sobre aeroportos & hospitais

(E sobre porque você deveria ser um doador de órgãos)

Juro que minha intenção era escrever um texto leve e descontraído comemorando meu primeiro ano vivendo em Portugal. Mas seria mentira. Não mentira que tem um ano que eu de fato vivo lá, porém mentira que esse tenha sido um mês leve e descontraído. Então obviamente minha cabeça travou e minhas mãos não digitaram o tal texto alegre. Eu estava no Brasil e mais especificamente num quarto de hospital quando o aniversário de 1 ano chegou. E com ele chegou a necessidade de escrever exatamente o que você vai ler abaixo.

…………………………………………………………………………………….

Sabe aquelas músicas que você só entende o real significado anos depois? Então. Relaxa, não to falando sobre “segura o tchan, amarra o tchan” — senão depois de 9 meses você vê o resultado- apesar de só ter compreendido essa melodia em sua plenitude depois dos 15 anos (e foi um choque). Mas se você for um bom noveleiro dos anos 2000 vai se lembrar da novela “Senhora do Destino”, aquela da Nazaré, sabe?!

Se não fica aqui um meme pra refrescar a memória:

(Joga “Nazaré” no google que você encontra esse meme)

↪Lembrou?!

Hoje com 25 anos percebo a preciosidade da trilha sonora de abertura da novela. Olha só um pedacinho:

“Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir” — Encontros e Despedidas (Maria Rita)
(https://media.giphy.com/media/l2R01mSIsazqNQ7ks/giphy.gif)

Não sou nenhuma expert em análise musical, poesia ou algo assim. Mas essa música é prova irrefutável da minha mais recente teoria (ou seria apenas um devaneio?) sobre aeroportos & hospitais — e porque você deveria ser um doador de órgãos.

Recentemente comecei a trabalhar em um aeroporto. Não foi um plano. Como a maioria das coisas na minha vida foi algo que “simplesmente aconteceu”. Vou te dizer que é difícil ver todos os dias pessoas viajando para diversos cantos do mundo enquanto trabalha. Mas nem toda viagem é pra lazer.

No Turismo a gente aprende os diversos segmentos, modalidades, enfim. Todo e qualquer tipo de Turismo nos é apresentado. Porém, uma coisa que não conhecemos é todo e cada tipo de turista, simplesmente por não estarmos na mente de praticamente todas as pessoas. E então falamos muito sobre subjetividade quando falamos de Turismo.

Nos últimos quatro anos ganhei uma infeliz afinidade com hospitais. Devido aos tratamentos da minha mãe já passei 28 dias seguidos em um. Recentemente tive de reviver essa experiência hospitalar, dessa vez sem visitas a UTI (amém!).

A questão é, esses lugares de passagem que parecem ter tanto em diferente tem muito em comum e o que os une é o fator HUMANO. Tem gente. Tem carne. Tem sentimento. Tem corpos. Cada um com seu propósito, cada um com sua motivação. Mas tem.

A frase preferida do meu pai sobre hospitais é: “os que estão aqui dentro estão loucos pra sair e os que estão lá fora - na fila - estão loucos para entrar”. Fazendo uma comparação tosca (porém válida): quando a gente viaja queremos fazer logo o check in, despachar logo aquela bagagem pesada, entrar logo no avião e partir. Quando estamos dentro do avião queremos logo que chegue, que ele pouse e que corra tudo bem (com exceção a terroristas, porém creio que os mesmos não fazem parte do meu pequeno grupo de leitores).

Quando estamos num hospital, e, principalmente quando ficamos muito tempo nele percebemos que não é só tristeza. Vai na área do berçário. Muitas pessoas estão lá felizes, fazendo o que justamente queriam fazer. Lá tem essas novas vidinhas que vão dar trabalho mais tarde na hora de despachar um carrinho de bebê, chorar ou sujar a fralda bem durante uma longa fila de embarque.

A questão é que tanto no aeroporto quanto no hospital nos deparamos com chegadas e partidas (já dizia a música lá em cima). No aeroporto já vi pessoas sendo recebidas por familiares e cães, por amores, flores e abraços apertados, ou então simplesmente pela cia de “rent a car” (aluguel de carros) e motoristas de resorts.

E assim é a vida. É um aeroporto, é um hospital…
é simplesmente um lugar de TRANSIÇÃO.

Mas, se quando realizamos nossa partida de um terminal aéreo nos preocupamos com o desvio de bagagem ou em proteger nossas malas de mão, vou te dizer que as partidas de hospitais (e as partidas além vida) são bem mais descomplicadas.

Não precisa carregar nem despachar nada. Só vai contigo o que já tava dentro de si, aquilo que já era intrínseco. Sejam boas lembranças, amores, caráter e bondade ou o oposto disso tudo também. Cabe a você decidir o que levar na travessia e o que carregar no coração.

Lembrando que muitos daqueles passageiros de hospitais que ainda estão lutando por um lugarzinho mesmo que na “classe econômica” da vida podem se beneficiar imensamente do que você não precisa naquela sua viagem confirmada a partir do momento em que nasceu.

Pra viagem final tudo que é casca fica. Se deixar apodrecer, já era. Mas se for doado… ah, se for doado é outra história. É como dar milhas pra um desconhecido continuar viajando nessa coisa louca que é a vida, seja através de córneas, pulmões, rins, coração.

Doar órgãos é se tornar um eterno viajante, que divide a bagagem compartilha o que não falta e vai… vai mas fica eternamente na gratidão do outro em poder curtir um pouquinho mais. E já que esse texto começou com música que termine com mais:

“São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida…” — Encontros e Despedidas (Maria Rita)
Selena Gomez e Francia Raisa após transplante de rim. Fonte: instagram @franciaraisa)
A vida a gente um dia vai deixar de levar. Mas podemos deixar um pouco dela ficar. Desapega. Doe. Salve.

ps1: avise seus amigos e familiares caso tenha intenção de ser um doador de órgãos ☺

ps2: Encontros e Despedidas (Maria Rita): https://www.youtube.com/watch?v=tyBvtrjLUrg