Onde eu estava quando tomamos 7x1

(inspirado no texto da Rachel Juraski)

Assim que o Brasil derrotou o Chile, nas quartas-de-final da Copa do Mundo, eu já comecei a ficar com o cu na mão dali em diante.

Jogaríamos contra a Alemanha mas quem se importa? “Os caras estão amando o Brasil, teve um jogador lá que até disse que vai se mudar para a Bahia e tal”. Eu me agarrei nisso e pensei ‘eles vão pegar leve’. Sonho meu. Ah, e ainda tinha o negócio do Neymar, que tinha se machucado, a imprensa caiu em total desespero, como se a Seleção fosse um atleta somente. Outro mantra pra me agarrar: “temos 11 jogadores, temos 11 jogadores”.

Nos jogos do Brasil, minha irmã sempre fazia uns deliciosos quitutes (ela chegou a fazer pastel, coxinha, bolinho de arroz, drinks em geral), o que ajudava a dar uma aliviada a cada vez que o Fred jogava pior que eu. Mas, neste dia, no fatídico 8 de julho de 2014, ela não fez. Na verdade, fez algo sim. Compramos, uns dias antes, uma linguiça que tava em promoção no mercado. Era de frango recheada com queijo. E biscoito de polvilho. Prontos para a hora do show.

(As cenas a seguir são de dor e sofrimento)

Quando abri o saco de biscoito de polvilho, ele tava meio farofa e sujou todo o sofá. Tudo bem, vale tudo para conquistar o hexa. O negócio começou a ficar ainda pior quando era aqueles biscoitos DOCES (sério, parem de fabricar biscoito de polvilho doce, aquilo é um atentado à humanidade). Mas, como estava tensa e naturalmente ansiosa, comi meio pacote.

O clima não tava ajudando muito, tava muito frio em São Paulo, em Minas também (onde foi o jogo) e o pessoal tava com uma cara de cu porque “ai, meu Deus, o Neymar não joga”. Foda-se, gente. Vamos lá.

O Galvão Bueno deu a palavra de encorajamento dele, sua palestra motivacional e a gente pensou que dava para ir. Porra, é o Brasil, país vencedor de cinco Copas do Mundo, não é o G.E. Lagoinha da Vila Maria. Mas sei lá, a energia tava estranha.

O jogo começou, o cheiro de merda que vinha do campo estava sendo captado pelas TVs de todos os brasileiros quando a Alemanha fez o primeiro gol. Minha irmã suspeitou que essa primeira leva de azar era porque não tinham belisquetes pra gente comer. Foi no forno e tirou a linguiça.

PIOR COMIDA DA MINHA VIDA. Sinto pena, dó, injustiça social com o que fizeram com o leite e com o frango, para ser esmagado, processado e virado uma merda de linguiça. Talvez ela estivesse profetizando o que seria o 8 de julho.

Quando fizeram o segundo gol, eu pensei ‘pô, dá para virar. Tem que dar. Vai, Deus, ajuda aí’. Mas Deus não ajuda time preguiçoso e PLAU mais um gol da Alemanha. Nessa hora eu desisti. Vi meu pai gritando ‘Vai, Alemanha!’, minha irmã com cara de ‘que porra estou vendo’ e minha mãe, com comentários ‘gente, futebol é tudo roubado’.

Saí da sala. Entrei no quarto, fechei a janela e a porta, liguei o computador e fui ouvir música. Coloquei ‘A Luz de Tieta’ no último volume, para não ouvir a vizinhança gritar contra os alemães. Dei uma passadinha no Twitter, mas tava parecendo um cenário de guerra. Perdemos. 3x0. Vamos aceitar, tem outras Copa.

Minha mãe entra no quarto.

— Fê, 4x0.

— Fê, 5x0.

— Fê, 6x0.

— Fê, gol do Brasil…

— BELEZA, MÃE, EU TÔ ACOMPANHANDO POR AQUI (mentira, não tava, meus olhos vermelhos de ódio não conseguiam olhar para nada)

— Fê, você acredita que tá 7x1????

Fiquei lá ouvindo Tieta no repeat enquanto meus ouvidos estouravam até que, GRAÇAS A DEUS, o jogo acabou. Daí vem minha irmã falando: ‘AAAH HAHAHAH VAI PRA MERDA, BRASIL, TIME DE MERDA, 7X1 DE BOSTA’. Isso não tá acontecendo.

Mas tava.

No outro dia, o Brasil acordou meio de ressaca. E na cozinha de casa também: “se eu soubesse que essa linguiça seria tão ruim quanto o jogo, não teria feito”, resmungou minha irmã.

Depois vi que A Luz de Tieta foi a música que os alemães escolheram para homenagear a estadia no Brasil. Doce coincidência.

Feliz 7x1!

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