia abrir mão daquela roupa, daquela festa (que todo mundo ia), daquela viagem, e assim por diante. Hoje, culpa do meu pai, eu sei lidar com as prioridades e esse saber me fez realizar coisas que eu nem pensava que seria capaz.

Tem outra coisa: meu pai confia em mim e é culpa dele que eu confie em mim também.

A primeira reação dele é dizer não. Ele tem medo. Afinal sou eu a única filha que ele tem. Mas no fundo ele conhece a mulher que criou e confia no que essa mulher se tornou. Além de confiar ele apoia minhas escolhas, de tal maneira que independente do ponto do globo em que eu me encontre sei que não estou sozinha.

Quando decidi que ia mudar pra capital (a nove horas de distância) pra estudar Turismo meu pai me apoiou. Apesar dos comentários malvados/desnecessários de pessoas próximas que diziam que “Turismo nem é curso”, meu pai me defendeu. Quando colhi os frutos do meu esforço do meu “não-curso” de Turismo pra fazer um mestrado internacional meu pai mais uma vez disse não, pra depois dizer sim e me dar apoio incondicional.

Muita gente se pergunta como eu cheguei onde cheguei vindo de onde eu vim. Acho a resposta é o conjunto de ensinamentos cuja culpa é do meu pai.

Eu sinto muito pelas filhas e filhos que não tem um pai assim, ou pelas mulheres que não são minha mãe e possuem aquele tipo de marido que “ajuda” em casa. Mas mais que isso eu sinto gratidão por ter sempre um exemplo masculino de bom caráter na minha vida. Caráter que moldou e molda o meu.


Por muito tempo eu quis ser mais leve como minha mãe (e uso ela de exemplo pra tentar ser), quis também acreditar que minha personalidade pudesse se parecer mais com a dela: despreocupada, sempre otimista, sempre tranquila. Mas por vezes me vejo tensa, ansiosa, adulta demais pra minha idade.

Assim é também meu pai: o homem mais responsável que eu conheço. As vezes irrita. As vezes eu quero que ele relaxe, que ele se divirta mais, preocupe menos, coisas que nem eu mesma consigo fazer.

Quando eu to ansiosa, preocupada, etc e tal minha mãe solta a pérola: você é igualzinha seu pai. Mas não tem problema. Nós dois compartilhamos os mesmos defeitos, mas minha intenção é honrar o título de ser parecida com ele possuindo as mesmas qualidades, sendo culpada pelas mesmas coisas incríveis que o Fernando fez/faz.

Ps.: o fato de ter o nome igual ao do meu pai é culpa da minha mãe.

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Feliz dia dos pais, gordo! E esse texto também serve pro seu aniversário, então aproveita.

Boa noite, dorme com Deus, te amo.

(e espero que goste desse presentinho feito à mão, à medida, e à distância)