Como eu vim parar em Portugal?

Na minha primeira festa surpresa (de despedida para Portugal), ganhei um caderno para “Minhas Histórias Incríveis” da minha amiga mega incrível Sarah Biondo. Confesso que olhar pro caderno em branco me deixa cheia de ansiedade. Já foram incontáveis aventuras e desventuras vividas e não registradas — nada promissor pra quem pretende “estar escritora” no futuro/agora.

A questão é que a grande aventura começou bem antes de colocar os pés em um outro continente. E, respira fundo: esse não é mais um textão no estilo “largar tudo e seguir seus sonhos” ou o que seja.

Essa é a minha história e só minha. Sendo minha nela não existe certo ou errado. Mas existe um ser humano com suas forças e limitações 100% responsável por cada decisão tomada até aqui.

Mas se essa conversa de “largar TUDO” pra você se referir a pedir demissão de um emprego que não te faz bem então eu já larguei esse “tudo” várias vezes.

A questão é que pra mim um emprego não é tudo (e reconheço aqui meu privilégio em poder fazer essa afirmação), uma casa própria não é tudo, uma cidade é uma cidade e pessoas não são objetos a serem largados. Então, sinceramente eu “larguei nada”.

O que acontece comigo (e com muita gente) é que a vida ri quando faço planos. E aí pra se divertir um pouco mais (e surtar uma virginiana controladora), ela age como uma montanha russa colocando todas minhas certezas de cabeça pra baixo.

Não dá pra contar todas histórias incríveis e nem tão incríveis do começo, senão seria meu possível futuro livro (?) aqui e agora. Mas vou dar uma “palhinha” do que aconteceu comigo nesse primeiro semestre de 2017, simplesmente porque escrevendo consigo compreender tudo de forma mais clara — e ainda posso fornecer informações pros curiosos de plantão.

Uma novela mexicana perderia se tentasse competir com meus primeiros meses desse ano.

Uma série de fatores me fizeram perceber que eu não estava feliz no trabalho e no estilo de vida que estava levando. A sensação era que toda minha criatividade e talentos estavam se sufocando em meio a uma sala sem janelas, muito fast food e várias planilhas do excel.

https://giphy.com/gifs/sad-crying-how-i-met-your-mother-Ndb82bzY0VsiY/

Eu me achava inútil e burra por fazer diariamente algo que sei que não sei e nem gosto de fazer: contas. Números e números o dia todo. Isso pra uma pessoa que tem dificuldades pra olhar as horas em relógios de ponteiros.

E foda-se! [desculpa, mãe!]

Mas que se foda as planilhas e os relógios. Eu sobrevivo bem sem eles (ou pelo menos com o básico deles, e aqui cabe um muito obrigada aos relógios digitais, calculadoras e celulares).

Meus talentos verdadeiros gritavam para serem desengavetados.

Já não havia tempo ou disposição para ler, escrever, desenhar. Não havia dinheiro suficiente para viajar e havia vontade de sobra de cancelar esse negócio de vida adulta.

Então eu estava triste. E como se não bastasse, surgiram mais provas no caminho para testar a fé que tinha em mim mesma e na humanidade. Quando percebi que a depressão já era uma colega de quarto íntima (SIM, PRECISAMOS FALAR DE DOENÇAS MENTAIS), recebi um convite para uma coisa que eu não sabia bem o que era.

O ponto é que o convite veio na hora certa e da pessoa certa. Um dos primeiros amigos que fiz ao me mudar para Belo Horizonte e que apesar de alguns espaços de tempo sem contato sempre estava “ali” pelas marcas que imprimiu na minha jornada (todo mundo deveria conhecer um Thiago Raydan).

Aquela mensagenzinha no Facebook em forma de convite foi o universo me dando as mãos, oferecendo uma chance de restaurar o que estava trincado dentro de mim.

“Reaprendendo a aprender” — reaprendendo a ser eu mesma, pensei.
(Design por Isabel Campolina)

Aí veio o DOJO (clique aqui para entender mais sobre, senão o texto vai ficar MUITO longo: https://medium.com/@perestroika/acabe-com-a-escola-dos-seus-sonhos-9998ba12f26a).

No Dojo eu vi, senti e vivi que não estava sozinha. E o mais importante: “TÁ TUDO BEM QUANDO NÃO TÁ BEM”.

Por isso eu vou tentar escrever da forma mais sincera e sem tabus, pois, até mesmo as aventuras mais incríveis envolvem momentos de dor, solidão, angústias, ansiedade mil, idas ao hospital.

Me lembro que num dia de tédio minha amiga (oi, Lipa!) estava frustrada por estar ali de bobeira enquanto vários amigos estampavam em suas redes sociais fotos em praias paradisíacas na Ásia.

Como já trabalhei em agência de viagens, em agência de intercâmbio e tenho muitos amigos com o carimbo tailandês no passaporte lembro de brincar com ela dizendo que a maioria deles teve algum tipo de infecção alimentar. Só que de TODOS casos que ouvi nunca vi uma foto com a “#diarréia”. Vou te dizer que eu também não postaria.

Quem vê sua foto bonita no exterior não imagina o quanto foi pra chegar até ali e o quanto ainda É.

MAS ENFIM. Chegou uma Fernanda no DOJO e saiu outra.

A primeira precisava de auto-conhecimento, auto-estima e necessitava urgentemente de um chamado de aventura (mas não sabia). Enquanto isso, bolava planos mirabolantes (e bem específicos) de mudar pra Saquarema, criar seu próprio Hostel (OI?), aprender a tocar ukulele e meditar. Simples, né? Tudo isso em 3 meses, por favor.

Pra deixar claro: falhei miseravelmente nesses projetos. E aceitar desistir deles foi meu maior aprendizado. Percebi que não adianta insistir em coisas que não fazem mais sentido.

Aquele sonho de infância, aquela faculdade que não se encaixa em nada no seu perfil, aquele relacionamento confortável porém estacionado, aquela academia que só faz sugar seu cartão de crédito…

Aprendi que não há NADA desonroso em desistir e não há nada mais corajoso que MUDAR. Pior é se contentar com uma vida “mais ou menos”, tentando se adequar a padrões ou expectativas alheias, por medo de sair ou expandir sua zona de conforto. Por medo de desfazer laços que já estão corroídos, e por aí vai…

MAS QUE QUE TUDO ISSO TEM A VER COM O TÍTULO DESSE TEXTO?

A questão é que de criança tímida me tornei uma adulta bem “cara de pau” (isso surgiu da necessidade de me adaptar a diversas situações difíceis ao longo dos meus 24 anos).

Fui cara de pau do tipo que procura até achar a autora portuguesa que escreve sobre o tema da monografia no Facebook. Mandei mensagens para ela elogiando seu trabalho e dizendo a importância de suas publicações para minha pesquisa. Quem diria que hoje somos amigas?!

No meio da crise de infelicidade (ainda em 2016) essa autora maravilhosa, Sílvia Quinteiro, me mandou um convite. Sendo assim, acabei por aceitar e enviei um artigo despretensiosamente para o “Congresso Internacional de Turismo” (INVTUR) em Portugal.

Meu artigo foi aceito. Agradeci, mas disse que não poderia comparecer. Questões financeiras, vocês sabem.

Nessa noite cheguei no DOJO chateada. Tinha conquistado algo mas perderia a chance de ser publicada por falta de dinheiro. Eu já tinha aceitado que não iria apesar de nenhum dos meus colegas de curso concordar com o meu conformismo.

Mas num domingo qualquer, a caminho de uma cachoeira recebo uma mensagem da mesma autora (e atual amiga), dizendo “acho que seria muito importante que você viesse e se possível aproveitar para conhecer a universidade do Algarve e as opções de mestrado” — tomo a liberdade de escrever de forma não literal as palavras dela.

Tava aí uma coisa interessante pra mim: MESTRADO. No Dojo eu aprendi que gostava de aprender e que se calhasse queria um dia ensinar. Já havia pesquisado valores de pós, mestrados, e até cogitado (por breves instantes) fazer outra graduação.

“Turismo, Cultura e Patrimônio”. O nome do mestrado me encantou. Decidi (e quando eu decido decido mesmo), que iria fazer esse mestrado.

Mas e o dinheiro?

(https://giphy.com/gifs/disney-alice-in-wonderland-UFxJYQeOoplMk)

Assisti o documentário “Minimalismo” (disponível na Netflix). Fiz um bazar, fiz mais bazar, vendi meus móveis, saí do apartamento pra morar com minha tia, saí do emprego, saí da academia (que eu nem ia), cortei o cabelo (mas esse foi pra doação mesmo), apliquei a lei do desapego GERAL.

Ganhei apoio financeiro de parentes e de amigos que compravam coisas minhas mesmo sem precisar (GRATIDÃO!). Mexi na minha poupança, contei com o apoio incondicional dos meus pais que sempre acreditaram nas minhas decisões “fora da caixa”. Sei que eles suaram e suam para me ajudar de todas as maneiras possíveis, sei que eles choram de saudade mas ao mesmo tempo me dão toda a força pra continuar. Isso é AMOR. E isso não se “larga”.

Enfim. Liguei pra um amigo (Rapha, valeu pela paciência!) que me achou uma passagem. No mesmo dia achei um mochilão na promoção. Na outra semana fiz uma mini farmácia, coloquei a mochila pesada nas costas, despedi dos meus pais preocupados no aeroporto e vim. Assim.

Devia ser a pessoa mais jovem do Congresso. Ou então a autora com menos títulos e publicações. Não tinha pós, nem mestrado, nem mesmo um ano de formada. Subi no palco do maior auditório da Universidade de Aveiro e falei. Depois debati o tema. Quando acabei achei que iria vomitar e vomitei mesmo. Mas passou. E sinceramente, humildemente, mas reconhecendo minhas conquistas: foi um sucesso.

Meu tema acabou por ser “inovador”. E atraiu a atenção de gente importante no meio do Turismo. De Aveiro então eu precisava vir pro Algarve, sul de Portugal. A passagem contada para 3 meses. Mas de novo: E o dinheiro?

Aí entra minha experiência na plataforma “Worldpackers” (https://www.worldpackers.com/) que me salvou não apenas financeiramente, mas acrescentando MUITAS AVENTURAS INCRÍVEIS.

E essas ficam pra um próximo texto…