Nenhuma de nós é

Essa carta é para você.

Quando nos tornamos adultos, passamos a ter sentimentos de adultos. Acredito que não exista criança triste, por exemplo, que isso é coisa de adulto. Criança é sincera demais com a vida para perceber que tristeza é uma parada real. No máximo elas ficam chateadas. Mas isso é o que acredito, que também não diz muito.

“Todas as crianças são tristes, mas algumas melhoram”. Esse verso é parte de um poema da Margaret Atwood e nossa, como faz sentido. Quando te vejo triste, imagino aquela criança que um dia você foi, embaixo de uma árvore, na sombra, chateada. Ela não sabe o porquê e talvez nem você.

Nenhuma de nós, minha amiga, nenhuma de nós somos tristeza. Porque sentimentos são passageiros: amor, raiva, felicidade, eles vão e voltam; alguns são nuvens, outros tempestades. Mas passam.

Lembra dos seus sonhos? O que houve com eles? Por que foram todos substituídos por uma boneca sem olhos? Por que seu rosto no espelho chora quando todos vão embora?

O que aconteceu?

Nenhuma de nós é só tristeza. Você não é só tristeza; a força que existe em você é tão grande, tão magnífica. Ela só está escondidinha, com medo do que você vai achar dela. O que me impressiona, pois sua força tem medo dela mesma.

Nenhuma de nós é só felicidade. E está tudo bem ser um pouquinho de tudo, na verdade, é assim que faz sermos tão únicos. Um pote de cada coisa nos transforma em nós mesmas. E amiga, como você sabe disso!

Queria que você se visse da maneira que te vejo. E que essa fase vai passar; demora, dói, nos queima, mas passa. E que não importa o quê, estarei do seu lado.

You may write me down in history
With your bitter, twisted lies,
You may trod me in the very dirt
But still, like dust, I’ll rise.